'Adoráveis mulheres'

Roteirista e diretora Greta Gerwig ressignifica história criada há mais de um século e a transforma em libelo pela liberdade das mulheres em tempos de conservadorismo.

Em 2007, Saoirse Ronan surpreendeu o mundo não pelo nome quase impronunciável, mas pela atuação assombrosa em ‘Desejo e reparação’, de Joe Wright. Ela interpretou Briony Tallis, uma jovem de 13 anos cuja mentira mudou o destino da irmã (Keira Knightley) e do affair dela (James McAvoy). A personagem – adaptada do romance de Ian McEwan – traz uma complexidade raramente atingida por atores mais experientes. Mas a jovem não só deu conta da tarefa como ainda conquistou uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Tudo isso aos 13 anos.

Desde então, Saoirse vem enfileirando trabalhos memoráveis, a ponto de já ser considerada a Meryl Streep da nova geração. O mais recente deles, pelo qual também foi indicada ao Oscar, agora como protagonista, é ‘Adoráveis mulheres’. No longa-metragem, ela volta a trabalhar com Greta Gerwig, com quem fez ‘Lady Bird: a hora de voar’ (2017). Na nova produção, ela vive Jo March, uma jovem mulher que ousa desafiar o sistema patriarcal na segunda metade do século XIX, refuta o casamento como único destino possível e luta pela própria independência financeira.

A trama é baseada no clássico norte-americano ‘Mulherzinhas’, livro de inspirações autobiográficas escrito por Louisa May Alcott, que mostra a passagem da adolescência à vida adulta de quatro irmãs em meio à Guerra de Secessão. Jo, Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh, em atuação extraordinária) têm personalidades distintas e enfrentam o amadurecimento de maneira diferente, mas passam pelos desafios unidas pelo amor que sentem umas pelas outras.

Originalmente, Louisa escreveu o romance com um único objetivo: ganhar dinheiro para, assim como sua protagonista, ser livre. E, para isso, ela se dobrou aos desejos editoriais e recheou a história com detalhes que respeitavam a moral e os bons costumes então vigentes. O livro se tornou um sucesso instantâneo e, mesmo a contragosto (e detestando a própria obra), a autora publicou ainda duas continuações. O que chega às telas agora é apenas uma das muitas adaptações já feitas, mas a roteirista e diretora Greta Gerwig limou as lições de moral e optou por romper a estrutura linear. As idas e vindas evidenciam tanto o processo de amadurecimento quanto as relações de causa e consequência entre ações do passado e do presente.

O roteiro é tão bem construído que o espectador pode, em uma cena, concordar com determinado personagem e, logo em seguida, tirar-lhe a razão. Sem mocinhos ou vilões, são todos demasiadamente humanos e coerentes em suas trajetórias, o que permite a identificação não apenas com as protagonistas, mas também com os coadjuvantes. Facilita, obviamente, o fato de o elenco ter em papéis secundários atrizes como as veteranas Laura Dern e Meryl Streep (a melhor atriz em atividade no cinema americano), além do jovem ator em ascensão Timothée Chalamet (‘Me chame pelo seu nome’), que confere alguma simpatia a um aristocrata fútil.

A reconstituição da época é impecável, a fotografia de Yorick Le Saux imprime em diferentes tonalidades as fases da protagonista e a elegante trilha sonora de Alexandre Desplat sublinha os estágios emocionais da história. Com essa embalagem de luxo, a obra de Gerwig transforma um livro puramente mercantilista criado há mais de 150 anos em um filme que evoca questões em debate na contemporaneidade, sobretudo o papel da mulher na sociedade. Em tempos de conservadorismo, em que a misoginia parece ganhar força, expor o quanto ainda falta para as mulheres conquistarem a mesma liberdade dos homens se mostra absolutamente necessário. E ‘Adoráveis mulheres’ aponta que elas trazem em si a força necessária para chegar lá.

Foto: Wilson Webb/Divulgação

'História de um casamento'

Filme do diretor e roteirista Noah Baumbach se estabelece como uma das melhores produções recentes sobre o término de uma relação amorosa.

Não se deixe enganar pelo título, ‘História de um casamento’ não é um filme sobre um amor bem-sucedido. Na primeira cena, até dá a entender: a atriz Nicole (Scarlett Johansson) e o dramaturgo Charlie (Adam Driver) listam as qualidades um do outro. Mas logo o espectador vai descobrir que as declarações, na verdade, eram parte de um exercício proposto por um terapeuta que tentava mediar a separação entre eles.

Em nome da história que viveram, os dois decidem pôr fim ao casamento de forma amigável, mas faltou combinar com os advogados. O que seria um simples acordo judicial vai se tornando um imbróglio jurídico e financeiro (o didatismo ao explicar os custos de um processo deste tipo nos Estados Unidos, ainda que necessário, quebra um pouco o ritmo da narrativa) de consequências desastrosas.

Cada nova etapa judicial aumenta o desgaste da relação entre Nicole e Charlie. E, na melhor cena do filme, o que seria uma simples conversa descamba para uma discussão acalorada em que ambos despejam rancores e decepções na cara um do outro. No instante seguinte, os protagonistas se dão conta de que foram longe demais e se arrependem do que disseram; se já não há como desdizer o que foi dito, tampouco sobra espaço para tentar reconstruir uma relação em frangalhos.

O diretor e roteirista Noah Baumbach (‘A lula e a baleia’ e ‘Frances Ha’) se esforça para não defender nenhum protagonista, mas pende para o homem. Duas explicações são possíveis. A primeira e mais óbvia delas diz respeito ao gênero, e tende a transformar Charlie em vítima. A segunda é a experiência pessoal do realizador, que se separou da atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho, hoje com nove anos de idade. O traço autobiográfico se insinua ainda mais diante das profissões dos protagonistas.

Mais triste do que a inevitabilidade do fim do relacionamento é perceber como o filho Henry (Azhy Robertson) se torna um objeto de disputa. Ainda que pareçam amá-lo muito e com sinceridade, tanto Charlie quanto Nicole fazem do menino uma propriedade e uma forma de marcar território, onde ficar com a guarda significa uma vitória sobre o outro no processo de litígio.

O filme tem pouca ação e muitos diálogos. O roteiro – honesto com os sentimentos de seus personagens – é um prato cheio para o trabalho dos atores. Scarlett Johansson interpreta seu melhor papel desde ‘Vicky Cristina Barcelona’, mas é Adam Driver (‘Infiltrado na Klan’) quem domina a cena, imprimindo diversos estados emocionais em pouquíssimos gestos. Há ainda a luxuosa participação de Laura Dern, que dá vida à advogada de Nicole, Nora Fanshaw.

Se não chega a ser um estudo definitivo sobre as relações matrimoniais, como foi ‘Cenas de um casamento’, lançado pelo cineasta sueco Ingmar Bergman em 1974, ‘História de um casamento’ se estabelece como um dos melhores filmes recentes sobre o amor, ou sobre o fim dele.

Foto: Wilson Webb/Divulgação