‘Special’

Procurando uma série para assistir despretensiosamente depois do almoço, esbarrei com ‘Special’ no catálogo da Netflix. Como eram apenas oito episódios de cerca de quinze minutos cada, parecia o escape perfeito para tempos tão duros de pandemia. Classificada pela própria plataforma como espirituosa e irreverente, a série conta a história de Ryan Hayes, um jovem gay com paralisia cerebral moderada que busca tomar as rédeas da própria vida sem ligar muito para a imagem que os outros têm dele.

A produção americana é baseada no livro autobiográfico ‘I’m special: and other lies we tell ourselves’, lançado em 2015 por Ryan O’Connell, que – além de roteirista – é também o produtor-executivo e o protagonista. Isso tudo confere ainda mais verdade à série, que não evita temas sensíveis como a relação de dependência com a mãe, Karen (Jessica Hecht, em atuação comovente), e a vivência da sexualidade.

Mas quem disse que é preciso se levar a sério para abordar temáticas tão importantes? ‘Special’ tem o mérito de tratar tudo de forma leve, sem medo de ser piegas. É impressionante como o roteiro consegue passear entre a comédia e o drama em episódios tão curtos. Um dos truques para a concisão funcionar é agregar personagens secundários facilmente identificáveis, como a amiga gordinha que usa o humor para autoafirmação, a chefe megera e o gay descolado. Não se preocupe, o elenco bem escalado nos faz perdoar rapidamente o apelo aos estereótipos.

No cômputo geral, a série – dirigida por Anna Dokoza – é uma bem-vinda surpresa. Com domínio completo do personagem (ou seria da própria história?), Ryan O’Connell brilha em cena e faz de ‘Special’ um excelente entretenimento.

Foto: Beth Dubber/divulgação

‘A casa das flores’

Até quando é possível manter a imagem de família perfeita, daquelas que costumam aparecer em comerciais de margarina de pouco sabor, mas com fotografia e iluminação caprichadas? Este é o esforço de Virginia de la Mora (Verónica Castro), matriarca de uma família rica que é dona de uma floricultura na Cidade do México. Produzida pela Netflix, a série mexicana ‘A casa das flores’ começa no momento em que tudo está prestes a ruir. No aniversário do patriarca, Ernesto (Arturo Ríos), a amante Roberta Sánchez (Claudette Maillé) traz à tona segredos capazes de mudar a história da família.

Criada por Manolo Caro, que também escreve e dirige alguns episódios, a série aposta na grande quantidade de reviravoltas para prender o espectador. Se, por um lado, a estratégia para despertar a curiosidade funciona, por outro, esbarra na dificuldade de criar sucessivos ganchos que sejam tão fortes quanto verossímeis. Em alguns casos (e não vou citá-los aqui para não dar spoiler), as viradas não funcionam e acabam revelando o próprio truque, que deveria passar despercebido para quem assiste.

A série incorpora e atualiza muitos elementos das novelas mexicanas, produto exportado com sucesso por muitas décadas para o mercado latino. E não há qualquer demérito nisto. Estão presentes as atuações mais exageradas (como o estranho modo de falar de Paulina, interpretada pela atriz Cecilia Suárez) e os dramalhões sentimentais, mas com as devidas arestas aparadas para o formato: cada temporada tem cerca de dez episódios de meia hora.

Com tons de comédia ácida e politicamente incorreta, a trama aborda também temas contemporâneos mais sérios e latentes, como sexualidade e identidade de gênero (e desperta críticas ao escalar o ator Paco León para interpretar uma personagem transexual). Com elenco bem azeitado, episódios curtos e sem se levar a sério demais, ‘A casa das flores’ é fácil de maratonar e serve como um bom passatempo.

Foto: Netflix/divulgação

‘Toc toc’

Pare para observar a si mesmo e a seus hábitos por um instante. Certamente, você tem alguma mania tão intrinsecamente sua que já a pratica sem nem mesmo se dar conta. Geralmente, são coisas banais, como dobrar as meias sempre da mesma maneira ou organizar os livros do maior para o menor e os DVDs (ainda há quem os colecione?) em ordem alfabética, quando não em ordem alfabética depois de agrupados por gênero, dependendo da quantidade de discos acumulados ao longo do tempo.

Mas o que acontece quando elas se transformam em uma prisão, a ponto de o sujeito não conseguir relaxar se os talheres não estiverem perfeitamente empilhados ou se as camisas penduradas no cabide não estiverem todas para o mesmo lado? Detalhes absolutamente banais para uns podem ser fonte de profunda angústia para outros. E o que seriam simples manias se tornam um transtorno obsessivo compulsivo.

Este é o tema de ‘Toc toc’, comédia espanhola lançada em 2017. Praticamente toda a ação se passa na sala de espera do consultório de um renomado psicólogo. Inúmeros pacientes vão chegando para suas primeiras consultas e descobrem não só que o especialista está atrasado por causa de uma viagem internacional, como também que um defeito no sistema de agendamentos fez com que todos eles fossem marcados para o mesmo horário.

