Horas de sol

Quantas horas tem um dia?
Já limpei a casa e fiz a janta,
lavei roupa e pus tudo no varal
(com cabide e tudo, como você gosta,
para não precisar passar depois).
Já almocei, vi filme
e até cochilei no sofá.
Acordei quando o sol me alcançou
para me lembrar de que ainda é dia.
Já espiei os gatos do vizinho na janela.
Quer dizer, um dos gatos do vizinho,
porque hoje só o cinza apareceu.
Já espreitei a rua no quarto de hóspedes
(que a gente chama assim só porque tem uma cama e um armário)
para ver se alguém rompia a quarentena.
Já ouvi música também,
mas parei quando tocou aquela do Caetano
que a gente mais gosta e que você sempre erra a letra
(eu só sei cantar errado com você).
Já atendi o telefone.
Era aquela moça da financeira outra vez,
procurando o tal Sérgio para oferecer empréstimo
ou cobrar uma dívida em atraso, talvez.
Já até falei para ela que a gente não conhece nenhum Sérgio
e que não queria que ligasse mais.
Ela deve ter se esquecido de novo,
porque ligou outra vez.
Já até imaginei que dívida seria essa do Sérgio
ou será que ele se aposentou e querem empurrar um consignado?
Já fiz tanta coisa, mas ainda está sol.
E nada de você chegar do trabalho
para a gente tomar café com pão
e contar o que fez de bom hoje.
Quantas horas tem mesmo um dia?

Imagem: ‘A persistência da memória’ (1931), de Salvador Dalí

Três haicais

Sempre me encantaram os haicais. Quase parecem feitos de improviso, mas são versos bem elaborados em toda sua concisão e simplicidade. Alguns me vieram à noite, enquanto tentava dormir em tempos tão difíceis. Anotei-os no celular, retrabalhei-os há pouco e agora compartilho. 

Coração de ouro
Sempre que me vê
o ourives pergunta:
tá tudo joia?

Ouvido seletivo
Qual é a lata
onde a gente joga
conversa fora?

Amor estranho
Eu amo como
o cão coçando sarna:
alivia e fere.

Imagem: ‘La femme aux bijoux’ (1968), de Joan Miró