Uma coisa de cada vez

Recentemente, em seu Mundo Hipatético, Amanda contou como a quarentena está transformando sua vida. Como estamos todos no mesmo barco (mas, espera-se, cada um na sua casa), o relato é parecido com o de familiares, amigos e colegas de trabalho. Alguns estão com mais dificuldade para pegar no sono ou engordando. Há quem relate ter mais ou menos disposição para fazer exercícios físicos, tempo para aprender algo novo ou para ler aquele livro que há muito andava na fila ou por as séries em dia.

Cada pessoa sente e passa a quarentena de um jeito, a depender da personalidade, do estilo de vida, da condição financeira e do preparo psicológico. Mas enfrentar esse momento de tanta incerteza não é fácil para ninguém. Enfim, nos demos conta de que o futuro é mesmo imprevisível, por mais que tentemos prevê-lo ou planejá-lo. Claro que é importante criar raízes fortes para resistir às intempéries que possivelmente virão. No entanto, temos sempre que nos lembrar de que não controlamos tudo.

Se o futuro está no campo das possibilidades, o presente é mais palpável. E, neste ponto, a quarentena nos tem feito repensar o agora. Com o leque de ações bem mais restrito, nos confrontamos com atividades que fazíamos de modo quase automático ou que delegávamos a alguém. Para muitos, lidar com a limpeza da casa, a lavagem das roupas e o preparo das refeições nem passava pela cabeça. Somam-se à lista o trabalho, a educação dos filhos e os cuidados com os mais velhos.

Diante de uma crise em que a prioridade é a saúde (e que ninguém diga o contrário), precisamos reclassificar o que é urgente e o que é importante; o que não pode ser postergado, o que vai ficar para depois e o que nem será feito. Para mim, foi curioso perceber como algumas coisas que eu achava que eram urgentes passaram à categoria de desnecessárias. E outras, que eram constantemente adiadas, subiram de patamar.

Também me dei conta de como algumas tarefas eram cumpridas de maneira rápida e displicente. Fazer as refeições, por exemplo, era quase que apenas suprir uma necessidade metabólica, com a atenção dividida entre ver as mensagens acumuladas no celular, ouvir podcasts ou assistir ao jornal na televisão. Agora, me permito aproveitar o momento, saboreando cada garfada ou gole.

Parece uma mudança boba, mas não é. Percebi o quanto os resultados não eram satisfatórios justamente porque faltou foco. Já me esqueci de um ingrediente porque prestava atenção ao que ouvia no podcast. Ou o contrário: perdi uma informação relevante porque me concentrava na receita. Também já tive que retroceder na leitura de um livro porque, a cada parágrafo, parava para responder a mensagens no celular.

São exemplos banais, mas que me alertaram para a importância de ter um foco. Vale para atividades da casa, mas também para o trabalho. Esqueça a balela do funcionário multitarefa, capaz de fazer tudo ao mesmo tempo e com igual eficiência. Uma atividade sempre vai ser a principal e as outras, secundárias. E é possível até que nem a principal seja cumprida satisfatoriamente, já que a atenção está dividida. Então, por que não fazer uma coisa de cada vez? Os resultados certamente serão melhores.

Apesar de todos os dias terem 24 horas, uns parecem correr mais depressa que outros; e há grandes chances de que voltem a passar voando quando a quarentena acabar. Mas espero levar dela ao menos dois aprendizados. O primeiro, que nem tudo que é importante é urgente. O segundo, que tudo tem seu tempo. Aproveite.

Arte: Sean David Williams

Quarentena

Fique em casa. Na semana em que a doença provocada pelo novo coronavírus leva à morte suas primeiras vítimas no Brasil, a orientação das autoridades públicas – e não só as de saúde – não poderia ser mais clara. Parece simples deixar de ir à rua, exceto para atividades essenciais, como trabalhar (desde que a profissão exercida seja extremamente necessária ao funcionamento mínimo do país), ir ao médico (se os sintomas forem realmente severos) ou comprar um produto imprescindível que tenha acabado. Tudo o mais é supérfluo e a recomendação é apenas uma: evite sair.

