‘Professor polvo’

Como vocês já devem ter percebido pela quantidade de posts sobre o assunto, cinema é uma das minhas grandes paixões. Tradicionalmente, todo começo de ano sigo o mesmo ritual: elaborar a lista dos filmes que vão concorrer aos principais prêmios da temporada, como o Oscar e o Globo de Ouro. Os anúncios dos indicados e dos vencedores foram adiados por conta da pandemia, que também forçou as comissões que concedem as láureas a aceitar produções que estrearam apenas em plataformas de streaming. Isso vai facilitar bastante a vida dos cinéfilos que, como eu, tentam assistir à maior quantidade de produções possível antes das premiações.

Um dos termômetros mais confiáveis para saber que filmes estão bem cotados para receber indicações é a Variety. Todos os anos, a revista americana, considerada a bíblia do entretenimento, publica – e atualiza constantemente – previsões em todas as categorias do Oscar e nas principais do Globo de Ouro e do Sindicato dos Atores de Hollywood (SAG). E o melhor de tudo é que a revista separa até mesmo os possíveis indicados em diferentes níveis, indo dos que são dados como certo aos que surgem na temporada como azarões. Há boas produções na lista deste ano. E muitas delas já estão disponíveis aqui no Brasil.

Um ótimo exemplo é ‘Professor polvo’, apontado pela Variety como um dos postulantes ao Oscar de melhor documentário. Desde setembro, o filme está disponível na Netflix. E, como acontece com todas as produções próprias, desde então aparece por lá com grande destaque. Confesso que, à primeira vista, a história de uma amizade improvável entre um mergulhador e um polvo que vive em uma floresta subaquática na África do Sul não me despertou muito interesse, apesar das críticas positivas que li a respeito da obra. Fui deixando para depois. Até que o tal depois finalmente chegou.

As imagens da vida marinha nos arredores da Cidade do Cabo são belíssimas e estão acompanhadas das explicações didáticas e nada enfadonhas (como eu pensei que seriam) de Craig Foster, fundador do projeto Sea Change. Os mergulhos dele em apneia são igualmente impressionantes, e muitíssimo bem captados, dando ao espectador a sensação de acompanhá-lo ao fundo do mar. A edição acerta em cheio ao abrir espaços para a pura contemplação, sem prejudicar em nada a narrativa e um surpreendente arco dramático.

Arco dramático em um documentário sobre um polvo? Eu sei que parece meio absurdo, mas você não leu errado, não. À primeira vista, não há qualquer relação entre o mergulhador e o animal, que desconfia bastante daquele ser estranho no fundo do oceano. Mas, aos poucos, o polvo vai se acostumando à presença humana e, mais que isso, cria uma relação tão próxima que é possível até chamar de amizade. Soma-se a isso um certo suspense envolvendo predadores perigosos como tubarões e até um certo tom crítico em relação à necessária agenda ambiental, mas sem ser panfletário. A despeito de qualquer lógica, arrisco dizer que você vai torcer pelos protagonistas de ‘Professor polvo’. É ver para crer.

Imagem: divulgação/Netflix

O que não se vê no espelho

“Estar no mundo fisicamente exige da gente uma certa segurança, não?”, questiona-se a cartunista Laerte Coutinho já quase no fim do documentário ‘Laerte-se’, produção da Netflix dirigida por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, que conduz também – com extrema sensibilidade – as entrevistas nas quais a artista fala com sinceridade sobre sua identidade de gênero. O processo de mudança veio a público em setembro de 2010, quando Laerte contou à revista Bravo sobre o hábito de se vestir com roupas e acessórios femininos.

Era o estopim de uma transformação que ia muito além do crossdressing. A figura que Laerte via no espelho não condizia com a pessoa que desejava ser. O reflexo mostrava um homem vestido de mulher, e não a mulher que efetivamente gostaria de ser. Depois de décadas aprisionada em uma identidade masculina, a cartunista – com a segurança de uma carreira sólida e com filhos já criados, como ela mesmo conta no filme – decidiu se libertar e se assumir mulher.

