‘Marrom e amarelo’

Um dos temas mais polêmicos quando se fala em educação é a política de cotas raciais, que instituiu uma reserva de vagas a estudantes negros, e majoritariamente pobres, em instituições públicas de ensino superior. Trata-se de uma reparação histórica a direitos que foram negados ao grupo étnico que representa a maioria da população brasileira, tão bem-vinda e necessária, mas insuficiente diante da realidade do país. Entretanto, em vez de discussões sobre como reparar e garantir mais direitos, ainda é preciso ratificar sua validade enquanto política pública.

Este é o pano de fundo de ‘Marrom e amarelo’, livro que o professor universitário e escritor gaúcho Paulo Scott publicou em 2019 pela Alfaguara. Irmão mais velho e de pele mais clara de uma família mestiça, Federico cresceu em um violento subúrbio de Porto Alegre tendo de lidar com a discriminação. Aos 49 anos, já morando em Brasília e sendo um respeitado ativista racial, foi convidado a integrar uma comissão instituída pelo novo governo para rediscutir os critérios pelos quais um estudante teria direito à cota nas universidades.

“Lourenço me disse que eu estava mandando muito bem no drama queen, que a estatueta chegaria pelo correio em quinze dias e riu, depois disse que era inevitável, que um dia a consciência de tudo ia chegar, disse que eu não devia pensar demais, que a idade já devia ter me ensinado que algumas vezes o melhor era não pensar demais. Eu disse que o meu radar já não captava certas coisas, certos comportamentos, certos conflitos, disse que estava perdendo o jeito. Ele riu, disse que perder algumas ilusões sobre nós mesmos fazia parte do andar da carroça, que eu devia aceitar o andar da carroça. Eu disse que quando crescesse ia querer ser que nem ele, ia aprender a copiar aquela porcaria de serenidade infalível dele. Ele riu e disse que pra algo daquele tipo acontecer eu ia ter de nascer de novo.”

Paulo Scott, in 'Marrom e amarelo'

As discussões do grupo de trabalho e um problema de família envolvendo a sobrinha, que dava seus primeiros passos na militância por direitos humanos, fazem com que o protagonista reveja a própria carreira e confronte fases anteriores de sua vida. As temporalidades abarcadas na trama, que vai de 1973 a 2016, mostram que houve pouco avanço: o Brasil continua sendo um país racista e a igualdade, uma promessa. Ainda há um longo caminho de luta a ser percorrido.

Se, por um lado, o romance revela nosso atraso como nação, por outro, reforça a potência da literatura brasileira contemporânea. A paralisia política e as tensões raciais brotam nas quase 160 páginas de forma crua e objetiva. Os trechos de diálogos mais longos exigem certa atenção do leitor, mas a narração em primeira pessoa e a linguagem cotidiana acentuam o absurdo tratamento dado aos negros deste país e evidenciam a urgência de uma mudança na sociedade.

Foto: ‘Sem título’ (2015), guache de Sidney Amaral
Capa do livro: Alceu Chierosin Nunes