‘Crocodilo’

Aviso: este texto trata de suicídio e pode despertar gatilhos emocionais. Se você precisa de ajuda, pode recorrer ao Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional e trabalha na prevenção ao suicídio de forma gratuita. O serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. Ligue para 188. Você também pode buscar ajuda no Mapa da Saúde Mental.

A pandemia do novo coronavírus, decretada em março pela Organização Mundial da Saúde, lançou desafios globais à saúde e à economia e impôs severas restrições à circulação de pessoas, cujos efeitos devem se estender ainda por tempo indeterminado. No Brasil, um país de dimensões continentais e profundas desigualdades, a epidemia foi agravada ainda mais pelo negacionismo alimentado por autoridades e retroalimentado por parte da população. Não foi um ano fácil para ninguém, embora tenha sido bem mais difícil para uns do que para outros.

Não por acaso, em um 2020 marcado por tantas perdas, “luto” foi escolhida a palavra do ano, de acordo com um levantamento desenvolvido pela consultoria Cause em parceria com o Instituto Ideia Big Data, que combina a opinião de especialistas com pesquisas em ferramentas de busca e o que reverbera nas redes sociais. Desamparo, saudade e isolamento também foram elencadas entre as finalistas, o que dá um forte indício de que 2021 será igualmente desafiador, ainda que traga consigo a esperança de vacinas eficazes e de campanhas de vacinação em massa.

Foi neste contexto – tão sensível quanto adverso – que ‘Crocodilo’ me chegou às mãos. O livro de Javier A. Contreras, escritor brasileiro filho de chilenos, nada tem a ver com o novo coronavírus, porque foi lançado pela Companhia das Letras em outubro de 2019, mas ganha novas camadas de significado e se torna ainda mais sensível no período em que estamos vivendo. A frase inaugural dá o tom da obra: “Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento”. A angústia (é possível não estar angustiado nos últimos meses?) acompanha o leitor até o fim.

“Quanto a mim, foi só ali, naquele exato momento, com aquele sol que parecia filtrar toda a tristeza e a resignação que nos atingiu naquela semana, que compreendi, finalmente, que a morte, assim como a vida, não tem qualquer explicação. Tudo o que está vivo é absurdo. Tudo o que morre é consequência de ter estado vivo. E só o que resta é a jornada de cada um.”


Javier A. Contreras, in 'Crocodilo'

A reação mais imediata é questionar as intenções de Pedro. O que teria motivado um documentarista jovem e já consagrado, premiado em festivais importantes como Cannes e Berlim, a dar cabo da própria vida? A perda leva Ruy a empreender uma jornada em busca de respostas, reavaliando também a construção da família e a paternidade, nos sete dias subsequentes à morte do único filho. Com uma narrativa tão ágil quanto emotiva, Contreras conduz o protagonista (e o espectador) por algumas das fases do luto.

Uma das muitas lições que aprendi ouvindo o podcast Finitude, no qual a jornalista Juliana Dantas trata com rara sensibilidade e clareza sobre tudo o que é finito, é que lutos não são comparáveis. Cada um dos que ficam reage de uma maneira, independentemente do grau de parentesco ou da proximidade que tinha com quem partiu. Ainda assim, é inevitável pensar que não há dor maior do que perder um filho, porque nos habituamos a crer que a ordem natural da vida – ou o que gostaríamos que ela fosse – é que os filhos sobrevivam aos pais. ‘Crocodilo’ nos deixa com um nó permanente e indissolúvel na garganta, sendo a morte a cicatriz de uma vida que se perdeu. Com o tempo, ela pode deixar de doer, mas não desaparece.

Encerro o ano neste blog com um tema duro, mas necessário, e que reflete um pouco do que foi 2020. Falar sobre morte, como também aprendi no Finitude, pode ser dignificar e exaltar a vida. Em dezembro de 2019, quando inaugurei este blog e tracei a meta de escrever com regularidade, levantei a hipótese de fazer aqui uma retrospectiva. Mas quem poderia prever que, um ano e 120 textos depois, viveríamos um período tão duro e singular? Renovo a meta da escrita para 2021 e, por que não?, a esperança de que o próximo ano seja melhor para todos nós.

