Mais quatro haicais

Uma nova série de haicais.

Sem descanso
Na folga, sonhou
que trabalhava. Achou
melhor acordar.

Perigo
Foi na canoa.
Logo veio a cobra
e deu o bote.

Letra cursiva
Fazer caderno
de caligrafia? Vai
tirar de letra.

Sol na laje
Comprou óleo a
peso de ouro para
garantir bronze.

Imagem: ‘Mulher pegando sol’ (1938), de Karl Horst Hodicke

As pedras atiradas

Que atire a primeira pedra quem nunca errou. Eu mesmo, incontáveis vezes. E, em uma delas, justamente por pedras atiradas. Explico. Morei, durante toda a infância e parte da adolescência, em um prédio que era vizinho a uma vila. Além do muro, havia uma rivalidade a separar as crianças de cá e de lá. Como ninguém nunca soube dizer como tudo começou, parecia coisa inata: um lado não suportava o outro. E as provocações – de ambas as partes – eram constantes.

Em uma das casas coladas ao muro, morava um menino chamado Yuri, o líder da facção mirim da vila. Era ele quem, com ar bastante autoritário e voz bem aguda, ditava as regras das brincadeiras e como e quando os de lá provocariam os de cá. Com três blocos e muitos apartamentos, a facção do prédio era numerosa a ponto de ter vários líderes. Um deles era eu. Tinha posição privilegiada na contenda: da minha varanda, no terceiro andar, tinha visão panorâmica e estratégica do território inimigo. Via a entrada da vila, a rua principal e a casa do chefe rival.

Em um dia de calor, quando eu e um casal de irmãos, vizinhos de andar, brincávamos na varanda, Yuri e seus asseclas deram início às provocações. Esfregavam em nossas caras a liberdade de que gozavam na maior rua da vila, enquanto nós estávamos circunscritos a uma pequena varanda de apartamento. Sem acusar o golpe, pensamos em como responder à altura. Foi então que a vizinha, mais velha e mais astuta que eu e o irmão, sugeriu usar as pedras do jardim.

Sem hesitar, cada um de nós pegou um punhado delas e, mirando os inimigos do alto, iniciamos o ataque. Como estávamos muitos andares acima, a salvo de qualquer possibilidade de revide, não tiveram opção a não ser bater em retirada. Abrigaram-se na casa de Yuri e, pelo menos por breve período, nos deram trégua.

Ainda saboreávamos a vitória quando o interfone tocou. Do outro lado da linha, parada lá na portaria, a mãe de Yuri narrava para a minha a batalha campal que tínhamos travado instantes atrás. Não cobrava reparação, porque não houve qualquer dano físico ou material, mas tinha sede de justiça. O doce sabor do triunfo logo ficou amargo: a brincadeira deu lugar ao castigo. Tanto no prédio quanto na vila.

Lembrei-me desta história há poucos dias, quando topei com uma circular do síndico do condomínio onde moro agora. O comunicado diz que a administração foi procurada por uma academia da vizinhança, que reclama de danos materiais provocados por objetos jogados contra seu telhado e ameaça ir à justiça caso o problema não seja resolvido. Embora consiga ver a academia da minha janela e ache que os decibéis da música vinda de lá ultrapassam o limite do bom senso, juro que nada tenho a ver com isso. Espero que tudo se resolva com diálogo e razoabilidade de ambas as partes. E que os adultos de agora aprendam a lição que tive ainda quando criança: em uma guerra, não há vencedores, apenas vencidos.

Imagem: ‘Os pequenos brigões’ (1867), de Johann Grund (1808-1887)

Reflexos e reflexões

Uma série de haicais sem trocadilhos, ou quase.

O pedinte e o poeta
– Esmola, senhor?
– Desculpe, poesia
não dá dinheiro.

Múltiplo e infinito
Deus é tão plural
quanto são as pessoas
que nele creem.

Ausência
Pensei ser fome
o vazio que sinto,
mas é saudade.

Reflexo
Narciso entrou
na sala de espelhos
e nunca saiu.

Imagem: ‘Eco e Narciso’ (1903), de John William Waterhouse (1848-1917)

Sapos na panela

Reza a lenda que um sapo, ao ser colocado em uma panela de água fervendo, imediatamente pula fora para salvar sua vida. No entanto, posto em uma panela com água fria sobre o fogo, ele vai se acostumando ao gradual aumento de temperatura a ponto de morrer cozido. Segundo algumas versões da fábula, o sapo adiou consecutivas vezes o momento de saltar dali, acreditando que resistiria ou se adaptaria à adversidade, incapaz de perceber que punha a si mesmo em perigo. Teria sido vítima da própria resiliência?

Em geral, fala-se de resiliência sempre como uma característica positiva. E não raro se exalta uma frase atribuída ao escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881) como prova. Um dos maiores gênios da literatura russa, ele teria dito que a melhor definição de um homem é a de um ser que se habitua a tudo. Para mim, tão difícil quanto confirmar a veracidade da afirmação é acreditar que o autor de ‘Crime e castigo’ tenha vislumbrado uma visão meramente positiva ao supostamente dizê-la. E é justamente a possibilidade da dúvida – para o bem ou para o mal – que torna a definição tão precisa, pouco importando quem a tenha forjado.

É bem verdade que somos seres que se habituam a tudo. A nosso favor, está a nossa capacidade de resistir e até superar grandes adversidades, como tragédias climáticas e hecatombes políticas. Por outro lado, muitas vezes insistimos na manutenção de uma realidade desagradável por pura inércia, pela preguiça em lutar contra o que está dado, mas que não é imutável. Como o sapo na panela, vamos cozinhando lentamente, sempre nos acreditando capazes de aguentar um pouco mais. Até ser tarde demais.

O primeiro passo diante de uma situação desconfortável é agir para mudá-la, vencer a inércia e a apatia. Isso, claro, exige esforço. Outra medida igualmente importante é não romantizar demais a resiliência, como se a capacidade de resistir nos aproximasse de heróis ou deuses, o que não somos. Aceitar e superar uma adversidade que foge ao nosso controle é louvável, mas deixar de agir contra algo que nos faz mal me soa como estupidez. Importam menos as razões que nos levam à panela, se é culpa nossa ou não, e mais o que fazemos para pular fora dela.

Foto: Peter Sorel/divulgação

Quatro haicais

Uma nova série de haicais desconexos (ou não).

Magia
Se o cubo é
mágico, ele que se
monte sozinho.

Cotação
Já tive valor.
Porém, a idade me
cobrou seu preço.

Saciedade
Pra alimentar
o ego, a lasanha
é um bom prato?

Fim da história
Apesar de tão
reticente, pôs ali
um ponto final.

Imagem: ‘Number 1A, 1948’ (1948), de Jackson Pollock (1912-1956)