‘Judy: muito além do arco-íris’

Qual é o preço da fama? Judy Garland escreveu seu nome de forma definitiva na história do cinema ao interpretar Dorothy Gale em ‘O mágico de Oz’. Apesar disso, descontando-se as muitas perdas ao longo do percurso, o preço foi alto demais. Ser uma das maiores estrelas de Hollywood com tão pouca idade custou à atriz noites de sono, a fome e anos de vida. É esta história que está recontada em ‘Judy: muito além do arco-íris’, que acompanha a última turnê da artista em Londres, seis meses antes de sua morte precoce, aos 47 anos, em junho de 1969.

O cansaço com a fama e com a exaustiva rotina de celebridade vinha de longa data (havia claros indícios de fadiga já na adolescência), mas Judy (Renée Zellweger) precisava permanecer na estrada para alimentar seus filhos e manter a guarda deles. A atriz andava em baixa nos Estados Unidos por causa de seu comportamento imprevisível. Nenhuma empresa desejava contratá-la, pois as seguradoras se recusavam a arcar com a possibilidade de um acordo não cumprido. Diante das raras oportunidades e dos baixos cachês em seu país natal, ela vislumbrou a chance de faturar mais alto na Inglaterra. Assim, poderia comprar sua casa e permanecer com os filhos – a única coisa que verdadeiramente lhe importava – sob suas asas.

O roteiro de Tom Edge se vale de alguns flashbacks para que o espectador entenda a trajetória e o enfado da protagonista. Eles revelam como a jovem de Minnesota se tornou uma estrela, um exemplo a ser seguido por milhões de meninas que desejavam estar em seu lugar. O caminho, porém, não foi fácil: Judy (Darci Shaw, na juventude) fazia regime forçado para manter o corpo, fingia felicidade em relacionamentos de fachada e cumpria uma rotina de trabalho que chegava a durar 18 horas.

Muitas vezes, a atriz esteve a ponto de abandonar tudo. Nestes momentos, aparecia Louis B. Mayer (Richard Cordery), todo-poderoso produtor do estúdio responsável pelo sucesso da menina. Com um discurso tão cruel quanto convincente, ele a lembrava de que renunciar à carreira significava voltar a ser uma garota interiorana, com perspectivas limitadas de emprego e a expectativa de um bom casamento. De forma consciente, ainda que sob intenso assédio de Mayer, Judy optou por levar a carreira adiante e arcou com as consequências desta escolha: a dependência em inibidores de apetite, soníferos, cigarros e álcool.

Com exceção dos flashbacks, todas as cenas são inteiramente centradas na protagonista adulta. É tudo o que Renée Zellweger precisava para hipnotizar o público. Com uma carreira bastante irregular (os destaques ficam por conta de ‘Chicago’ e ‘Cold mountain’), a atriz interpreta seu melhor papel. Sem cair na caricatura, ela domina todas as emoções da personagem: dos arroubos de fúria ao amor sincero pelos filhos, da dor da solidão à alegria de se sentir amada por um casal de fãs britânicos. Em mínimos gestos, Renée mimetiza e humaniza uma figura que há muitas décadas paira como mito na indústria do cinema.

Não há como falar de Judy Garland sem mencionar ‘Somewhere over the rainbow’. Ao longo de todo o filme, o diretor Rupert Goold (‘A história verdadeira’) cria expectativa para o momento em que a canção será executada. E o roteiro é bastante eficiente ao inseri-la na melhor cena e de forma completamente orgânica. Mesmo se concentrando em um período bem curto da vida da atriz e fazendo voltas pontuais no tempo, o longa-metragem consegue resumir toda a vida da estrela e se firma como uma das melhores produções do ano. O maior trunfo de ‘Judy’ é revelar ao espectador que, além do arco-íris, há muitos tons de cinza.

Foto: David Hindley/Divulgação