‘Para Sama’

Há quase dez anos, uma série de grandes protestos populares contra o regime de Bashar al-Assad tomou a Síria. As forças do governo reagiram com extrema violência, dando início a uma guerra civil que já custou milhares de vidas e ainda parece bem longe de acabar. Parte desta triste história está recontada em ‘Para Sama’, indicado ao Oscar de documentário deste ano e disponível no catálogo do Globoplay.

O filme de Waad al-Kateab – codirigido por Edward Watts – é uma espécie de carta que a jornalista elabora para que a filha Sama veja no futuro. Embora seja um relato bastante particular, centrado na aspereza do cotidiano de uma família em meio à guerra, a produção é também um manifesto em favor da resiliência e da memória de um grupo que lutou não só pela liberdade de um povo, mas também pela vida.

No momento em que os conflitos começavam a se intensificar e os bombardeios se tornavam mais frequentes, ameaçando a existência (e a resistência) dos manifestantes, profissionais de saúde e universitários se uniram para montar um hospital em Aleppo. Quem gerenciava a unidade era o médico Hamza al-Kateab, que acabou se casando com a documentarista, com quem teve Sama.

Apesar da estrutura precária e da iminência de uma ofensiva do governo, o hospital resistiu aos piores momentos da guerra. Obviamente, não sem baixas. Além das muitas vidas que não puderam ser salvas, um ataque aéreo provocou a perda de parte do corpo médico e colapsou a estrutura do prédio. Foi preciso encontrar um novo endereço para continuar o trabalho. Em 2016, quando a cidade foi cercada e os bombardeios eram diários, o número de pacientes recebidos chegou a 300 por dia.

O documentário é curto, tem pouco menos de uma hora e quarenta minutos de duração, mas extremamente forte. Às imagens já conhecidas de bombas caindo sobre Aleppo, reproduzidas à exaustão na televisão, somam-se outras que mostram o cotidiano de famílias em meio à guerra e a chegada de feridos ao hospital de campanha improvisado. Algumas impressionam pela crueza, como a da mãe que carrega o filho morto nos braços em meio às ruínas. Outras dilaceram pelo significado. É o caso do momento em que um menino enfileira o que parecem ser apenas bonecos de papel (os únicos brinquedos possíveis) e diz que cada um representa um amigo que se foi. E, por fim, conta que não vai perdoá-los por terem-no deixado sozinho.

Diferentemente do menino, Waad al-Kateab espera que a filha a perdoe por tê-la feito nascer no meio da guerra em Aleppo. Seu maior álibi é justamente o documentário, que reconta a jornada dos pais em busca de uma Síria mais justa e todo o empenho em salvar vidas no hospital improvisado e o esforço para preservar a memória dos que se foram. Mais do que um relato do horror da guerra, ‘Para Sama’ é uma declaração de amor não só à menina, mas também à cidade e à liberdade.

Foto: divulgação

‘Minha história’

Poucos anos depois de deixar a Casa Branca, a ex-primeira-dama Michelle Obama publicou a autobiografia ‘Minha história’, lançada no Brasil pela editora Objetiva, que rapidamente se tornou um dos livros mais lidos do ano. Como sugere o título em português (‘Becoming’, no original em inglês), as quase quinhentas páginas recontam a trajetória de uma das mulheres mais poderosas da atualidade, da infância na região de South Side, em Chicago, ao posto de primeira-dama dos Estados Unidos.

Diferentemente de muitas mulheres que estiveram no cargo antes dela e que viveram à sombra de um marido presidente, Michelle ousou se posicionar, algo que já fazia desde a campanha presidencial de 2008, da qual participou ativamente. Na Casa Branca, se tornou porta-voz de meninas e mulheres na busca por igualdade de gênero e de raça não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Também militou por um estilo de vida mais saudável e ativo, incentivando a prática esportiva e uma alimentação mais natural entre os jovens.

Ao defender bandeiras nas quais acredita, Michelle honra a história do avô Dandy, um homem inteligentíssimo que poderia ter tido um futuro brilhante como professor ou médico, mas que passou a vida sendo subestimado por causa da classe social e da cor da pele. Como conta Michelle, o avô perdeu muitas oportunidades na vida não por falta de capacidade, mas porque elas nunca lhe eram dadas. Para não ver esta história se repetindo a cada geração, Dandy cobrava dos netos o melhor que eles pudessem dar.

A neta Michelle não desperdiçou as oportunidades que teve. Estudou em Princeton e Harvard, duas das mais prestigiadas e disputadas universidades norte-americanas. Conheceu Barack Obama em um escritório de advocacia, onde foi mentora dele. Deixou a firma em busca de um novo propósito, se casou, teve duas filhas, chegou à Casa Branca. Desde então, sua vida tem sido acompanhada de perto por milhões de pessoas em todo o planeta.

