Os pais da língua

“De novo Dabondi quer ajudar Andrea a superar a sua ignorância. E são muitos os desconhecimentos do capitão português. Desconhece, por exemplo, que o vento já foi um pássaro. Disso sabemos nós, negros Vatxopi. São verdades que aprendemos desde crianças. O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta. Porque já foi um pássaro. Em menina eu dizia que o vento ‘assopiava’. E o padre português Rudolfo Fernandes sorria com indulgência. Os idiomas são mulheres: namoram, engravidam e geram filhos.”

Mia Couto, in 'O bebedor de horizontes'

A passagem acima faz parte de ‘O bebedor de horizontes’, terceiro volume da trilogia ‘As areias do imperador’, em que Mia Couto ficcionaliza os últimos dias do segundo maior império da África comandado por um africano e que já comentei aqui recentemente. Recomendo fortemente a leitura aos que – como eu – gostariam de conhecer um pouco mais da história do continente e, mais especialmente, de Moçambique, país que guarda semelhanças com o Brasil que vão muito além do idioma em comum. E foi um belo acerto a decisão da Companhia das Letras de manter o texto no português moçambicano, tal qual originalmente escrito.

Como também já contei aqui, tenho o hábito de destacar com marca-texto amarelo e usando régua, para ficar bem certinho, os trechos que mais me chamam a atenção. Foram inúmeros os destaques feitos nos três livros que compõem a série. Parte deles por causa das belíssimas imagens criadas pelas lendas africanas. Parte pelas frases brilhantemente cunhadas por Mia Couto. E, não raro, como no exemplo que abre este texto, as duas se combinam, tornando tudo ainda mais delicioso de ler.

Contudo, não foi a bela história do vento-pássaro que me levou a evocar a passagem. Ou não apenas, já que um trecho deste quilate merece ser compartilhado em qualquer circunstância. Porém, o que me interessa agora é a frase sobre o idioma-mulher, capaz de namorar, engravidar e gerar filhos. De forma muito mais sofisticada, o escritor revigora o velho clichê de que a língua é um organismo vivo, fluido, mutável e dinâmico, sempre aberto a novas combinações e possibilidades. Um idioma jamais se encerra em si mesmo; ele tem ascendentes e – a depender da quantidade de falantes – descendentes.

As línguas mudam conforme as sociedades. Avançam e retrocedem segundo os usos dados a elas. Somos nós, portanto, os responsáveis pelo que são e pelo que virão a ser. Os idiomas têm tantos pais quanto falantes, com variados sotaques, diversas formas de pensar, inúmeras problematizações, muitos vícios e incontáveis erros. Por vezes, seus progenitores entram em litígio, cada um lutando pelo melhor modo de cuidar dos rebentos. Dá trabalho ensinar-lhes as boas maneiras gramaticais, zelar pela exatidão ortográfica, vigiar a coerência discursiva e punir quaisquer desvios morfossintáticos. Mas sempre valem o esforço e o sacrifício, como prova Mia Couto, um dos pais mais exemplares da língua portuguesa.

Imagem: ‘Pilha de romances franceses’ (1887), de Vincent Van Gogh (1853-1890)

África desconhecida

Comecei a ler recentemente o primeiro volume da trilogia ‘As areias do imperador’, escrita pelo moçambicano Mia Couto e publicada no Brasil pela Companhia das Letras. Já falei aqui sobre Mia Couto, quando comentei a coletânea de peças ‘O terrorista elegante e outras histórias’, um projeto feito a quatro mãos com o angolano José Eduardo Agualusa. Naquela ocasião, em meados de abril do ano passado, reconheci meu quase completo desconhecimento da literatura africana em língua portuguesa, mesmo sendo ambos os autores dois dos meus preferidos.

A leitura de ‘Mulheres de cinza’, obra que inaugura a trilogia, é um primeiro passo para driblar minha ignorância. No romance histórico, Mia Couto retrata a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane e a tentativa dos portugueses de derrubar o imperador que ameaçava o domínio colonial no final do século XIX. O livro alterna as vozes da jovem africana Imani, que serve de intérprete ao sargento português Germano de Melo, e do próprio militar colonizador. Tudo isso, claro, com as frases perfeitamente lapidadas que são características do autor.