Capa: Rodrigo Pimenta/divulgação
Foto: Renato Parada/divulgação

‘Velhice transviada’

O dado não é novo, mas nem por isso menos chocante: o Brasil é o país em que mais se mata travestis e transexuais no mundo. São raros os que conseguem passar dos 35 anos. E raríssimos os que vivem além dos 50 anos. Mirando este segmento da população, o psicólogo, escritor e ativista dos direitos humanos João W. Nery decidiu escrever sobre o que ele chamou de “transvelhos”. O objetivo de ‘Velhice transviada’ é “descontruir a imagem caricata que se faz das pessoas transidosas” como o próprio João, o primeiro transgênero masculino brasileiro a passar pela cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos, em plena ditadura militar.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, João reconta um pouco de sua trajetória, já narrada na autobiografia ‘Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois’. Aos 68 anos, enquanto escrevia suas reflexões sobre o envelhecimento de pessoas trans, João descobriu um câncer no cérebro bastante agressivo, que lhe daria pouquíssimo tempo de vida. Impressiona a maneira como o autor fala sobre a doença que o acometeu. Para boa parte dos brasileiros, este é um assunto tabu. E muitos evitam até mesmo falar o nome da doença, como se a simples menção trouxesse mau agouro. João acredita no oposto, a teoria dele “sempre foi a de que quanto mais se ventila o assunto, menos monstruoso ele se torna – um exercício de banalização, mesmo envolvendo as cercanias da finitude”.

Com a serenidade de quem já havia superado outros dois tabus (a transexualidade e o envelhecimento), João passou por um tratamento que o debilitou bastante, mas não deixou de escrever. Sem medo, continuou trabalhando nos depoimentos que formam a segunda (e melhor) parte do livro. No dia 26 de outubro de 2018, apenas dois dias depois de ter escrito as últimas linhas, João Nery morreu. Publicado postumamente pela editora Objetiva em 2019, ‘Velhice transviada’ cumpre com louvor – ao longo de 172 páginas – o objetivo: dar voz a quem é constantemente rotulado como abominável, a quem é expulso de casa e obrigado a viver nas e das ruas, a quem é negado o direito à cidadania plena, à existência e à longevidade.

“A solidão é uma condição em que as pessoas de mais idade ficam, mas no caso da travesti está associada ao abandono e ao preconceito. Tenho pessoas que têm uma trajetória comigo, mas que, por eu ser travesti, não falam mais comigo. É uma solidão baseada numa verdade: a de dar ao outro o direito de não querer mais se relacionar comigo em função de suas limitações. Chame de preconceito, do que quiser, mas aceitação não se impõe. Prefiro a solidão a ter alguém que está ao meu lado apenas para não ser chamado de preconceituoso. Não quero ser o selo, o certificado politicamente correto de ninguém. Quero sentir liberdade da pessoa conviver comigo. Porém, não conviver não significa ter necessidade de me matar. Simplesmente precisamos nos respeitar.”

Valquíria, em entrevista, in 'Velhice transviada'

As entrevistas são fortes. A confiança que os entrevistados têm em relação ao autor faz com que relatem, de forma bastante honesta e desabrida, as dificuldades por que passaram ao longo da vida. A travesti Anyky Lima, por exemplo, conta como foi expulsa de casa pela própria mãe aos 12 anos, quando começou a se comportar como menina, e como teve que se prostituir. A história de Sissy é semelhante: foi prostituta na Europa, violentada em Portugal, usuária de álcool e drogas, soropositiva. Sobrevivente, hoje é militante e trabalha com moradoras de rua que são trans em Belo Horizonte. Outra personagem do livro é Valquíria, que foi seminarista e se casou, assumindo papéis que não correspondiam ao que de fato era. Ela chegou a tentar suicídio algumas vezes antes de se assumir travesti.

