‘Em nome de Deus’

Em dezembro de 2018, a coreógrafa holandesa Zahira Mous e a escritora e coach espiritual americana Amy Biank denunciaram ao ‘Conversa com Bial’ abusos sexuais praticados por João Teixeira de Faria, médium conhecido como João de Deus que fazia atendimentos espirituais na Casa de Dom Inácio de Loyola, na cidade goiana de Abadiânia. O depoimento das duas fez com que outras centenas de mulheres ganhassem coragem para revelar traumas pelos quais o curandeiro as fez passar.

O programa deu início a uma profunda investigação jornalística sobre quem era João de Deus, da infância pobre no interior do país a um médium respeitado no Brasil e no mundo, admirado por milhares de seguidores famosos e anônimos que o procuravam diariamente em busca de cura, homem poderoso e influente na política local, em torno de quem girava toda a economia da pequena cidade de Abadiânia.

Os 18 meses de apuração deram origem à minissérie documental ‘Em nome de Deus’, disponível no catálogo do Globoplay desde o fim de junho. São seis episódios de cerca de uma hora cada, que – além de recontar a trajetória de João Teixeira de Faria – permitem ao espectador entender de que maneira ele se valia do poder e do prestígio conquistados para abusar das mulheres e, depois, silenciá-las.

Embora cada capítulo aborde um tema, todos eles são entremeados por uma roda de conversa com vítimas de abuso mediada pela jornalista Camila Appel, que assina o roteiro da minissérie ao lado de Fellipe Awi e Ricardo Calil. Este último divide a direção com Monica Almeida e Gian Carlo Bellotti. Mais aflitivos do que os vídeos das cirurgias espirituais realizadas por João de Deus, são os relatos destas mulheres.

Unidas por um desejo de que a justiça seja finalmente feita, elas perscrutam memórias doloridas para recontar em detalhes a violência que sofreram. Ainda que cada uma tenha lidado de maneira diferente com o abuso, fica descrito de forma evidente o modus operandi com que o algoz agia: valendo-se da momentânea fragilidade e da fé na cura pretendida, abusava delas com a certeza de que a notoriedade conquistada por ele as desacreditaria, caso denunciassem, ou as silenciaria. Funcionou por décadas.

São relatos muito duros, que chegam a provocar ojeriza e repulsa, mas absolutamente necessários. Graças a eles, João Teixeira de Farias está sendo julgado e já recebeu três condenações. ‘Em nome de Deus’ é um exemplo muito bem-acabado de como o jornalismo pode ser poderoso e tem significativa contribuição a dar à sociedade quando apura com rigor as denúncias recebidas e cobra justiça.

Foto: Globoplay/divulgação

Questão de saúde

Às vezes, um haicai sai num espirro. Noutras, exige repouso.

Tétano
Já feriu com
ferro e com ferro foi
também ferido.

Xarope
Saiu na chuva.
A mãe: “vai ver o que é
bom para tosse”.

Imunidade de rebanho
Dizem que o boi
não pega gripe nem que
a vaca tussa.

Imagem: ‘Vacas no pasto’ (1873), de Édouard Manet (1832-1883)

‘A vida e a história de madam C.J. Walker’

Octavia Spencer é uma das melhores e mais versáteis atrizes em atividade. Talvez você não ligue o nome à pessoa, mas certamente já a viu nas telas, seja em blockbusters como ‘Convergente’ (da trilogia ‘Divergente’) ou ‘A cabana’, seja em filmes artisticamente mais interessantes como ‘Histórias cruzadas’, ‘Estrelas além do tempo’ ou ‘A forma da água’. Por estes três últimos, aliás, ela foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, tendo vencido em 2012 pelo papel da empregada doméstica que se recusava a baixar a cabeça para os desmandos dos patrões.

Como as três indicações ao Oscar de melhor atriz coadjuvante evidenciam, faltava a Octavia um papel como protagonista. O cinema continua devendo, mas a oportunidade veio através da minissérie ‘A vida e a história de madam C.J. Walker’, produção da Netflix que conta a história de Sarah Breedlove, uma empreendedora da indústria da beleza direcionada para o público afro-americano que se tornou a primeira mulher dos Estados Unidos a se tornar milionária tendo partido do zero.

A trajetória de Sarah é realmente interessante, com acidentes de percurso e dramas familiares que costumam render bons roteiros. A minissérie tem como base a biografia escrita pela tataraneta da empresária, A’Lelia Bundles, e engloba toda a carreira, digamos assim, de madam C.J. Walker, da tentativa de vender os produtos criados por Addie (Carmen Ejogo) até a criação de sua própria empresa. Mas quatro episódios de cerca de 45 minutos são insuficientes para retratar uma vida profissional e pessoal fartamente recheada de percalços, transformando tudo em um grande e pouco denso resumo. Com tempo tão enxuto, melhor seria eliminar tramas paralelas e manter o foco no que era mais caro à personagem: o sucesso.

Ainda que o resultado seja correto, o que é insuficiente em uma época em que as produções audiovisuais para o streaming têm ganhado cada vez mais complexidade e qualidade, ‘A vida e a história de madam C.J. Walker’ tem como mérito reunir profissionais negros e mulheres em departamentos técnicos (direção de fotografia e edição), no roteiro e cargos de comando (produção e direção), além de permitir o protagonismo deles no elenco. Em tempos em que o racismo ainda se faz presente e a indústria do audiovisual continua dominada por homens brancos, é um feito e tanto. Que uma produção como esta sirva de exemplo e seja o ponto de virada para que mais mulheres e homens negros possam contar suas histórias, mostrar seus pontos de vista e ocupar espaço não só nas plataformas de streaming, mas também no cinema. 

Foto: Amanda Matlovich/divulgação

Dia santo

Tento escrever um haicai todo santo dia. Às vezes, funciona.

Contrariedade
Fica o dito
pelo não dito. Será
o Benedito?

Com açúcar, sem afeto
Pegue doce de
Cosme e Damião; não
enche o saco.

Casamenteiro
Que mal eu fiz a
Santo Antônio para
vir este traste?

Na porta do céu
São Pedro, chego
já. Toco campainha ou
bato à porta?

Revelação
Foi na fogueira
de São João que você
queimou meu filme?

Imagem: ‘Santos em procissão’, de Luc-Olivier Merson (1846-1920)

Infusão de versos

Está posta a mesa com pequenos poemas que podem ser acompanhados com leite ou limão.

Indigesta
Erva daninha,
que dia você vai me
dar colher de chá?

Espera
Quanto de água
se ferve para fazer
chá de cadeira?

English tea
Cinco da tarde,
o foragido tomou
chá de sumiço.

Imagem: ‘Alice no país das maravilhas’ (1951), de Walt Disney