O som do mar

Quem costuma ir à praia, e mesmo quem vai esporadicamente, já reparou que as caixinhas de som permitem ouvir de tudo, menos o barulho das ondas.

Outro dia fui à praia. Parece mentira, mas eu juro que aconteceu. E acontece de vez em quando, ainda que sob leve pressão. Não sou um dos maiores fãs, algo que fica visível na pele cor de escritório. É que o contato com a areia me incomoda. O sol escaldante também. E o excesso de luminosidade. Tem ainda o medo de permanecer de óculos escuros e terminar com aquela marca que atesta a completa falta de intimidade com o ambiente. Para quem tem miopia e astigmatismo (e quase dorme de óculos para ver os sonhos em alta definição), ficar sem enxergar perfeitamente também é uma angústia.

No entanto, nem tudo está perdido na praia (se for uma criança, é só bater palma até o responsável localizá-la). Gosto do toque do sol na pele, da brisa úmida soprando, das ondas que lambem as pernas (obrigado, Lulu, pela imagem afetivamente poética), do cheiro e do sabor do queijo coalho, que ficou ainda mais gostoso depois de proibido, da água de coco gelada (e de comer a carne do coco depois) e de pular as ondas.

Sendo sincero, o que eu mais gosto é de me deitar sobre a areia, deixar o sol aquecer a pele (e renovar o estoque de vitamina D, para alegria do clínico geral e desespero do dermatologista), sentir o vento, o cheiro da maresia e ouvir o som do mar. Principalmente, escutar as ondas quebrando na beira. Bem, era disso que eu gostava. E que praticamente acabou. Não por culpa das ondas, que continuam cumprindo seu papel, mas pela quantidade avassaladora de celulares conectados a caixinhas de som.

Cada vez menores, mais baratas e mais potentes, elas estão presentes em dez entre dez barracas. Arrisco dizer que há quem seja capaz de se esquecer de levar a canga, mas não a caixinha de som. Ouve-se de tudo. E tudo ao mesmo tempo. Tem o funk da turminha à direita, o sertanejo universitário da dupla à esquerda e as divas do pop atingindo agudos impressionantes do grupinho sentado mais atrás. Procurando bem, dá para achar qualquer estilo ecoando das areias, menos o som do mar. Este, talvez, só dando um mergulho, porque as caixinhas à prova d’água ainda não são tão boas. Mas não se preocupe, isso as empresas de tecnologia logo vão resolver. E aí a gente vai poder colocar para tocar no aplicativo enquanto boia o som do mar. Se a gente quiser ouvi-lo, claro!

A morte da suculenta

Cuidar de uma planta pode ser bem mais difícil do que parece, mas deve ser algo que qualquer ser humano seja capaz de fazer; apesar disso, não foi o meu caso.

Esta é a confissão de um crime: eu matei a suculenta. Se você bem observou a foto, já percebeu que eu não falo vulgarmente de uma mulher, e sim de um vegetal. Em minha defesa, digo que sou réu primário: nunca antes na história deste país havia tido qualquer incidente ao cuidar de uma planta. Desta vez, falhei miseravelmente.

Explico. Tudo começou no planejamento da sala. Na parede azul, bem ao lado da mesa de jantar, alguns espelhos. Atrás do sofá, dois ou três quadros ainda não definidos. Do outro lado, sobre uma prateleira alta e o aparador, uma combinação de objetos decorativos. Para dar vida ao ambiente, já que não há filhos correndo pela casa ou animais domésticos (e sem pretensão de ter qualquer um dos dois em um futuro próximo), vasinhos salpicados aqui e acolá. Com tempo e paciência escassos para plantas que exigem muitos cuidados, a aposta seria nas suculentas.

Diz a internet que elas são os vegetais mais fáceis de cuidar da face da Terra, capazes de sobreviver a longos períodos de escassez de água ou excesso de sol escaldante. Além de formas e até cores variadas, as suculentas se adaptam bem a diversos tipos de ambiente e cabem em qualquer tamanho de vaso, onde espécies diferentes podem conviver harmonicamente. Não faltam blogs e sites com dicas de como cuidar delas ou de como plantá-las.

Sem qualquer vocação para menino do dedo verde, comprei o vasinho decorativo que julguei mais bonito. Da loja, fui direto ao quiosque mais próximo decidir qual seria a primeira – de muitas, acreditava – suculenta da casa. Não tinha ideia de que espécie melhor se adaptaria às condições de luminosidade e umidade do apartamento. Como a função era decorar, ganhou a preferência a que melhor ornava com a cor e a forma do pote. Seja por desconhecimento, má-fé ou vontade de fechar a venda, a atendente garantiu que tinha feito uma boa escolha.

Fiz todo o esforço possível para garantir sua longevidade. Volta e meia, trocava o vasinho de lugar para que a suculenta recebesse a luz do sol. Empenhei boa parte da memória para me lembrar de regá-la de tempos em tempos. Se esqueci, eu juro, não foi por maldade. Mas de nada adiantou. Dia após dia, ela foi perdendo as folhas. Até não sobrar mais nenhuma. Agora, para sacramentar a falência da missão, o caule está envergando. É o melancólico fim de uma planta mundialmente famosa pela resistência, uma pá de cal na ideia de ter uma decoração viva para a sala e o atestado da minha total incompetência para jardineiro.

PS: Este crime teve um cúmplice, mas cada um que faça sua confissão.