As agruras de uma vida à margem da sociedade fizeram das personagens retratadas em ‘Velhice transviada’ pessoas mais fortes, exemplos para uma nova geração que, infelizmente, ainda tem de passar pelos mesmos preconceitos e enfrentar a mesma violência. Dar visibilidade a quem conseguiu sobreviver a tantas adversidades, como faz o livro de João Nery, é extremamente importante em uma sociedade transfóbica como a nossa. Agora cabe a nós, leitores, não deixar que a população trans continue a ser estigmatizada e marginalizada. É preciso garantir que ela tenha direito à cidadania plena e à longevidade.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Capa do livro: Carlos di Celio/Objetiva

‘Coisas que aprendi com um bebê’

Conheci o trabalho de Rafael Koff em meados de 2012. Foi nesta época que ficaram famosas as tirinhas do cartunista de Porto Alegre com personagens do desenho japonês ‘Cavaleiros do zodíaco’. Com humor refinado, as histórias humanizavam os heróis e os colocavam em situações banais e curiosas, bem distantes da missão de salvar uma princesa e lutar com cavaleiros mais poderosos. O sucesso na internet deu origem a um financiamento coletivo para a impressão do livro ‘Tirinhas do zodíaco’.

Desde então, Koff vem usando com êxito as plataformas de crowdfunding para financiar e publicar seus projetos. Foi assim com ‘Freddy and Jason have fun’, uma homenagem bonitinha – e também sangrenta – aos personagens de terror, e com ‘Cueca por cima das calças’, que parodiava o universo dos super-heróis, ambos de 2013. Temas ligados ao cinema aparecem também em ‘Bastidores’, de 2016. Há ainda inúmeros outros livros publicados pelo cartunista.

O trabalho mais recente é ‘Coisas que aprendi com um bebê’, série de quadrinhos que o autor concebeu durante o primeiro ano de vida de sua filha e que ele recomenda a todo mundo que tem, quer ter ou já foi um bebê. Como os demais, o projeto foi lançado em uma vaquinha virtual que arrecadou mais de R$ 7 mil entre 167 apoiadores em outubro de 2019, batendo com folga a meta de R$ 6 mil.

O livro traz os traços e o humor sutil que são característicos de seu autor. Mesmo para quem não é pai, as tirinhas causam identificação imediata. Elas apresentam tanto situações cotidianas, como a enorme quantidade de coisas que os pais precisam carregar quando saem com um bebê, quanto questões mais filosóficas sobre a paternidade (e, por que não?, sobre a maternidade), como a perda de identidade: em vez de um indivíduo singular, o sujeito se torna o pai de alguém, sendo quase sempre referenciado pela criança. São 108 páginas de uma leitura agradável e leve, que tornam ‘Coisas que aprendi com um bebê’ um saboroso livro sobre o cotidiano de um homem se descobrindo em uma das funções mais nobres e difíceis do mundo, para a qual não há receita pronta, a de ser pai.

Fotos: Rafael Koff/divulgação

‘Marrom e amarelo’

Um dos temas mais polêmicos quando se fala em educação é a política de cotas raciais, que instituiu uma reserva de vagas a estudantes negros, e majoritariamente pobres, em instituições públicas de ensino superior. Trata-se de uma reparação histórica a direitos que foram negados ao grupo étnico que representa a maioria da população brasileira, tão bem-vinda e necessária, mas insuficiente diante da realidade do país. Entretanto, em vez de discussões sobre como reparar e garantir mais direitos, ainda é preciso ratificar sua validade enquanto política pública.

Este é o pano de fundo de ‘Marrom e amarelo’, livro que o professor universitário e escritor gaúcho Paulo Scott publicou em 2019 pela Alfaguara. Irmão mais velho e de pele mais clara de uma família mestiça, Federico cresceu em um violento subúrbio de Porto Alegre tendo de lidar com a discriminação. Aos 49 anos, já morando em Brasília e sendo um respeitado ativista racial, foi convidado a integrar uma comissão instituída pelo novo governo para rediscutir os critérios pelos quais um estudante teria direito à cota nas universidades.

“Lourenço me disse que eu estava mandando muito bem no drama queen, que a estatueta chegaria pelo correio em quinze dias e riu, depois disse que era inevitável, que um dia a consciência de tudo ia chegar, disse que eu não devia pensar demais, que a idade já devia ter me ensinado que algumas vezes o melhor era não pensar demais. Eu disse que o meu radar já não captava certas coisas, certos comportamentos, certos conflitos, disse que estava perdendo o jeito. Ele riu, disse que perder algumas ilusões sobre nós mesmos fazia parte do andar da carroça, que eu devia aceitar o andar da carroça. Eu disse que quando crescesse ia querer ser que nem ele, ia aprender a copiar aquela porcaria de serenidade infalível dele. Ele riu e disse que pra algo daquele tipo acontecer eu ia ter de nascer de novo.”

