A morte da suculenta

Cuidar de uma planta pode ser bem mais difícil do que parece, mas deve ser algo que qualquer ser humano seja capaz de fazer; apesar disso, não foi o meu caso.

Esta é a confissão de um crime: eu matei a suculenta. Se você bem observou a foto, já percebeu que eu não falo vulgarmente de uma mulher, e sim de um vegetal. Em minha defesa, digo que sou réu primário: nunca antes na história deste país havia tido qualquer incidente ao cuidar de uma planta. Desta vez, falhei miseravelmente.

Explico. Tudo começou no planejamento da sala. Na parede azul, bem ao lado da mesa de jantar, alguns espelhos. Atrás do sofá, dois ou três quadros ainda não definidos. Do outro lado, sobre uma prateleira alta e o aparador, uma combinação de objetos decorativos. Para dar vida ao ambiente, já que não há filhos correndo pela casa ou animais domésticos (e sem pretensão de ter qualquer um dos dois em um futuro próximo), vasinhos salpicados aqui e acolá. Com tempo e paciência escassos para plantas que exigem muitos cuidados, a aposta seria nas suculentas.

Diz a internet que elas são os vegetais mais fáceis de cuidar da face da Terra, capazes de sobreviver a longos períodos de escassez de água ou excesso de sol escaldante. Além de formas e até cores variadas, as suculentas se adaptam bem a diversos tipos de ambiente e cabem em qualquer tamanho de vaso, onde espécies diferentes podem conviver harmonicamente. Não faltam blogs e sites com dicas de como cuidar delas ou de como plantá-las.

Sem qualquer vocação para menino do dedo verde, comprei o vasinho decorativo que julguei mais bonito. Da loja, fui direto ao quiosque mais próximo decidir qual seria a primeira – de muitas, acreditava – suculenta da casa. Não tinha ideia de que espécie melhor se adaptaria às condições de luminosidade e umidade do apartamento. Como a função era decorar, ganhou a preferência a que melhor ornava com a cor e a forma do pote. Seja por desconhecimento, má-fé ou vontade de fechar a venda, a atendente garantiu que tinha feito uma boa escolha.

Fiz todo o esforço possível para garantir sua longevidade. Volta e meia, trocava o vasinho de lugar para que a suculenta recebesse a luz do sol. Empenhei boa parte da memória para me lembrar de regá-la de tempos em tempos. Se esqueci, eu juro, não foi por maldade. Mas de nada adiantou. Dia após dia, ela foi perdendo as folhas. Até não sobrar mais nenhuma. Agora, para sacramentar a falência da missão, o caule está envergando. É o melancólico fim de uma planta mundialmente famosa pela resistência, uma pá de cal na ideia de ter uma decoração viva para a sala e o atestado da minha total incompetência para jardineiro.

PS: Este crime teve um cúmplice, mas cada um que faça sua confissão.