Sonhos presidenciais

O que você faria se fosse presidente da República? Esta é uma pergunta frequentemente feita às crianças, na expectativa por respostas, no mínimo, curiosas e originais. No entanto, a mesma questão raramente é colocada aos adultos, exceto se, de fato, eles estiverem concorrendo às eleições. Neste caso, as réplicas são invariavelmente mais pragmáticas, sem o brilho que só a infância e uma saudável e inocente falta de filtro social são capazes de proporcionar.

Longe de mim ter a pretensão de concorrer a um cargo de tamanha monta. Não cogito nem mesmo a vereança, porque muitas vezes já acho suficientemente difícil conciliar interesses em minha própria casa, onde somos apenas dois. Imagina ser presidente… Contudo, me peguei pensando no que faria se, por sorte (ou azar?), este viesse a ser meu destino. São tantos os problemas que fica até difícil estabelecer prioridades. Na impossibilidade de dar conta de todos os desafios, como escolher entre saúde, educação ou segurança? Há, ainda, outras agendas raramente consideradas prioritárias que me interessaria fazer avançar.

Tenho pensado nestas questões faz um certo tempo, desde que comecei a leitura de ‘Uma terra prometida’, primeira parte das memórias presidenciais de Barack Obama, lançada no Brasil pela Companhia das Letras. Em cerca de 750 páginas, o livro refaz o caminho de um jovem negro em busca da própria identidade até se tornar o presidente da nação mais poderosa do mundo, líder sobre o qual são depositadas as maiores expectativas e contra quem são lançados os mais ferrenhos ataques.

Neste primeiro volume, Obama fala bastante sobre sua trajetória e sobre os ideais que tinha quando – então senador pelo estado de Illinois – decidiu se lançar candidato à presidência dos Estados Unidos. De forma extremamente didática (às vezes, excessivamente, o que é compreensível diante do público diverso que a obra pode alcançar), ele explica os passos de sua militância e as engrenagens que regem tanto a política em Washington quanto a diplomacia internacional. A riqueza de detalhes é impressionante e serve muito bem ao propósito de colocar o leitor no Salão Oval da Casa Branca, assistindo de camarote – ainda que retrospectivamente e de um ponto de vista bastante específico – a história sendo feita.

No dia quatro de novembro de 2008, os eleitores americanos elegeram o primeiro presidente negro do país. Àquela altura, Obama foi o mais votado da história dos Estados Unidos, tendo recebido 69,4 milhões de votos, o que representou quase 53% do total. A vitória expressiva coroou uma campanha muito bem-sucedida nas redes sociais, que inspirou muitos jovens e negros a votarem e que passava uma mensagem de esperança. Tão potente quanto a expectativa depositada sobre ele foi a realidade que se impôs a seu governo.

Com franqueza raramente vista no mundo político, Obama revela as limitações do poder e da democracia, o que lhe causou algumas frustrações. Os quatro primeiros anos de mandato foram fortemente marcados pelos efeitos da crise financeira global, que reduziram significativamente a margem orçamentária para implementação de programas de governo que seriam mais caros ao presidente, como a reforma do sistema público de saúde que ele, a duras penas, acabou conseguindo aprovar e que ficou conhecida como Obamacare. Também são pormenorizadas a dificuldade em reduzir a presença de tropas americanas no Oriente Médio, o desastre ambiental causado pela explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon no Golfo do México e a operação que culminou com a morte de Osama bin Laden.

É curioso pensar, a partir da leitura de ‘Uma terra prometida’, que eu recomendo fortemente (sobretudo para quem se interessa por política internacional), como o próprio Barack Obama teria respondido, quando criança, à questão “O que você faria se fosse presidente?”. Imagino que a resposta guardaria pouquíssimas semelhanças com o que ele de fato fez nos oito anos em que ficou no cargo. Na vida real, o idealismo se dobra ao pragmatismo, mas sempre há espaço para tornar sonhos reais. Para isso, é preciso sonhá-los, o que fazemos com mais frequência na infância.