Paulo Scott, in 'Marrom e amarelo'

As discussões do grupo de trabalho e um problema de família envolvendo a sobrinha, que dava seus primeiros passos na militância por direitos humanos, fazem com que o protagonista reveja a própria carreira e confronte fases anteriores de sua vida. As temporalidades abarcadas na trama, que vai de 1973 a 2016, mostram que houve pouco avanço: o Brasil continua sendo um país racista e a igualdade, uma promessa. Ainda há um longo caminho de luta a ser percorrido.

Se, por um lado, o romance revela nosso atraso como nação, por outro, reforça a potência da literatura brasileira contemporânea. A paralisia política e as tensões raciais brotam nas quase 160 páginas de forma crua e objetiva. Os trechos de diálogos mais longos exigem certa atenção do leitor, mas a narração em primeira pessoa e a linguagem cotidiana acentuam o absurdo tratamento dado aos negros deste país e evidenciam a urgência de uma mudança na sociedade.

Foto: ‘Sem título’ (2015), guache de Sidney Amaral
Capa do livro: Alceu Chierosin Nunes

‘Todos os santos’

Mauro poderia ter sido um excelente nadador olímpico. Ou um campeão em outro esporte. Ou um profissional de sucesso em qualquer carreira que escolhesse. Mauro poderia ter sido muitas coisas, não fosse por aquele domingo aparentemente comum em clube do Rio de Janeiro. Na festa de aniversário de uma das meninas mais ricas da escola, Vanessa perdeu o irmão caçula em um acidente na piscina.

A mesma tragédia que marcou a infância da menina a ligou de maneira definitiva a André, colega de escola de Mauro, e uniu as famílias de ambos. Tempos mais tarde, já adulta e pesquisadora de aves migratórias na distante Nova Zelândia, Vanessa revisita o passado e tenta entender o que aconteceu desde aquele trágico domingo de novembro há cerca de quatro décadas e ressignificar a relação com André. Tocar essa ferida ainda não plenamente cicatrizada não é fácil, mas– movida por uma revelação inesperada – ela sente que precisa fazê-lo.

“Não penso muito, hoje em dia, repeti. Não acha estranho? Quando uma coisa dessas acontece, tudo é de um tamanho que parece que vai esmagar você para sempre, uma chave de braço que passou a fazer parte do seu corpo, e a cada minuto você precisa se lembrar e se convencer de que o que aconteceu aconteceu mesmo. Então um dia, e você não sabe como foi que chegou até ali, já não pensa mais tanto no assunto. E quando pensa o assunto passou a fazer parte da sua vida, da sua história. É um problema que você não vai conseguir resolver nunca. Uma contradição que acata, que aceita. É assim que a gente cumpre o luto, talvez.
[…]
Não sei se é assim que a gente cumpre o luto, pensando bem, eu disse. Será que a gente só faz mesmo é tentar esquecer a pessoa que morreu, para continuar vivendo? Tirar da pessoa a importância que ela teve para nós.
Não, você disse. Tenho certeza de que não é isso.
Não tenho essa certeza toda.

Adriana Lisboa (in 'Todos os santos')

O relato, tão nostálgico quanto dolorido, entre o Rio de Janeiro de outrora e a Nova Zelândia de hoje, é o cerne de ‘Todos os santos’, romance da escritora carioca Adriana Lisboa publicado em 2019 pela Alfaguara. Apesar de curto (são apenas 148 páginas), o livro requer tempo. Simples e direta na forma, a obra convida a reflexões sobre perda, culpa, arrependimento e perdão. Impossível não parar entre um parágrafo e outro para se colocar no lugar de Vanessa ou apreciar a escrita concisa e profunda da autora.

O luto sempre pode ser pacificado, mas nunca superado, o que faz de ‘Todos os santos’ um romance triste e melancólico. No entanto, o lirismo com que Adriana Lisboa conduz a narrativa, aparentemente à deriva e fragmentada, cria um porto seguro para o leitor. A travessia por reminiscências tão profundamente pessoais de Vanessa conquista tanto pela tessitura poética quanto pela universalidade do tema; ninguém é imune a perdas. A diferença está em como se lida com elas.

Foto: Getty Images/iStockphoto
Capa do livro: Claudia Espínola de Carvalho