Ser obrigado a ficar em casa parece fácil. No início, dá para pensar em uma série de coisas que sempre adiamos fazer por preguiça ou falta de tempo, como arrumar um armário ou uma gaveta. Também podem ser somados a esta lista ver filmes e séries ou ler aquele livro já comprado há tanto tempo e que não passamos nem da capa. Trocar a terra das plantas, organizar a despensa, limpar a geladeira, engraxar sapatos, limpar as janelas mais altas… São tantas as pendências que a impressão que temos é que vai faltar até tempo para cumpri-las.

Na teoria, tudo se resolve facilmente. Na prática, não é bem assim. Uma frase que ganhou bastante popularidade nas redes sociais resume bem o momento que vivemos: quarentena não é férias. O isolamento social exige não só disciplina, mas também muito preparo mental. Ficar em casa por opção, como se estivéssemos de férias, é uma coisa; por necessidade, é outra, completamente diferente. Perder ou ter restringida a liberdade de decidir quando ficar ou quando sair gera angústia.

Por quanto tempo deveremos ficar isolados? Esta é uma pergunta para a qual nenhum especialista arrisca uma resposta categórica. Tudo vai depender da nossa capacidade de nos mantermos em casa pelo tempo que for necessário. E o que as autoridades dizem é que isso pode levar meses. A única certeza que se tem, no momento, é que o coronavírus ainda fará novas vítimas e exigirá serenidade de nós. Precisamos manter a calma e a força. Está tudo bem se, algumas vezes, nós sentirmos medo. Só não podemos deixar que ele seja maior do que a esperança de que dias melhores virão.

Foto: Mauro Pimentel/AFP

Um exercício de cidadania

Lavar as mãos, evitar tocar o rosto, usar a dobra do cotovelo para cobrir tosse ou espirro, evitar aglomerações, não compartilhar objetos pessoais… As orientações para conter o avanço do novo coronavírus são simples e são compartilhadas em muito lugares, de autoridades de saúde a veículo de comunicação, de informes empresariais a grupos de WhatsApp.

É quase impossível acreditar que há quem não saiba como se proteger. Ainda assim, é enorme o número de pessoas que negligenciam as orientações. Não falo daqueles que por ventura as esquecem e cobrem a tosse com a mão ou que coçam os olhos. A chamada etiqueta respiratória é um hábito que poucos de nós tínhamos e que vamos nos acostumar a usar com o tempo. Falo daqueles cuja negligência é deliberada, como, por exemplo, os que lotaram as praias no último fim de semana.

Como a doença provocada pela contaminação pelo novo coronavírus é semelhante a uma gripe, muita gente se acha no direito de ignorar as recomendações. Afinal, convivemos há muitos anos com gripes e as consequências mais graves da nova doença, que pode levar à morte, atingem um contingente reduzido de pacientes, sobretudo idosos, quem tem problemas respiratórios ou baixa imunidade.

Por mais que muitas pessoas infectadas não apresentem sintomas ou desenvolvam uma forma branda da doença, é preciso pensar fundamentalmente nos grupos de risco. Indivíduos jovens e saudáveis, menos propensos a complicações, precisam ter – mais do que nunca – empatia. Devemos nos proteger não apenas por nós, mas por todos aqueles que podem ser mais duramente atingidos. O novo coronavírus é um desafio para autoridades de saúde do mundo. Para nós, é um exercício de solidariedade.

Foto: CDC/divulgação

Dia internacional da mulher

Nasci em uma família de mulheres fortes. Minhas duas avós são nordestinas que, como tantas outras de suas gerações, vieram ao Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades. Minha avó materna chegou de Sergipe ainda antes de atingir a maioridade, seguindo os passos de irmãos mais velhos, para trabalhar. A outra, mãe de meu pai, veio de Pernambuco. Na então capital federal, apesar de todas as dificuldades que enfrentaram, construíram suas vidas, se casaram e formaram suas famílias. Foram, acima de tudo, resilientes.