Imagem: Christopher Brand/divulgação

As órbitas da lembrança

Não sonhei ser astronauta, diferentemente de muitas outras crianças. É comum que elas manifestem este interesse desde muito novas, em um misto de clichê e deslumbramento. Mas, para além da mera curiosidade científica, nunca me atraíram de verdade estrelas, galáxias e planetas. Talvez por isso eu não ligue para astrologia e signos, tampouco para franquias de enorme sucesso como ‘Star wars’ ou ‘Star trek’, das quais sinto infinita preguiça. Tenho claro na memória que quis ser cobrador de ônibus ou caixa de banco, na infantil ilusão de que todo o dinheiro movimentado me pertenceria. Na minha geração, também é fácil encontrar quem quisesse trabalhar em uma grande rede de supermercados cujos funcionários usavam patins. De forma igualmente vaga, minha lista de possíveis opções trazia veterinário, professor ou – genericamente – artista. Astronauta, não.

E olha que não foi falta de estímulo! Quem nasceu no período pós-Guerra Fria certamente foi bombardeado pela glamourização de uma das profissões mais restritas e exigentes do mundo, para a qual pouquíssimos de nós estariam habilitados. A imagem que os Estados Unidos – e Hollywood, em particular – passam, porém, é de que basta sonhar. Tem sido assim desde 1958, quando a então recém-criada Nasa recrutou seus primeiros astronautas. Era preciso ser piloto militar experiente em testes de voo, ter menos de 40 anos e estatura inferior a um metro e oitenta para se candidatar ao projeto Mercury.

Essa história está recontada em ‘Os eleitos’, série feita em parceria entre a National Geographic e a Disney, com produção do ator Leonardo DiCaprio, cujos capítulos têm sido lançados aqui no Brasil semanalmente no Disney+ desde o início de fevereiro. Trata-se de uma versão ficcional do best-seller homônimo de Tom Wolfe, publicado em 1979, que reconta os primeiros quinze anos do programa espacial americano. A disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética está lá, mas é só um pano de fundo para tratar de assuntos mais mundanos e bem mais interessantes, como a rivalidade entre os pilotos, o alcoolismo, a infidelidade conjugal, a solidão e a angústia. Temas com os quais nos conectamos muito mais facilmente.

Um dos temas é a ambição. Já no primeiro episódio, o veterano de guerra John Glenn (vivido por Patrick J. Adams) explica o desejo de se tornar o primeiro homem a ir ao espaço: entrar para a história. Ele queria figurar nas páginas de livros didáticos, sendo conhecido pelas futuras gerações de estudantes. O feito foi atingido em parte. Se o primeiro homem a ir ao espaço foi o cosmonauta soviético Iuri Gagarin, Glenn foi pioneiro em seu país: nenhum astronauta americano entrou na órbita da Terra antes dele. Em fevereiro de 1962, deu três voltas completas ao redor do planeta. Virou herói nacional. E não parou por aí. Foi ainda senador pelo estado de Ohio por quase 25 anos e, aos 77 anos, se tornou a pessoa mais velha a ir ao espaço, participante de um estudo para avaliar o comportamento de idosos em órbita.

John Glenn morreu em 2016, aos 95 anos. Pelo conhecido patriotismo americano, é natural supor que seu nome esteja nos livros didáticos. Será que com o destaque que ele gostaria? Difícil dizer, porque cada indivíduo tem suas próprias ambições e, ainda que semelhantes, as gradações podem variar. Vivemos uma existência muito curta em um mundo com sete bilhões de pessoas e marcar o próprio nome na história – ainda que seja um desejo comum a muitos de nós – é tarefa hercúlea. A questão de como e por quanto tempo seremos lembrados depende do tamanho da nossa ambição e, em igual proporção, do feito que seremos capazes de realizar.

