‘O poço’

Um dos filmes mais comentados nesta quarentena é ‘O poço’, produção espanhola que marca a estreia de Galder Gaztelu-Urritia na direção de longas-metragens e que recentemente chegou ao catálogo da Netflix. No momento em que o mundo todo vive o distanciamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus, o sucesso – em parte – se explica pelo cenário e pelo contexto: uma prisão em que os personagens, além da liberdade, estão submetidos a outras formas de privação.

Um dos méritos do roteiro de David Desola e Pedro Rivero é fazer com que o espectador entenda como funciona o mecanismo junto com o protagonista Goreng (Ivan Massagué, em uma ótima atuação). Por conta própria, ele decide passar um tempo no local com o objetivo de parar de fumar. Já na chegada, conhece Trimagasi (Zorion Eguileor, o grande destaque do elenco), que está há meses preso e que, aos poucos, vai lhe ensinando a estranha dinâmica do lugar.

O funcionamento é tão simples quanto assustador: há dois prisioneiros por cela, que ocupa todo o andar e cujo centro é formado por um grande buraco. É por ali que desce a plataforma que literalmente alimenta o sistema. No topo do prédio, um banquete é preparado e disposto sobre a plataforma. Depois, ela desce nível por nível, parando por apenas dois minutos em cada um deles. O tempo para comer é apenas este, já que nenhuma comida pode ser estocada para um momento posterior, sob risco de punição. E nada é reposto, ou seja, presos dos andares mais altos podem se empanturrar, enquanto os que estão mais para baixo chegam a passar fome.

O que define onde cada pessoa vai ficar? A sorte (ou o azar). Mensalmente, os confinados trocam de lugar. E tudo é feito de forma aleatória. Não há qualquer garantia de que quem está nos andares mais baixos vai passar para um patamar mais alto ou vice-versa. Ao mesmo tempo em que gera a esperança de comida mais farta em caso de ascensão, a plataforma provoca também o medo de uma escassez ainda maior. O consolo para tamanha angústia – e que pode ajudar a manter a sanidade mental – pode estar em um único objeto: cada preso tem direito a escolher apenas um item para levar ao confinamento. No caso de Goreng, a opção foi por um livro.

São apenas 94 minutos, alguns que requerem estômago forte para acompanhar e um punhado de cenas escatológicas desnecessárias, mas ‘El hoyo’ (no título original) permanece na memória por bem mais tempo pelas muitas reflexões que desperta. Muito bem construída, a narrativa que faz com que o espectador e o protagonista descubram e reflitam juntos sobre a dinâmica social daquela estrutura dura quase até o fim, quando o leque se abre. Para muitos, o final vai parecer dúbio. No entanto, ao deixá-lo em aberto, ‘O poço’ alimenta uma infinidade de possibilidades interpretativas, a depender do nível que cada um de nós ocupa e da fome por respostas.

Foto: Netflix/divulgação

‘Parasita’

Com atraso, fui assistir a ‘Parasita’, depois de algumas tentativas frustradas por causa das sessões sempre lotadas. O filme do sul-coreano Bong Joon-ho, que tem colecionado prêmios mundo afora e conquistado muita gente no Brasil desde o lançamento, em novembro do ano passado, conta a história da família Kim. Os pais e os dois filhos estão desempregados e moram em condições de muita insalubridade na periferia de Seul. Graças à indicação de um amigo, o filho adolescente começa a dar aulas particulares de inglês para a filha de uma família rica. Aos poucos, os parentes vão sendo infiltrados como empregados dos Park.

O roteiro – assinado pelo próprio Joon-ho e por Jin Won Han – representa as duas famílias como um espelho de opostos: enquanto uma é pobre, suja, ruidosa, feliz e malandra, a outra é rica, limpa, silenciosa, triste e ingênua. A caricatura explícita e o exagero em tons de comédia servem à primeira metade do filme de truque para entreter o espectador e fazê-lo engolir sem muitos questionamentos a facilidade com que a missão de infiltrar os desempregados no clã milionário é concluída.

Paralelamente, o diretor injeta pequenas doses de suspense, preparando as bases para uma virada na trama. Na segunda metade, o filme deixa de ser uma farsa cômica para incorporar o drama social anárquico nos moldes de ‘Corra!’ e ‘Nós’, obras muito mais inspiradas e bem acabadas do americano Jordan Peele: uma situação aparentemente pontual desencadeia uma espiral de violência imprevisível, perturbadora e irrefreável.

Pretendendo ser uma metáfora da luta de classes e da extratificação social na Coreia do Sul, que ressoa em outros cantos do mundo, como comprova o sucesso de público em países distantes e de culturas bem diferentes, Joon-ho comete o erro de não ser sutil. A família Kim, por exemplo, é sempre esperta o suficiente para dar conta de qualquer tarefa para enganar os ricos integrantes da família Park, que – por sua vez – são sempre estúpidos demais a ponto de não perceber que estão sendo tapeados. E, ao escolher os Kim como representantes dos desfavorecidos, sugere que vale tudo para ascender socialmente, ainda que esta ascensão fracasse mais adiante.

A promessa de quebrar as engrenagens que mantêm girando a roda das desigualdades sociais é extremamente sedutora. São perfeitamente compreensíveis as manifestações de simpatia pelos protagonistas, que vivem condições degradantes e estão submetidos a inúmeras formas de humilhação, como o fato de morarem abaixo do nível da rua e estarem sujeitos a ter a casa invadida pela urina de um bêbado. Apesar das dificuldades, são felizes à sua maneira, em oposição à família rica, que vive em um casarão grande o bastante para que cada um viva a solidão em seu próprio cômodo.

O principal defeito do roteiro é ser maniqueísta, mas os belos planos criados por Bong Joon-ho e as surpresas provocadas pela história ajudam a camuflá-lo. Os sobressaltos e os risos nervosos se sucedem cada vez mais rapidamente, sem dar tempo para que o espectador questione as motivações e reações dos personagens, muitas delas sem coerência. ‘Parasita’ tem o mérito de ampliar o alcance do cinema da Coreia do Sul pelo mundo, mas os sul-coreanos já fizeram filmes mais honestos com a inteligência do público, como ‘Oldboy’ (2003), ‘Casa vazia’ (2004) e ‘O caçador’ (2008).

Foto: Jae-Hyeok Lee/Divulgação