Aliás, não pode ser mera obra do acaso que resiliência seja um substantivo feminino. É invejável a rapidez com que as mulheres conseguem se adaptar às mudanças, recobrar sua força original e ocupar novos espaços. E diariamente elas dão prova dessa capacidade, muitas vezes forçadas por uma sociedade que ainda hoje, apesar dos avanços, é machista e misógina, que tenta lhes negar direitos fundamentais e lhes impor como pensar ou agir.

Ainda falta um longo caminho a ser percorrido na luta por igualdade de gênero, que será pavimentado por gerações de mulheres que não têm nenhuma dúvida sobre onde querem chegar e o que querem conquistar. Se, na época, cada uma de minhas avós lutava por sua própria história, hoje, suas netas sabem que a batalha é coletiva, que juntas são mais fortes e que os resultados alcançados vão ser partilhados por todas.

Neste dia internacional da mulher, presto minha homenagem e reafirmo a minha eterna gratidão às mulheres que contribuíram, cada uma a seu jeito, para a minha formação: avós, mãe, tias, primas, amigas, professoras, chefes, colegas de trabalho. E deixo também aqui todo o meu respeito, apoio e solidariedade a todas aquelas que lutam por igualdade. O mundo vai ser melhor para todos nós quando vocês chegarem onde querem e sabem que vão chegar.

Foto: “Mulher no espelho” (1950), de Zélia Salgado

Os gatos

Espiar a janela do vizinho virou um hábito. Explico, antes que pensem que sou fofoqueiro. As paredes do quarto e da sala dão para uma casa (ou prédio, não sei dizer ao certo) com uma grande janela pintada de azul. Mas não é a cor forte o que mais chama a atenção; desfilam por ali pelo menos seis gatos. Três são monocromáticos: um preto, outro branco e o terceiro – e mais bonito de todos – inteiramente cinza, com olhos impressionantemente verdes, perceptíveis mesmo à distância. Os outros já contabilizados têm mais de uma cor: um tigrado de cinza, outro alaranjado (com a barriga e as patas brancas) e ainda um tricolor (preto, branco e amarelo).

A admiração por gatos vem de família. Minha vó sempre os teve em casa e minha mãe, embora não tenha nenhum para chamar de seu (“para não arranhar meu sofá”, diz), se diverte com os dos outros. Certamente, ela fica bem mais feliz com os bichanos do que o contrário, porque brinca com eles e os acaricia para além de suas vontades felinas, não importando que tentem arranhá-la ou mordê-la.

O melhor exemplo é Sarita, uma gata arisca que minha avó teve. Odiava as crianças que eu e meus primos éramos à época. Tampouco gostava de muito chamego. Porém, tinha uma imensa e felpuda barriga, uma irresistível atração para as mãos. Era minha mãe quem a pegava e segurava suas patas para que todos apertássemos aquela deliciosa pança. Não por acaso, Sarita sempre fugia para o fundo de um armário ou para baixo da cama ao menor sinal de nossa chegada.

Nunca tive qualquer contato – a não ser visual – com os gatos do vizinho, nem mesmo sei por onde se entra naquela casa. Alheios à minha presença na esmagadora maioria das vezes, eles ficam lá em sua janela, pegando sol quando há, quase sempre lambendo seus próprios pelos e perseguindo com os olhos os pombos que passam voando. Às vezes, respondem a um assobio meu com olhar de desdém, mas logo se voltam para a atividade que inconvenientemente ousei interromper. Na maior parte do tempo, parecem estar sentados ou deitados esperando a vida passar, mas, na verdade, estão ali só para nos deixar admirá-los.

Foto: “No. 101 de cem famosas vistas de Edo” (1857), de Utagawa Hiroshige