‘Minha história’

Poucos anos depois de deixar a Casa Branca, a ex-primeira-dama Michelle Obama publicou a autobiografia ‘Minha história’, lançada no Brasil pela editora Objetiva, que rapidamente se tornou um dos livros mais lidos do ano. Como sugere o título em português (‘Becoming’, no original em inglês), as quase quinhentas páginas recontam a trajetória de uma das mulheres mais poderosas da atualidade, da infância na região de South Side, em Chicago, ao posto de primeira-dama dos Estados Unidos.

Diferentemente de muitas mulheres que estiveram no cargo antes dela e que viveram à sombra de um marido presidente, Michelle ousou se posicionar, algo que já fazia desde a campanha presidencial de 2008, da qual participou ativamente. Na Casa Branca, se tornou porta-voz de meninas e mulheres na busca por igualdade de gênero e de raça não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Também militou por um estilo de vida mais saudável e ativo, incentivando a prática esportiva e uma alimentação mais natural entre os jovens.

Ao defender bandeiras nas quais acredita, Michelle honra a história do avô Dandy, um homem inteligentíssimo que poderia ter tido um futuro brilhante como professor ou médico, mas que passou a vida sendo subestimado por causa da classe social e da cor da pele. Como conta Michelle, o avô perdeu muitas oportunidades na vida não por falta de capacidade, mas porque elas nunca lhe eram dadas. Para não ver esta história se repetindo a cada geração, Dandy cobrava dos netos o melhor que eles pudessem dar.

A neta Michelle não desperdiçou as oportunidades que teve. Estudou em Princeton e Harvard, duas das mais prestigiadas e disputadas universidades norte-americanas. Conheceu Barack Obama em um escritório de advocacia, onde foi mentora dele. Deixou a firma em busca de um novo propósito, se casou, teve duas filhas, chegou à Casa Branca. Desde então, sua vida tem sido acompanhada de perto por milhões de pessoas em todo o planeta.

“Um dia, você é uma família normal. Daí vem uma eleição e sua vida muda na hora. Foi como se nos lançassem por um canhão. Não tivemos tempo de nos ajustar. Ser a primeira-dama foi a maior honra da minha vida. Quantas pessoas ocupam esse lugar de ser o centro das atenções? Cada gesto seu, cada piscada de olho, é analisado. O mundo todo vê cada passo que você dá. Sua vida não é mais sua.”

Michelle Obama, in 'Minha história'

Boa parte dela está contada na autobiografia, em um relato bastante pessoal e inspirador, que também está disponível na versão de audiolivro. Ciente do interesse que desperta tudo o que diz ou faz, Michelle decidiu fazer uma turnê de lançamento do livro, que percorreu 34 cidades dos Estados Unidos. Os bastidores dessa longa jornada foram acompanhados de perto pela lente da câmera de Nadia Hallgren. O material deu origem ao documentário ‘Minha história’, produzido pela Netflix e lançado em maio.

Ao longo de uma hora e meia, o filme confirma o poder que a ex-primeira-dama tem de captar a atenção e cativar o público. Para quem leu a biografia, o documentário oferece pouquíssimas novidades, a não ser o fato de ver a autora recontando passagens de sua própria história e de um relato ou outro de personagens que fizeram e fazem parte da vida dela. O maior atrativo de ‘Minha história’ é mesmo sua protagonista, termo que cai aqui como uma luva: ocupando um posto tradicionalmente secundário, Michelle Obama escolheu as bandeiras pelas quais lutar e construiu, ela mesmo, a imagem que queria para si e o legado que deixará ao mundo.

