Quando tudo isso acabar

Quando tudo isso acabar, eu quero sair à rua e ver se ainda me lembro de como se circula pela cidade. Quero correr pelo calçadão, sentindo o vento no rosto, até chegar ao Aterro, onde as árvores filtram a luz do sol e deixam o inverno ainda mais gelado. Quero desligar a música no celular para ouvir o canto dos passarinhos, alheios a buzinas e motores lá no asfalto. Uma água de coco, por favor. Depois, voltarei caminhando para recuperar o fôlego, até perdê-lo de novo quando o Pão-de-Açúcar e o Cristo ressurgirem no horizonte.

Quando tudo isso acabar, eu quero rever meus pais. E avós, tios, primos… Juntar a família toda num preguiçoso almoço de domingo, em que cada um leva o que quiser e a tia Lúcia leva o pavê de pêssego. Tem dia das mães e aniversários para colocar em dia; tantas conversas, risos, piadas e fofocas daquela parte da família que ninguém convida e que só convive em situações extraordinárias, porque parente não se escolhe. Quando cada um for caindo para um lado, vou passar um cafezinho, alguém quer? Ânimos revigorados e papo reanimado. E vai todo mundo ficando para o lanche até que, meu Deus, começou o Fantástico e amanhã é dia de trabalhar.

Quando tudo isso acabar, eu quero dar uma festa. Sem nenhum motivo aparente, apenas para celebrar os encontros e o milagre de estarmos vivos. Vou chamar todo mundo e apresentar quem não se conhece, um beijinho, ou dois, ou três, muito prazer. Vai ter aquele burburinho que nos obriga a falar mais alto para ser ouvido e a rir em silêncio, porque gargalhada se entende até muda. E, sem se importar com qual música toca, todo mundo vai dançar como se não houvesse amanhã, porque – aprendemos agora – talvez não haja mesmo.

Quando tudo isso acabar, eu quero ir ao cinema. Assistir a uma comédia daquelas bem bobas, que nos deixam cansados de tanto rir. Espero que a sessão esteja lotada, porque as cenas são bem mais engraçadas quando rimos junto com os outros. Que os trailers sejam um prenúncio de boas estreias futuras e de que a vida estará mesmo voltando à normalidade. Pouco vai me importar que as pessoas comam pipoca fazendo bastante barulho, porque o croc croc nem atrapalha. Mas que ninguém leve hambúrguer com milkshake, porque já é avacalhação. E desliga o celular aí, que a luz está atrapalhando. Tomara que os créditos tragam os erros de gravação, para ajudar a passar o tempo enquanto o público se dispersa e para o Victor esquecer de perguntar se eu vou ficar para limpar a sala.

Quando tudo isso acabar, eu quero voltar aos meus restaurantes preferidos. E já peço que os acompanhantes tenham paciência comigo, porque vou demorar ainda mais para escolher um prato do cardápio. Por favor, não briguem se eu optar pelo de sempre. É que tantas opções parecem boas. E não vira agora, seja discreto, mas olha que lindo o peixe que o senhor da mesa aqui à direita pediu. Vou fazer o garçom repassar toda sua lista de sucos, mesmo sabendo que não tem uva ou caju, os únicos que eu bebo. Mas vai que mudou nos últimos tempos. Sobremesa? Com certeza, mas para dividir, e que não seja sorvete nem nada muito doce.

Quando tudo isso acabar, eu quero ir ao shopping. Nem vou comprar nada, só dando uma olhadinha mesmo, qualquer coisa eu chamo, obrigado. Ver as vitrines, saber que o que nunca se pensou em ter está na promoção e ficar tentado a levar. E desde quando você vai usar isso? Sei lá, vai que um dia preciso. Tá bom, melhor não. Ficar horas olhando lojas de decoração para passar o tempo. E entrar em todas as lojas de departamento, já de olho em algum presente para um aniversário que vem chegando. Ou Natal. Ou achei isso a sua cara, espero que goste.