Ainda que o corpo seja a parte mais visível, o que determina a identidade de um ser humano não é a biologia. Culturalmente, nos habituamos a definir masculino e feminino pela imagem dos corpos. No entanto, temos aprendido ao longo dos anos que um corpo, mesmo nu, pode dizer muito pouco ou até contradizer o que se vê. Aos poucos e com grandes sobressaltos, a luta para que o gênero deixe de ser um fardo a quem foge a uma norma socialmente imposta ganha musculatura.

É esta batalha que Laerte trava com uma honestidade rara. Após um momento de hesitação, a cartunista aceitou compartilhar sua intimidade com a equipe do documentário e tentar responder a uma questão complexa: o que é, de fato, ser mulher. As inseguranças e dúvidas que deixa transparecer são a prova de que a identidade é uma construção que nunca termina e em nada diminuem a coragem de se expor tão abertamente. Não é por acaso que o filme transformou sujeito em verbo: nossas ações dizem muito do que somos. Ouse ser quem você quiser ser. Laerte-se!

Foto: divulgação

‘Secreto e proibido’

Amor é amor, não importa a forma como ele se manifesta. Apesar de parecer uma conclusão óbvia, não é. Terry Donahue e Pat Henschel precisaram esconder da família (e da sociedade) por mais de seis décadas que não eram primas, e sim um casal. Elas se conheceram e passaram a morar juntas no fim dos anos 1940, época em que homossexuais eram perseguidos, perdiam empregos e se suicidavam por terem suas existências negadas e não serem aceitos como eram.

Produzido pela Netflix e lançado neste ano, o documentário ‘Secreto e proibido’ (‘A secret love’, no original), de Chris Bolan, reconta – com farto e impressionante material de arquivo – a belíssima história de amor entre as duas. Depois de tantos anos juntas, elas se questionam se não seria a hora de finalmente se casar, ainda que oficializar a união perante uma sociedade que as fez viverem reprimidas a vida inteira signifique muito pouco diante da estrada que trilharam.

Outra questão com a qual precisam lidar é a debilidade física. Por causa do mal de Parkinson, Terry tem dificuldades de realizar algumas tarefas domésticas. E o fato de morarem sozinhas nos Estados Unidos, enquanto os parentes moram no Canadá, faz com que a família de Terry se ressinta da reticência de Pat – também já idosa – não só em não aceitar a mudança, mas também em insistir em cuidar da mulher sozinha. Sobre este ponto, são impressionantes a sinceridade e a forma desabrida com que os personagens do documentário falam sobre suas percepções e suas relações de afeto.

Foram muitos os percalços que Terry e Pat enfrentaram, vivendo suas identidades apenas dentro de casa ou na presença dos amigos mais íntimos. O medo da descoberta da relação amorosa era tanto que elas rasgavam a parte inferior das cartas que escreviam uma para outra para que quem por ventura as pegasse não descobrisse o remetente. Mais de 60 anos se passaram para que elas pudessem ser finalmente livres. E é a liberdade – e uma bela história de vida a dois – que ‘Secreto e proibido’ celebra ao longo de quase uma hora e meia de duração. Como diz Terry em determinado momento, “amor é amor, e isso é o mais importante”.

Foto: Netflix/divulgação

‘Em nome de Deus’

Em dezembro de 2018, a coreógrafa holandesa Zahira Mous e a escritora e coach espiritual americana Amy Biank denunciaram ao ‘Conversa com Bial’ abusos sexuais praticados por João Teixeira de Faria, médium conhecido como João de Deus que fazia atendimentos espirituais na Casa de Dom Inácio de Loyola, na cidade goiana de Abadiânia. O depoimento das duas fez com que outras centenas de mulheres ganhassem coragem para revelar traumas pelos quais o curandeiro as fez passar.

O programa deu início a uma profunda investigação jornalística sobre quem era João de Deus, da infância pobre no interior do país a um médium respeitado no Brasil e no mundo, admirado por milhares de seguidores famosos e anônimos que o procuravam diariamente em busca de cura, homem poderoso e influente na política local, em torno de quem girava toda a economia da pequena cidade de Abadiânia.