Quando pequenos, sonhamos grande. Queremos abraçar o mundo com as pernas e receber o reconhecimento na mesma medida. Aos poucos, vamos mudando nosso entendimento sobre a fama (na boa acepção do termo) e redimensionando nossas expectativas. Precisamos (e queremos) entrar para os livros de história? Ou nos contentamos em servir de exemplo a nosso círculo mais próximo de convívio? Calibrar as próprias ambições é fundamental para levar uma vida mais tranquila. Nem todo mundo precisa entrar em órbita para ser lembrado.

Imagem: divulgação/Disney

‘Festival Eurovisão da Canção’

Ando um pouco monotemático, eu sei, mas é que o cinema realmente tem sido uma das melhores companhias durante a quarentena. Ainda mais porque, como ressaltei recentemente aqui, estão chegando às plataformas de streaming os filmes mais cotados para a temporada de premiações do cinema americano. O Globo de Ouro e o Sindicato dos Atores de Hollywood (SAG), por exemplo, já anunciaram seus indicados e já pipocam (pescaram o trocadilho?) as previsões para o Oscar, que este ano vai ser no final de abril.

Não sei explicar a razão, mas paira no inconsciente coletivo hollywoodiano a máxima de que filme bom tem que ser dramático. Basta passar o olho entre os indicados em anos anteriores para confirmar que as comédias raramente têm vez. A exceção é o Globo de Ouro, que divide o prêmio máximo em duas categorias: uma para os dramas e outra para comédias ou musicais. Tendo a ser contra a divisão por achar que filme bom é filme bom e ponto, independentemente de a que gênero ele pertença. Por outro lado, é positivo saber que há boas produções cômicas.

No fim da tarde de um domingo recente, procurava o que assistir para passar o tempo. Buscando por algo mais leve, acabei topando com ‘Festival Eurovisão da Canção: a saga de Sigrit e Lars’, disponível desde junho no catálogo da Netflix e que aparece como possível concorrente ao Oscar nas categorias de maquiagem, som e canção original (‘Húsavik’). O filme conta a história de uma dupla de islandeses, vivida por Will Ferrell e Rachel McAdams, que sonham participar do Eurovisão, competição musical que reúne representantes de países da Europa e de Israel.

Obviamente, eles não são lá muito bons. E, sim também, tudo termina exatamente da forma como você está pensando. Não é preciso contar nada além da sinopse para que o espectador deduza o restante. O fato de ser previsível torna um filme ruim? Não, desde que a história seja bem conduzida. Infelizmente, não é o caso de ‘Festival Eurovisão da Canção’. Praticamente nada é crível, os personagens são muito estereotipados e a grande maioria das piadas simplesmente não funciona ou causa algum nível de constrangimento. Nem mesmo os musicais se salvam. E olha que o diretor David Dobkin tem relativa experiência com videoclipes. Era melhor ter apostado em um drama…

Foto: Netflix/divulgação

‘Professor polvo’

Como vocês já devem ter percebido pela quantidade de posts sobre o assunto, cinema é uma das minhas grandes paixões. Tradicionalmente, todo começo de ano sigo o mesmo ritual: elaborar a lista dos filmes que vão concorrer aos principais prêmios da temporada, como o Oscar e o Globo de Ouro. Os anúncios dos indicados e dos vencedores foram adiados por conta da pandemia, que também forçou as comissões que concedem as láureas a aceitar produções que estrearam apenas em plataformas de streaming. Isso vai facilitar bastante a vida dos cinéfilos que, como eu, tentam assistir à maior quantidade de produções possível antes das premiações.

Um dos termômetros mais confiáveis para saber que filmes estão bem cotados para receber indicações é a Variety. Todos os anos, a revista americana, considerada a bíblia do entretenimento, publica – e atualiza constantemente – previsões em todas as categorias do Oscar e nas principais do Globo de Ouro e do Sindicato dos Atores de Hollywood (SAG). E o melhor de tudo é que a revista separa até mesmo os possíveis indicados em diferentes níveis, indo dos que são dados como certo aos que surgem na temporada como azarões. Há boas produções na lista deste ano. E muitas delas já estão disponíveis aqui no Brasil.