Quando tudo isso acabar, eu quero entrar de novo naquela livraria imensa aqui da esquina e me perder nos labirintos de prateleiras. Passar o tempo descobrindo novidades. Puxa, essa edição é muito mais bonita do que a que eu tenho em casa. Vou procurar aquele livro que a Carol me recomendou, porque da última vez ela acertou na indicação. Olharei também as estantes dos importados, porque sempre é bom treinar uma língua estrangeira na companhia de boa literatura. Que eu consiga sair com poucas compras. Se não, tudo bem também, livro não é gasto, é investimento.

Quando tudo isso acabar, vai ser como era antes? Será que vamos continuar a fazer as mesmas coisas do mesmo jeito? Ou vai mudar tudo e teremos que reaprender a ser e estar no mundo? Por enquanto, são perguntas sem respostas. Enquanto a pandemia não passa, vou organizando a lista de desejos. Incluindo novas atividades, definindo prioridades. Se vou cumprir, não sei. Continua tudo meio indefinido, incerto. Mas já tem um monte de coisas que eu quero fazer quando tudo isso acabar.

Imagem: ‘Paint the future’, de Andrew Judd

‘Batkid – o início’

O que é preciso para transformar um sonho em realidade? Patricia Wilson é uma das pessoas mais preparadas para responder a essa pergunta. Ela é diretora da Make a Wish, uma fundação criada em 1980, nos Estados Unidos, para realizar os desejos de crianças com doenças graves e ajudá-las a recuperar uma parte da infância perdida entre hospitais e longas fases de tratamento na luta pela sobrevivência.

Um dos sonhos que Patricia ajudou a tornar real foi o de Miles, morador da pequena cidade de Tulelake, no estado americano da Califórnia. Quando tinha por volta de um ano e meio de vida, ele foi diagnosticado com leucemia. Depois de anos de tratamento, com o menino já próximo à remissão, a família entrou em contato com a fundação: Miles queria ser – ainda que por um dia – seu herói favorito, o Batman.

No dia 15 de novembro de 2013, o mundo conheceu Batkid. E não há qualquer exagero em dizer que a história foi manchete em países tão diversos quanto a China ou a Noruega. É que, naquele dia, São Francisco virou Gotham City. A empreitada foi tão grande que envolveu o departamento de polícia e a prefeitura. Quarteirões inteiros foram bloqueados para a passagem do batmóvel, aguardada por milhares de voluntários, muitos deles vindos de avião. Hans Zimmer, responsável pela trilha sonora da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan, compôs um chamado especial para o projeto. Atores que interpretaram o personagem no cinema e até o então presidente Barack Obama enviaram mensagens para Miles, agradecendo-o por ter derrotado Charada e Pinguim, salvando a cidade.

A bem-sucedida empreitada está recontada em ‘Batkid – o início’ (‘Batkid begins’, no original), dirigido por Dana Nachman e lançado em 2015. Em cerca de uma hora e meia, o documentário, disponível no catálogo do Globoplay, traz entrevistas com os pais de Miles e com os principais responsáveis por organizar a ação, mostrando como tudo foi arquitetado. Em tempos em que a empatia parece perder cada vez mais espaço para o ódio, o filme nos mostra o poder transformador da solidariedade, aquece o coração e devolve a esperança na humanidade. ‘Batkid’ também foi feito para que não nos esqueçamos jamais de que o primeiro passo para tornar um sonho real é sonhar.

Foto: divulgação

Vidas negras importam

Em memória de João Pedro Mattos (foto) e George Floyd

Eu me sinto de luto
quando um sonho é interrompido
por uma rajada de balas
que atravessa a parede
e destrói uma família inteira.

Eu não posso respirar
diante de uma injustiça tamanha,
quando quem deveria proteger
põe a vida de joelhos
e sufoca todo um povo.

Todo santo dia
um negro já nasce condenado
a provar que é inocente
de um crime que nem crime é:
ser negro.
Até quando?

Foto: reprodução/redes sociais