Choro

Das lágrimas de crocodilo aos prantos, chorar faz parte da vida. E, por que não?, dos haicais.

Deglutição
A mãe dizia:
“Engole esse choro.”
Nem mastigava.

Tempestade
Homem não chora.
Acumula lágrimas;
um dia chove.

Ingrediente segredo
O tempero da
chef que chora era o
sal das lágrimas.

Imagem: ‘The crying boy’, de Giovanni Bragolin (1911-1981)

‘Secreto e proibido’

Amor é amor, não importa a forma como ele se manifesta. Apesar de parecer uma conclusão óbvia, não é. Terry Donahue e Pat Henschel precisaram esconder da família (e da sociedade) por mais de seis décadas que não eram primas, e sim um casal. Elas se conheceram e passaram a morar juntas no fim dos anos 1940, época em que homossexuais eram perseguidos, perdiam empregos e se suicidavam por terem suas existências negadas e não serem aceitos como eram.

Produzido pela Netflix e lançado neste ano, o documentário ‘Secreto e proibido’ (‘A secret love’, no original), de Chris Bolan, reconta – com farto e impressionante material de arquivo – a belíssima história de amor entre as duas. Depois de tantos anos juntas, elas se questionam se não seria a hora de finalmente se casar, ainda que oficializar a união perante uma sociedade que as fez viverem reprimidas a vida inteira signifique muito pouco diante da estrada que trilharam.

Outra questão com a qual precisam lidar é a debilidade física. Por causa do mal de Parkinson, Terry tem dificuldades de realizar algumas tarefas domésticas. E o fato de morarem sozinhas nos Estados Unidos, enquanto os parentes moram no Canadá, faz com que a família de Terry se ressinta da reticência de Pat – também já idosa – não só em não aceitar a mudança, mas também em insistir em cuidar da mulher sozinha. Sobre este ponto, são impressionantes a sinceridade e a forma desabrida com que os personagens do documentário falam sobre suas percepções e suas relações de afeto.

Foram muitos os percalços que Terry e Pat enfrentaram, vivendo suas identidades apenas dentro de casa ou na presença dos amigos mais íntimos. O medo da descoberta da relação amorosa era tanto que elas rasgavam a parte inferior das cartas que escreviam uma para outra para que quem por ventura as pegasse não descobrisse o remetente. Mais de 60 anos se passaram para que elas pudessem ser finalmente livres. E é a liberdade – e uma bela história de vida a dois – que ‘Secreto e proibido’ celebra ao longo de quase uma hora e meia de duração. Como diz Terry em determinado momento, “amor é amor, e isso é o mais importante”.

Foto: Netflix/divulgação

Dos amores estranhos

Amar nem sempre é fácil, mas é sempre poético.

Na saúde e na doença
Morreu de amor.
Noivou e vai se casar
com o legista.

Explosão de amor
Já liguei o gás.
Pra fazer café, é só
riscar fósforo.

Aliança
Amar até a morte.
Uns dizem que é castigo;
outros, que é sorte.

Imagem: ‘Fósforo aceso’ (2013), de Roosevelt Modesto

‘Pátria’

Um dos elementos constitutivos mais importantes para o ser humano é a identidade, que pode ser dividida em duas chaves: a individual, bastante ancorada em tradições e práticas familiares, e a nacional, embasada em uma consciência de nação que, desde a Revolução Industrial, transborda as fronteiras do aqui e agora a que estava circunscrita na pré-modernidade. Embora não sejam exatamente a mesma coisa, as duas identidades estão ligadas e precisam fazer sentido para o sujeito, isto é, serem capazes de manter um elemento identificador, ajudando a conectar passado e presente e a perpetuar a memória, as histórias e os símbolos individuais e nacionais.

A identidade é um dos temas centrais de ‘Pátria’, romance lançado pelo espanhol Fernando Aramburu em 2016 e publicado no Brasil em 2019 pela editora Intrínseca, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. As 512 páginas, divididas em capítulos bem curtos, percorrem três décadas da vida de duas famílias separadas justamente por um conflito identitário. Amigas muito próximas, Bittori e Miren se casaram e tiveram filhos mais ou menos na mesma época, mas acabaram separadas pelo Movimento de Libertação Nacional Basco, o ETA. Enquanto o marido de Bittori, um empresário bem-sucedido, é marcado para morrer pelo grupo, Miren vê o primogênito entrar para a luta armada. Quando Txato é assassinado, Bittori e os filhos deixam a vila natal, confirmando – fisicamente – o afastamento das famílias.

“Oito horas. Clima temperado, outubro benigno. De repente lhe veio à mente o que Nerea lhe dissera de manhã. Que trocasse o capacho? Não, que não devemos abrir mão da alegria. Ah, uma besteira que se diz aos mais velhos para melhorar seu ânimo. Bittori não sentia a menor necessidade em aceitar que fazia uma tarde esplêndida. Mas, para dar pulinhos de alegria, era necessário outro tipo de estímulo. Por exemplo? Ai, sei lá. Que inventassem uma máquina de ressuscitar os mortos e me devolvessem meu marido. Então se questionou se depois de tantos anos não deveria pensar em esquecer. Esquecer? O que é isso?”

Fernando Aramburu, in ‘Pátria’

Em maio de 2018, quando o ETA anuncia o fim da luta armada, Bittori resolve buscar respostas para perguntas que há muito martelam sua mente. O que aconteceu no dia em que Txato foi morto? Teria o filho mais velho de Miren, Joxe Mari, participado ativamente do crime? Apesar das constantes e preocupadas súplicas da própria família, Bittori decide enfrentar a ainda latente hostilidade dos moradores do lugarejo em relação a ela e à paz que a sua presença poderia perturbar. Descobrir as circunstâncias da morte do marido é, para Bittori, a única forma de cicatrizar de vez esta ferida ainda aberta do passado e completar o ritual do luto.

À primeira vista, pode parecer que há uma divisão entre mocinhos e vilões, sobretudo pelo fato de a trama ter um assassinato como elemento desencadeador. Seria simplista demais. Mas, felizmente, Aramburu é bastante habilidoso ao não santificar ou demonizar nenhum de seus personagens. O autor rompe com a linearidade da narrativa e, ao avançar e retroceder no tempo de acordo com a necessidade da história que conta, vai colocando as peças de um complexo quebra-cabeças que revela como a identidade nacional – no caso, basca – forja e é também forjada pelos sujeitos que a reconhecem como sua. ‘Pátria’ relembra ainda a importância da conciliação para apaziguar uma comunidade marcada pela violência política.

Foto de capa: Filiep Colpaert/Getty Images
Foto do autor: Ivan Giménez/Tusquets Editores

Bom pra cachorro

A sabedoria popular diz para não confiar em quem não gosta de cachorros.
Com estes haicais, assino embaixo.

Sem segurança
Invadiram o
canil e a dona
soltou os cachorros.

Furto na cozinha
Cheiro de fruta
no ar; estava o cão
chupando manga.

Animais
Se o homem deu
errado, eu quero ter
cachorridade.

Imagem: ‘Cães jogando pôquer’, de Cassius Marcellus Coolidge (1844-1934)