Cinco haicais

Uma série de cinco haicais, não necessariamente relacionados, escritos recentemente.

Crimes
O arroz matou
mais de vinte; era um
cereal killer.

Perdição
Eu fugi de ti
para me encontrar, mas
te achei em mim.

Doce de leite
Pesadelo do
glutão na padaria
é não ter sonho.

Tempo fechado
Fecho janelas
já nas primeiras gotas,
mas chove em mim.

Decifra-me ou…
Fim do enigma.
O Google devorou
essa esfinge.

Imagem: ‘Esfinge’ (1913), de Karl Wilhelm Diefenbach (1815-1913)

O cansaço dos pontos

Cansa ser uma exclamação,
berrando de horror,
gritando de entusiasmo
ou impondo uma ordem.

Cansa ser uma interrogação,
eternamente em dúvida,
questionando a tudo
numa infinidade de porquês.

Cansa ser uma reticência,
por vezes interrompida,
outras em suspenso,
sem chegar a lugar algum.

Cansa ser uma vírgula,
enfileirando múltiplas ações,
apartando diferentes sujeitos
e abrindo explicações.

Cansa ser ponto e vírgula,
chamado quando as vírgulas não dão conta
e exausto de ter sempre que explicar
o próprio uso.

Cansa ser dois pontos,
porta-voz dos que falam,
antessala das enumerações,
abrindo-se a explicações.

Só o ponto final descansa.

Imagem: Shutterstock