‘O homem que amava os cachorros’

Quem tem o hábito de escrever, seja por profissão ou paixão, certamente já se deparou com um livro que gostaria de ter escrito. Para mim, um exemplo é ‘O homem que amava os cachorros’, lançado pelo romancista, ensaísta e jornalista cubano Leonardo Padura em 2009 e traduzido no Brasil por Helena Pitta para a editora Boitempo. Trata-se de uma obra monumental não só pela quantidade de páginas (são quase seiscentas), mas, principalmente, pela qualidade literária.

Na nota de agradecimento da edição brasileira, Padura conta que o romance começou a ser imaginado em outubro de 1989, quando o Muro de Berlim estava prestes a desmoronar e a levar com ele a União Soviética. Foi neste período que o autor fez sua primeira viagem ao México e acabou por visitar a casa onde viveu e morreu o intelectual marxista Leon Trótski, um dos artífices da revolução russa que caiu em desgraça com a ascensão de Stálin. Transformado em museu, o espaço guarda a memória da última fase da vida do antigo dirigente bolchevique.

Duas décadas separam a concepção da publicação, embora o autor só tenha começado efetivamente a escrever a obra em maio de 2006. O resultado de tantos anos de maturação e elaboração é um livro denso, que exige empenho do leitor para vencer os capítulos iniciais, mas que recompensa a insistência em perseverar na leitura com uma narrativa instigante, em que cada novo acontecimento desperta a curiosidade para o que virá em seguida.

Um dos recursos mais admiráveis de Padura é conseguir elevar gradativamente a tensão da trama mesmo que o final já seja conhecido. Afinal, o livro se mantém fiel à história, ainda que a tenha romanceado: Trótski foi assassinado em agosto de 1940 pelo militante espanhol Ramón Mercader a mando de Stálin, que o via como um rival poderoso, capaz de ameaçar sua liderança tanto no Partido Comunista quanto na União Soviética.

O trabalho de pesquisa é assombroso e aparece muito bem costurado ao texto, que avança ou retrocede no tempo conforme a necessidade da narrativa. Se, por um lado, muito se sabe sobre a vida de Trótski, boa parte graças ao que ele mesmo deixou por escrito, nada ou quase nada se sabe com certeza em relação a Ramón Mercader ou qualquer um dos muitos personagens que ele assumiu ao longo da missão que lhe foi confiada, bem como de outras figuras reais que o circundaram e que aparecem no livro.

São personagens obscuros que ajudaram a escrever um capítulo importante da história e que ganham nova vida no romance magistral de Padura. No entanto, mais do que jogar luz sobre figuras que estavam à sombra, ‘O homem que amava os cachorros’ se vale da ascensão do socialismo – e de sua degeneração e seu ocaso posteriores – para refletir sobre as grandes utopias e o quanto elas podem custar em esperança, sonhos e vidas.

Capa: Ronaldo Alves/Boitempo