Os gatos

Diante de uma janela azul na qual seis gatos se revezam para agradáveis e fortuitos banhos de sol, adquiri um novo hábito: espiá-los sempre que possível.

Espiar a janela do vizinho virou um hábito. Explico, antes que pensem que sou fofoqueiro. As paredes do quarto e da sala dão para uma casa (ou prédio, não sei dizer ao certo) com uma grande janela pintada de azul. Mas não é a cor forte o que mais chama a atenção; desfilam por ali pelo menos seis gatos. Três são monocromáticos: um preto, outro branco e o terceiro – e mais bonito de todos – inteiramente cinza, com olhos impressionantemente verdes, perceptíveis mesmo à distância. Os outros já contabilizados têm mais de uma cor: um tigrado de cinza, outro alaranjado (com a barriga e as patas brancas) e ainda um tricolor (preto, branco e amarelo).

A admiração por gatos vem de família. Minha vó sempre os teve em casa e minha mãe, embora não tenha nenhum para chamar de seu (“para não arranhar meu sofá”, diz), se diverte com os dos outros. Certamente, ela fica bem mais feliz com os bichanos do que o contrário, porque brinca com eles e os acaricia para além de suas vontades felinas, não importando que tentem arranhá-la ou mordê-la.

O melhor exemplo é Sarita, uma gata arisca que minha avó teve. Odiava as crianças que eu e meus primos éramos à época. Tampouco gostava de muito chamego. Porém, tinha uma imensa e felpuda barriga, uma irresistível atração para as mãos. Era minha mãe quem a pegava e segurava suas patas para que todos apertássemos aquela deliciosa pança. Não por acaso, Sarita sempre fugia para o fundo de um armário ou para baixo da cama ao menor sinal de nossa chegada.

Nunca tive qualquer contato – a não ser visual – com os gatos do vizinho, nem mesmo sei por onde se entra naquela casa. Alheios à minha presença na esmagadora maioria das vezes, eles ficam lá em sua janela, pegando sol quando há, quase sempre lambendo seus próprios pelos e perseguindo com os olhos os pombos que passam voando. Às vezes, respondem a um assobio meu com olhar de desdém, mas logo se voltam para a atividade que inconvenientemente ousei interromper. Na maior parte do tempo, parecem estar sentados ou deitados esperando a vida passar, mas, na verdade, estão ali só para nos deixar admirá-los.

Foto: “No. 101 de cem famosas vistas de Edo” (1857), de Utagawa Hiroshige