Além do deleite literário, tem sido um aprendizado descobrir parte da história moçambicana. São muitas as semelhanças entre Moçambique e Brasil, tendo ambos os países sido colonizados por Portugal. E, por isso, salta aos olhos que – mesmo tendo uma língua em comum – estejamos separados não apenas por oceanos reais, mas também por mares metafóricos. O mesmo vale para a Angola de Agualusa, que igualmente fala o mesmo idioma, e para os demais países do continente africano, que compartilham conosco um passado colonial de intensa exploração.

No Brasil, deveria ser um imperativo estudar a história da África, de onde saíram muitos de nossos ancestrais. O apagamento deliberado de nossas raízes promovido por séculos de escravização e de submissão colonial nos levou a uma contradição contra a qual temos a obrigação de nos rebelar: temos uma população de maioria negra que é tratada como minoria. Saber o que aconteceu no continente africano é fundamental para conhecer – e, mais, reconhecer – nossa própria história.

Imagem: ‘Fountain of blood’ (1967), de Malangatana Ngwenya (1936-2011)

‘O terrorista elegante e outras histórias’

Conheço pouco de literatura africana, reconheço, mas admiro as obras de dois dos maiores expoentes do continente em língua portuguesa da atualidade: o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa. Amigos de longa data, os dois autores escreveram três peças a quatro mãos. Em um projeto exclusivo para a editora Planeta Brasil, nascido em conversas informais na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, onde anualmente é realizada uma das maiores festas literárias do país, três peças foram adaptadas pelos próprios escritores para o formato de contos e reunidas em um livro de 176 páginas, ‘O terrorista elegante e outras histórias’, publicado sob o selo Tusquets. Como extra, há ainda uma entrevista de ambos a Anabela Mota Ribeiro, do jornal português Público.

O conto que abre e dá título ao livro traz a história de um angolano preso em Lisboa suspeito de ter ligação com grupos terroristas. Impecavelmente arrumado, com direito a terno feito sob medida por alfaiate e gravata, o homem confunde os agentes da justiça durante o interrogatório na prisão na capital portuguesa. As histórias que ele conta não condizem com o perfil que se espera de um terrorista e fazem com que os policiais reflitam sobre suas próprias vidas.

O segundo e melhor conto do livro, ‘Chovem amores na rua do matador’, mostra a volta de Baltazar Fortuna à cidade de Xigovia com um único e preciso objetivo: vingar-se das três mulheres que um dia amou. Além dos relatos do próprio Baltazar, também elas contam suas versões das histórias de amor vividas. É neste conto que está mais evidente a união entre a habilidade de Couto, que transforma frases aparentemente simples em verdadeiras joias, e o humor sutil e a ironia fina de Agualusa.

– O problema dos jovens hoje é não acreditarem nos sonhos. Se os sonhos não têm serventia, então por que dormimos oito horas por dia, trinta anos em noventa de vida? E por que sonhamos tanto?
– Eu não gosto de sonhar, porque os sonhos são ainda mais imprevisíveis do que a vida…
– É o contrário, os sonhos são mapas que nos ajudam a orientar na vida. Aqueles que não sabem ler os sonhos, esses, sim, estão perdidos…

Mia Couto e José Eduardo Agualusa, in 'O terrorista elegante e outras histórias'

‘A caixa preta’, terceiro e último conto do livro, traz ao menos uma cena memorável, a que marca o encontro entre a avó, a neta e o intruso. É a invasão da casa onde moram as duas mulheres, em uma cidade mergulhada no caos, que dá início à trama. Diante da presença do invasor desconhecido, as representantes de duas diferentes gerações de uma mesma família são obrigadas a enfrentar segredos até então bem guardados.

Como costuma ocorrer em qualquer reunião de contos, há sempre um que se destaca em relação aos demais. Curiosamente, neste caso, não é o que dá título à obra. O mais interessante de todos é ‘Chovem amores na rua do matador’, que, sozinho, já faria o livro valer a pena. Que o leitor não pense, porém, que os outros dois não são bons. Reunidos em ‘O terrorista elegante e outras histórias’, os três reforçam a qualidade literária de Mia Couto e Eduardo Agualusa e provam por que eles são dois dos maiores escritores africanos da atualidade.

Capa e desenho: Alex Cerveny