Fotos: Netflix/divulgação

‘Velhice transviada’

O dado não é novo, mas nem por isso menos chocante: o Brasil é o país em que mais se mata travestis e transexuais no mundo. São raros os que conseguem passar dos 35 anos. E raríssimos os que vivem além dos 50 anos. Mirando este segmento da população, o psicólogo, escritor e ativista dos direitos humanos João W. Nery decidiu escrever sobre o que ele chamou de “transvelhos”. O objetivo de ‘Velhice transviada’ é “descontruir a imagem caricata que se faz das pessoas transidosas” como o próprio João, o primeiro transgênero masculino brasileiro a passar pela cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos, em plena ditadura militar.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, João reconta um pouco de sua trajetória, já narrada na autobiografia ‘Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois’. Aos 68 anos, enquanto escrevia suas reflexões sobre o envelhecimento de pessoas trans, João descobriu um câncer no cérebro bastante agressivo, que lhe daria pouquíssimo tempo de vida. Impressiona a maneira como o autor fala sobre a doença que o acometeu. Para boa parte dos brasileiros, este é um assunto tabu. E muitos evitam até mesmo falar o nome da doença, como se a simples menção trouxesse mau agouro. João acredita no oposto, a teoria dele “sempre foi a de que quanto mais se ventila o assunto, menos monstruoso ele se torna – um exercício de banalização, mesmo envolvendo as cercanias da finitude”.

Com a serenidade de quem já havia superado outros dois tabus (a transexualidade e o envelhecimento), João passou por um tratamento que o debilitou bastante, mas não deixou de escrever. Sem medo, continuou trabalhando nos depoimentos que formam a segunda (e melhor) parte do livro. No dia 26 de outubro de 2018, apenas dois dias depois de ter escrito as últimas linhas, João Nery morreu. Publicado postumamente pela editora Objetiva em 2019, ‘Velhice transviada’ cumpre com louvor – ao longo de 172 páginas – o objetivo: dar voz a quem é constantemente rotulado como abominável, a quem é expulso de casa e obrigado a viver nas e das ruas, a quem é negado o direito à cidadania plena, à existência e à longevidade.

“A solidão é uma condição em que as pessoas de mais idade ficam, mas no caso da travesti está associada ao abandono e ao preconceito. Tenho pessoas que têm uma trajetória comigo, mas que, por eu ser travesti, não falam mais comigo. É uma solidão baseada numa verdade: a de dar ao outro o direito de não querer mais se relacionar comigo em função de suas limitações. Chame de preconceito, do que quiser, mas aceitação não se impõe. Prefiro a solidão a ter alguém que está ao meu lado apenas para não ser chamado de preconceituoso. Não quero ser o selo, o certificado politicamente correto de ninguém. Quero sentir liberdade da pessoa conviver comigo. Porém, não conviver não significa ter necessidade de me matar. Simplesmente precisamos nos respeitar.”

Valquíria, em entrevista, in 'Velhice transviada'

As entrevistas são fortes. A confiança que os entrevistados têm em relação ao autor faz com que relatem, de forma bastante honesta e desabrida, as dificuldades por que passaram ao longo da vida. A travesti Anyky Lima, por exemplo, conta como foi expulsa de casa pela própria mãe aos 12 anos, quando começou a se comportar como menina, e como teve que se prostituir. A história de Sissy é semelhante: foi prostituta na Europa, violentada em Portugal, usuária de álcool e drogas, soropositiva. Sobrevivente, hoje é militante e trabalha com moradoras de rua que são trans em Belo Horizonte. Outra personagem do livro é Valquíria, que foi seminarista e se casou, assumindo papéis que não correspondiam ao que de fato era. Ela chegou a tentar suicídio algumas vezes antes de se assumir travesti.

As agruras de uma vida à margem da sociedade fizeram das personagens retratadas em ‘Velhice transviada’ pessoas mais fortes, exemplos para uma nova geração que, infelizmente, ainda tem de passar pelos mesmos preconceitos e enfrentar a mesma violência. Dar visibilidade a quem conseguiu sobreviver a tantas adversidades, como faz o livro de João Nery, é extremamente importante em uma sociedade transfóbica como a nossa. Agora cabe a nós, leitores, não deixar que a população trans continue a ser estigmatizada e marginalizada. É preciso garantir que ela tenha direito à cidadania plena e à longevidade.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Capa do livro: Carlos di Celio/Objetiva