Um ótimo exemplo é ‘Professor polvo’, apontado pela Variety como um dos postulantes ao Oscar de melhor documentário. Desde setembro, o filme está disponível na Netflix. E, como acontece com todas as produções próprias, desde então aparece por lá com grande destaque. Confesso que, à primeira vista, a história de uma amizade improvável entre um mergulhador e um polvo que vive em uma floresta subaquática na África do Sul não me despertou muito interesse, apesar das críticas positivas que li a respeito da obra. Fui deixando para depois. Até que o tal depois finalmente chegou.

As imagens da vida marinha nos arredores da Cidade do Cabo são belíssimas e estão acompanhadas das explicações didáticas e nada enfadonhas (como eu pensei que seriam) de Craig Foster, fundador do projeto Sea Change. Os mergulhos dele em apneia são igualmente impressionantes, e muitíssimo bem captados, dando ao espectador a sensação de acompanhá-lo ao fundo do mar. A edição acerta em cheio ao abrir espaços para a pura contemplação, sem prejudicar em nada a narrativa e um surpreendente arco dramático.

Arco dramático em um documentário sobre um polvo? Eu sei que parece meio absurdo, mas você não leu errado, não. À primeira vista, não há qualquer relação entre o mergulhador e o animal, que desconfia bastante daquele ser estranho no fundo do oceano. Mas, aos poucos, o polvo vai se acostumando à presença humana e, mais que isso, cria uma relação tão próxima que é possível até chamar de amizade. Soma-se a isso um certo suspense envolvendo predadores perigosos como tubarões e até um certo tom crítico em relação à necessária agenda ambiental, mas sem ser panfletário. A despeito de qualquer lógica, arrisco dizer que você vai torcer pelos protagonistas de ‘Professor polvo’. É ver para crer.

Imagem: divulgação/Netflix

Fim de ciclos

Acabei de assistir à quarta – e, ao que tudo indica, última – temporada de ‘Dix pour cent’. A série francesa, exibida por lá pela France 2 e disponível aqui no Brasil pela Netflix, acompanha o movimentado, tenso e nada monótono dia a dia de uma agência de talentos. Não é uma obra-prima, mas os episódios desenvolvem bem suas histórias, dosando habilmente drama e comédia, e dando oportunidade para que todo o elenco brilhe. Os destaques, porém, são as participações especiais de astros do cinema francês, que interpretam versões de si mesmos em situações tão banais quanto picuinhas com diretores e mudanças improváveis de rumo na carreira. O melhor de tudo, o grande trunfo, é que eles não se levam a sério.

Saber não se levar a sério e rir de si mesmo é uma importante lição de vida. Torna tudo mais leve, ajuda a quebrar o gelo. Mas não é sobre isso este texto, e sim sobre ciclos. A última temporada amarrou as pontas deixadas soltas ao longo do percurso. Todos os personagens tiveram suas histórias bem desenvolvidas, coerentes com seus (deliberados) estereótipos. A série terminou no auge, tendo se resolvido de forma bastante satisfatória e deixando no espectador aquela gostosa saudade de algo que foi bom, mas que chegou ao fim.

Não é incomum que muitas séries passem do ponto. Elas esgarçam suas histórias, forçando a barra ao alongar subtramas desinteressantes e completamente dispensáveis, com novos personagens surgindo de paraquedas ou subvertendo fios narrativos anteriores a ponto de deixá-los incoerentes. Tentando tornar mais duradouro, acabam por destruir o sucesso que alcançaram. E a manobra – invariavelmente – fica evidente. Ao fim, para o público, a sensação é de alívio.

Não é assim também na vida? Quantas vezes a gente se recusa a dar uma história por encerrada? Quem nunca insistiu mais um pouco em um relacionamento beirando o desgaste? Quem não teve medo de largar um emprego que já dava sinais de estagnação? Tão importante quanto reconhecer o ponto de pico é agir para evitar a queda. Fica bem mais fácil quando se entende que tudo tem seu ciclo e que ciclos se encerram. E é muito melhor que o fim deixe aquela gostosa saudade do que foi bom.

Imagem: divulgação