‘The english game’

Sempre tive uma relação estranha com o futebol, um tanto diferente da maioria dos brasileiros, para quem o esporte é uma verdadeira paixão. Na infância, jogava com os amigos do prédio e cheguei até a fazer escolinha. Obviamente, era zagueiro, cumprindo a inevitável sina de quem é mais alto e bem menos habilidoso do que os colegas. Gostava também de jogar futebol no videogame, onde era igualmente perna de pau. Assistir aos jogos na televisão nunca me atraiu, talvez pela possibilidade de acabar em um frustrante zero a zero. Raramente assisto às partidas, mesmo da seleção. A única exceção ocorre a cada quatro anos. Durante a Copa do Mundo, parece baixar um espírito futebolístico que me faz querer acompanhar todos os jogos, até mesmo um pouco atrativo Irã e Marrocos.

Por causa dessa afinidade vacilante, passei batido por ‘The english game’, disponível no catálogo da Netflix desde março. Baseada em fatos reais, a minissérie inglesa dirigida por Tim Fywell e Birgitte Staermose retrata as origens do futebol e como o jogo – até então praticado e dominado pela elite burguesa – conquistou a classe operária e se tornou cada vez mais popular. Ouvindo a um podcast, fui convencido a dar uma chance à série, que tem como produtor executivo e principal roteirista Julian Fellowes, criador de ‘Downton Abbey’ e vencedor do Oscar de melhor roteiro original por ‘Assassinato em Gosford Park’ (2001).

Há, claro, várias cenas que retratam partidas de futebol, mas o esporte é apenas o pano de fundo para mostrar os conflitos de classe na Inglaterra do fim do século XIX. Ao contratar os jogadores operários Fergus Suter (Kevin Guthrie) e Jimmy Love (James Harkness), ambos de Glasgow, para jogar no time local, o dono da usina de algodão de Darwen dá início, sem saber, à profissionalização do futebol, até então um jogo de cavalheiros amador. O fato de ambos receberem salário contrariava as regras da associação que organizava o campeonato nacional.

Os contrastes sociais são evidentes. Os jogadores dos times operários do norte do país cumpriam uma rotina fabril exaustiva, em meio a greves e cortes de salários, e se desdobravam para treinar e jogar, tentando levar um pouco de alegria ao povo. Enquanto isso, os ricos times do sul eram formados por cavalheiros abastados, cujos trabalhos eram bem menos cansativos e com todas as facilidades para treinar e manter uma boa alimentação. Um exemplo é Arthur Kinnaird (Edward Holcroft), herdeiro de um banco, capitão e melhor jogador do Old Etonians, equipe formada por ex-alunos do Eton College. Em comum, estas duas realidades tão distintas têm apenas o amor pelo futebol; mas a forma como ele se expressa também as põe em rota de colisão.

São apenas seis capítulos de cerca de uma hora cada. Se, por um lado, facilita a maratona, a curta duração faz com que algumas subtramas se percam ou sejam resolvidas de maneira muito rápida, mas nada que prejudique a narrativa e a capacidade de compreender as motivações dos personagens principais. Além de uma boa história, a minissérie tem uma reconstituição de época caprichada (méritos da direção de arte de Richard Downes e dos figurinos de Pam Downe), uma interessante trilha sonora que simula o repetitivo movimento de máquinas fabris para criar tensão (a cargo de Harry Escott) e um elenco que, apesar de pouco conhecido, é bastante convincente. ‘The english game’ não é nenhum gol de placa, mas tem méritos suficientes para driblar até a resistência de quem não é fã de futebol.

Foto: Oliver Upton/divulgação