Uma ida ao Jô

Em uma época em que o sucesso se media por aparições na TV, fui convidado para a primeira entrevista da carreira após o lançamento do meu livro de estreia.

Por muitos anos, décadas até, o nível de sucesso de uma pessoa não se media por curtidas ou compartilhamentos. As redes sociais nem existiam. E o contato era quase todo interpessoal. No máximo, o fio do telefone fazia a mediação entre as duas pontas. Ou assistíamos pela televisão alguém bem-sucedido; invariavelmente, no programa do Jô. Era por lá que passavam todas as celebridades, as figuras públicas de grande relevância no cenário nacional e os personagens mais curiosos do país.

Até hoje não sei dizer em qual destas categorias me encaixava quando o telefone tocou. Era alguém da produção querendo que eu participasse de uma edição do programa. Quase desliguei, parecia trote. Felizmente, não era. O convite era real, e praticamente toda minha biografia e carreira já haviam sido apurados e confirmados com fontes confiáveis (um feito e tanto para alguém como eu, que mal deixara o status de ilustre desconhecido).

Depois de muito tempo – e paciência do produtor, que se empenhou bastante para me convencer -, aceitei. Foi então que me passaram toda a dinâmica da minha participação. Um carro me buscaria em casa e me levaria ao aeroporto, onde embarcaria por volta das quatro da tarde rumo a São Paulo, de onde o programa era apresentado. Uma vez em solo paulistano, seria conduzido ao hotel para que me aprontasse. Às oito da noite, um outro carro da produção estaria me esperando.

Sem atrasos, segui todo o ritual previsto, apesar da chuva fina que insistia em cair tanto no Rio quanto em São Paulo. Por volta de oito e meia da noite, já estava no camarim à espera do momento de gravar minha participação. À minha disposição, uma mesa farta com opções de frutas, pães, bolos e outros doces, todos aparentemente deliciosos. Exceto por alguns pães de queijo – que estavam realmente apetitosos – e de uma xícara de café, consegui resistir a uma eventual farra gastronômica.

O café já ia pela metade quando a porta se abriu. Virei de frente para ela, acreditando que era chegada a hora de um produtor me buscar. Foi quando entrou por ali Tony Ramos. Gelei. Um dos maiores atores do país participaria da mesma edição do programa que eu, o que significava que teria pouquíssimo tempo de conversa ou – pior – seria completamente apagado por aquela presença. Elegante e gentilmente, e como se fosse necessário, ele se apresentou. Prazer, Tony Ramos, disse sorrindo e estendendo a mão direita. Pousei a xícara na mesa, estendi também a mão direita e o cumprimentei. Quando comecei a dizer meu nome, ainda antes que acabasse, ele completou. Pedro Rabello, li seu livro. Congelou-me no rosto um sorriso.

Sem esforço e afetuoso como um amigo de longa data, contou suas impressões do que havia lido. Debatemos, nos minutos que se seguiram, as ideias contidas no livro que motivaria em instantes minha entrevista com Jô. Se meu espanto era visível, a elegância de Tony lhe tolheu de sublinhar. Falava com entusiasmo e carinho tão grandes que me fez esquecer o nervosismo da estreia na televisão.

Já passava das dez da noite quando uma produtora entrou no camarim. Tinha vindo me buscar e explicar que, embora gravassem primeiro comigo, a ordem de exibição seria outra. Abririam aquela edição, claro, com o convidado mais ilustre. Senti o coração acelerar, as pernas vacilarem e a respiração encurtar. Tentei disfarçar tudo enquanto entrava no estúdio sob aplausos da plateia, após ter sido apresentado.

Calculei com cuidado o espaço que ocuparia no sofá. Sentei-me, a perna direita cruzada sobre a esquerda e as mãos entrelaçadas sobre os joelhos. Jô Soares começava a primeira pergunta quando um som insistente invadiu o estúdio. Olhei no entorno, tentando localizar sua origem. Parecia, como se confirmou depois, vir do meu lado direito. Fechei os olhos, tentando ignorar o barulho. Quando tornei a abri-los, não havia mais nada. Nem Jô, nem estúdio, nem plateia, nem Tony, nem São Paulo. Apenas um despertador impaciente, incapaz de esperar pelo beijo do gordo.

Foto: Memória Globo/divulgação