“Um dia, você é uma família normal. Daí vem uma eleição e sua vida muda na hora. Foi como se nos lançassem por um canhão. Não tivemos tempo de nos ajustar. Ser a primeira-dama foi a maior honra da minha vida. Quantas pessoas ocupam esse lugar de ser o centro das atenções? Cada gesto seu, cada piscada de olho, é analisado. O mundo todo vê cada passo que você dá. Sua vida não é mais sua.”

Michelle Obama, in 'Minha história'

Boa parte dela está contada na autobiografia, em um relato bastante pessoal e inspirador, que também está disponível na versão de audiolivro. Ciente do interesse que desperta tudo o que diz ou faz, Michelle decidiu fazer uma turnê de lançamento do livro, que percorreu 34 cidades dos Estados Unidos. Os bastidores dessa longa jornada foram acompanhados de perto pela lente da câmera de Nadia Hallgren. O material deu origem ao documentário ‘Minha história’, produzido pela Netflix e lançado em maio.

Ao longo de uma hora e meia, o filme confirma o poder que a ex-primeira-dama tem de captar a atenção e cativar o público. Para quem leu a biografia, o documentário oferece pouquíssimas novidades, a não ser o fato de ver a autora recontando passagens de sua própria história e de um relato ou outro de personagens que fizeram e fazem parte da vida dela. O maior atrativo de ‘Minha história’ é mesmo sua protagonista, termo que cai aqui como uma luva: ocupando um posto tradicionalmente secundário, Michelle Obama escolheu as bandeiras pelas quais lutar e construiu, ela mesmo, a imagem que queria para si e o legado que deixará ao mundo.

Fotos: Netflix/divulgação

‘Máfia dos tigres’

Estima-se que apenas quatro mil tigres vivam em seus habitats naturais em todo o mundo. Este número quase triplica se forem considerados os que se tornaram propriedade particular. Um dos maiores – e mais excêntricos – proprietários é Joseph Allen Schreibvogel, que chegou a ter mais de duzentos grandes felinos em seu zoológico particular em Oklahoma, nos Estados Unidos. Em suas apresentações, ele atribui para si dois apelidos: Joe Exotic e “Tiger King”, alcunha que batiza o título original da minissérie documental ‘Máfia dos tigres’, disponível na Netflix.

Todas as facetas de Joe Exotic são exploradas em sete episódios de cerca de 45 minutos cada, indo do aparente showman dono de um zoológico bem-sucedido à derrocada, quando foi preso por contratar um assassino de aluguel para matar a ativista dos direitos dos animais e dona de um santuário de grandes felinos Carole Baskin, que se dedica a tentar fechar zoológicos particulares e impedir a exploração comercial dos tigres.

O apelido de exótico cai como uma luva ao protagonista. Ostentando inúmeros piercings, um penteado para lá de esquisito, camisas escandalosas e calças jeans que parecem embalá-lo a vácuo, Joe é uma figura ao qual o espectador não consegue parar de prestar atenção. Extremamente egocêntrico, ele junta em torno de seu zoológico funcionários com históricos de problemas com a justiça que os cultuam como uma espécie de líder de uma seita. O mesmo vale para os três maridos que teve, sendo dois ao mesmo tempo, e todos muito mais jovens. O ego exageradamente inflado o levou bem além de tentar protagonizar o próprio reality show e se tornar um cantor de música country: ele se lançou candidato à presidência dos Estados Unidos e ao governo de Oklahoma.

Nenhum outro personagem da série (que é documental, vale reforçar) é tão excêntrico quanto Joe, mas todos parecem saídos da franquia ‘Se beber, não case’. Há ex-traficantes com cara de mau, donos de boates de strip-tease, uma ativista de direitos dos animais cujos móveis da casa e as roupas são todas com estampas de pele e – claro – muita gente acariciando e beijando tigres como se fossem gatos domésticos.

O que mais chama a atenção em ‘Máfia dos tigres’ (uma tradução ruim para ‘Tiger king’, já que não há qualquer cumplicidade entre os “mafiosos”) é o livre acesso que os diretores Eric Goode e Rebecca Chaiklin tiveram à história e aos envolvidos, que falam abertamente sobre praticamente todos os assuntos abordados, incluindo a prática de crimes como o tráfico de animais selvagens e a contratação de assassinos de aluguel. E tudo é recontado com um farto material de arquivo, gravações da vida íntima e do trabalho do protagonista. Se não funciona como um chamado à importância de lutar pela preservação dos animais, embora o tema perpasse toda a série, ‘Máfia dos tigres’ cumpre o propósito de contar uma boa (e quase inacreditável) história real. E faz isso enquanto entretém, o que não é pouco para uma produção documental.

Foto: Netflix/divulgação