Os 18 meses de apuração deram origem à minissérie documental ‘Em nome de Deus’, disponível no catálogo do Globoplay desde o fim de junho. São seis episódios de cerca de uma hora cada, que – além de recontar a trajetória de João Teixeira de Faria – permitem ao espectador entender de que maneira ele se valia do poder e do prestígio conquistados para abusar das mulheres e, depois, silenciá-las.

Embora cada capítulo aborde um tema, todos eles são entremeados por uma roda de conversa com vítimas de abuso mediada pela jornalista Camila Appel, que assina o roteiro da minissérie ao lado de Fellipe Awi e Ricardo Calil. Este último divide a direção com Monica Almeida e Gian Carlo Bellotti. Mais aflitivos do que os vídeos das cirurgias espirituais realizadas por João de Deus, são os relatos destas mulheres.

Unidas por um desejo de que a justiça seja finalmente feita, elas perscrutam memórias doloridas para recontar em detalhes a violência que sofreram. Ainda que cada uma tenha lidado de maneira diferente com o abuso, fica descrito de forma evidente o modus operandi com que o algoz agia: valendo-se da momentânea fragilidade e da fé na cura pretendida, abusava delas com a certeza de que a notoriedade conquistada por ele as desacreditaria, caso denunciassem, ou as silenciaria. Funcionou por décadas.

São relatos muito duros, que chegam a provocar ojeriza e repulsa, mas absolutamente necessários. Graças a eles, João Teixeira de Farias está sendo julgado e já recebeu três condenações. ‘Em nome de Deus’ é um exemplo muito bem-acabado de como o jornalismo pode ser poderoso e tem significativa contribuição a dar à sociedade quando apura com rigor as denúncias recebidas e cobra justiça.

Foto: Globoplay/divulgação

‘Batkid – o início’

O que é preciso para transformar um sonho em realidade? Patricia Wilson é uma das pessoas mais preparadas para responder a essa pergunta. Ela é diretora da Make a Wish, uma fundação criada em 1980, nos Estados Unidos, para realizar os desejos de crianças com doenças graves e ajudá-las a recuperar uma parte da infância perdida entre hospitais e longas fases de tratamento na luta pela sobrevivência.

Um dos sonhos que Patricia ajudou a tornar real foi o de Miles, morador da pequena cidade de Tulelake, no estado americano da Califórnia. Quando tinha por volta de um ano e meio de vida, ele foi diagnosticado com leucemia. Depois de anos de tratamento, com o menino já próximo à remissão, a família entrou em contato com a fundação: Miles queria ser – ainda que por um dia – seu herói favorito, o Batman.

No dia 15 de novembro de 2013, o mundo conheceu Batkid. E não há qualquer exagero em dizer que a história foi manchete em países tão diversos quanto a China ou a Noruega. É que, naquele dia, São Francisco virou Gotham City. A empreitada foi tão grande que envolveu o departamento de polícia e a prefeitura. Quarteirões inteiros foram bloqueados para a passagem do batmóvel, aguardada por milhares de voluntários, muitos deles vindos de avião. Hans Zimmer, responsável pela trilha sonora da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan, compôs um chamado especial para o projeto. Atores que interpretaram o personagem no cinema e até o então presidente Barack Obama enviaram mensagens para Miles, agradecendo-o por ter derrotado Charada e Pinguim, salvando a cidade.

A bem-sucedida empreitada está recontada em ‘Batkid – o início’ (‘Batkid begins’, no original), dirigido por Dana Nachman e lançado em 2015. Em cerca de uma hora e meia, o documentário, disponível no catálogo do Globoplay, traz entrevistas com os pais de Miles e com os principais responsáveis por organizar a ação, mostrando como tudo foi arquitetado. Em tempos em que a empatia parece perder cada vez mais espaço para o ódio, o filme nos mostra o poder transformador da solidariedade, aquece o coração e devolve a esperança na humanidade. ‘Batkid’ também foi feito para que não nos esqueçamos jamais de que o primeiro passo para tornar um sonho real é sonhar.

Foto: divulgação