A infância dos bichos

Ninguém nasce sabendo, mas com haicais também se aprende.

Lições de vida
Para crescer, o
girino aprende a
engolir sapo.

Na casca do ovo
Nasceu e viu
o mundo; o pintinho
ficou chocado.

Galinheiro
Pintinho sonha
com o dia em que vai
cantar de galo.

Imagem: ‘Hot chick’ (2017), de NR. Morris

Sobre a morte

Não adianta evitar o tema, um dia ela chega. Nem que seja em haicais.

Foice
Se alguém lhe der
martelo, até morte
é comunista.

Dos pavores
Se tenho medo
de morrer? Vou confessar,
morro de medo.

Último beijo
Tentou salvar o
amor com respiração
boca a boca.

Imagem: ‘Morte e vida’ (1916), de Gustav Klimt (1862-1918)

Embananado

Uma série de dúvidas bem tropicais…

Submersa
Por que banana
d’água não nasce lá
no fundo do mar?

Vale quanto pesa
Por que banana
ouro custa menos que
banana prata?

Semente da dúvida
O agricultor fica
de cabeça para baixo para
plantar bananeira?

Imagem: ‘Banana nº 83’ (1971), de Antonio Henrique Amaral

Sorte ou azar

Sorte no jogo, azar no amor? E vice-verso.

Las Vegas
Ganhou fortuna
no cassino, porém não
caiu a ficha.

Azar o dele
Pé de coelho
só não dá sorte ao
pobre coelho.

Megasena
Gastou a sorte
acertando a quina
com o mindinho.

Imagem: ‘Roulette 2’, de LeRoy Neiman (1921-2012)

O que não se vê no espelho

“Estar no mundo fisicamente exige da gente uma certa segurança, não?”, questiona-se a cartunista Laerte Coutinho já quase no fim do documentário ‘Laerte-se’, produção da Netflix dirigida por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, que conduz também – com extrema sensibilidade – as entrevistas nas quais a artista fala com sinceridade sobre sua identidade de gênero. O processo de mudança veio a público em setembro de 2010, quando Laerte contou à revista Bravo sobre o hábito de se vestir com roupas e acessórios femininos.

Era o estopim de uma transformação que ia muito além do crossdressing. A figura que Laerte via no espelho não condizia com a pessoa que desejava ser. O reflexo mostrava um homem vestido de mulher, e não a mulher que efetivamente gostaria de ser. Depois de décadas aprisionada em uma identidade masculina, a cartunista – com a segurança de uma carreira sólida e com filhos já criados, como ela mesmo conta no filme – decidiu se libertar e se assumir mulher.

Ainda que o corpo seja a parte mais visível, o que determina a identidade de um ser humano não é a biologia. Culturalmente, nos habituamos a definir masculino e feminino pela imagem dos corpos. No entanto, temos aprendido ao longo dos anos que um corpo, mesmo nu, pode dizer muito pouco ou até contradizer o que se vê. Aos poucos e com grandes sobressaltos, a luta para que o gênero deixe de ser um fardo a quem foge a uma norma socialmente imposta ganha musculatura.

É esta batalha que Laerte trava com uma honestidade rara. Após um momento de hesitação, a cartunista aceitou compartilhar sua intimidade com a equipe do documentário e tentar responder a uma questão complexa: o que é, de fato, ser mulher. As inseguranças e dúvidas que deixa transparecer são a prova de que a identidade é uma construção que nunca termina e em nada diminuem a coragem de se expor tão abertamente. Não é por acaso que o filme transformou sujeito em verbo: nossas ações dizem muito do que somos. Ouse ser quem você quiser ser. Laerte-se!

Foto: divulgação