Enquanto esperam, os personagens se veem obrigados a lidar com as peculiaridades de cada um. Blanca (Alexandra Jiménez), por exemplo, é paranoica com limpeza e lava as mãos a cada vez em que encosta em um objeto que ela desconfia não estar limpo. O taxista Emilio (Paco León) transforma todas as informações em cálculos, enquanto Ana María (Rossy de Palma) vasculha a bolsa a todo momento em busca das chaves de casa. Completam a lista de pacientes Otto (Adrián Lastra), neurótico por simetria e organização, Lili (Nuria Herrero), que repete sempre as frases, e Federico (Oscar Martínez), que não consegue evitar que palavrões e frases grosseiras – quase sempre com cunho sexual – saiam de sua boca.

Forçados a lidar com uma terapia de grupo involuntária, os pacientes vão aprendendo a suportar a maneira de ser dos outros e a tentar superar o transtorno que os acomete. Sem se pretender inovador ou trazer qualquer rigor científico, o roteiro de Vicente Villanueva, que também dirige, propositalmente exagera as situações e extrai boas doses de humor justamente ao transformar os personagens em caricaturas com as quais os espectadores podem se identificar, inclusive com mais de um deles. São 90 minutos de uma comédia despretensiosa, leve e eficiente em fazer rir. Mas fica a ressalva: ‘Toc toc’ é contraindicado a quem tem a mania de só ver grandes filmes.

Foto: Emilio Pereda/divulgação

‘Nada a esconder’

Não faz muito tempo, os celulares serviam apenas para fazer ligações e trocar mensagens rápidas. Hoje, cada ser humano carrega a própria vida no bolso (ou na bolsa). Tudo está no aparelho: dos números de telefone de familiares e amigos a senhas de trabalho, da agenda de compromissos às músicas preferidas, de informações sobre a própria saúde aos perfis nas redes sociais. Não é preciso muito esforço para perceber que os smartphones se tornaram uma extensão de nós mesmos.

Tê-lo sempre à mão, para muita gente, é mais do que uma simples vontade: é uma necessidade. Não por acaso, a psicologia vem desenvolvendo conceitos para ajudar a explicar o medo de ficar sem acesso ao celular (nomofobia) ou de sentir que se está perdendo algum momento importante (“fomo”, do inglês “fear of missing out”). Do mesmo modo como todas as informações pessoais são confiadas ao aparelho, também os segredos são guardados ali.

E o que aconteceria se estes segredos fossem relevados, mesmo a pessoas próximas? Esta é a premissa de ‘Nada a esconder’, produção francesa lançada em 2018. Remake do italiano ‘Perfetti sconosciuti’, de Paolo Genovese, o filme acompanha um jantar entre amigos: quatro homens que se conhecem desde os tempos de escola e as esposas de três deles. No meio da confraternização, um jogo é proposto: os celulares devem ser deixados sobre a mesa e toda vez que houver uma nova notificação, o conteúdo será compartilhado com todos, sejam mensagens lidas em voz alta, ligações postas no viva-voz ou fotos e vídeos exibidos para o grupo.

Apesar de algumas resistências quanto à perda de privacidade e da visível tensão nos rostos de muitos dos amigos, todos acabam aceitando participar. Conforme as notificações vão se sucedendo, segredos (quase sempre envolvendo lealdade e sexualidade) são revelados e os comensais se veem obrigados a dar explicações tanto a seus pares quanto aos demais convidados.

Adaptado e dirigido por Fred Cavayé, ‘Le jeu’ (título original) trata de questões contemporâneas com as quais todos nós nos identificamos. Algumas situações soam um tanto artificiais, mas servem bem às caricaturas estabelecidas para cada um dos personagens. Como é característico das comédias francesas, o filme é totalmente dependente dos diálogos, que aqui funcionam na grande maioria do tempo e são bem defendidos por um elenco coeso. Ao longo de 93 minutos, ‘Nada a esconder’ consegue entreter ao mesmo tempo em que faz uma boa crítica social. O final do filme, no entanto, se não chega a comprometer toda a experiência, guarda uma última surpresa absolutamente desnecessária.

Foto: Julien Panié/divulgação

‘Jojo Rabbit’

Fazer cinema, não importando o país, é sempre um risco. São muitas as variáveis que precisam ser pensadas ao tirar um projeto do papel e os custos são altos. Depois, com o filme pronto, há ainda um último desafio: a bilheteria. Ter bastante público e arrecadar boas cifras não são sinônimo de qualidade cinematográfica, no entanto, são parâmetros econômicos importantíssimos para viabilizar futuros trabalhos.

Os bons resultados de ‘Thor: Ragnarok’, de 2017, cacifaram o diretor neozelandês Taika Waititi a lançar ‘Jojo Rabbit’, uma comédia satírica de premissa ousada: um solitário menino alemão tem Adolf Hitler como amigo imaginário e se esforça para ser um nazista exemplar, mas se vê obrigado a rever seus conceitos ao descobrir que a mãe esconde uma jovem judia no sótão de casa.

Escrito por Taika, a partir da obra de Christine Leunens, o roteiro (premiado com o Oscar de melhor roteiro adaptado) é brilhante ao provar que é perfeitamente possível tratar com humor temas tão sombrios como o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. O exagero e o tom histriônico com que Hitler (interpretado pelo próprio diretor) é representado servem para ressaltar os absurdos da ideologia que tomou o poder na Alemanha durante o período.

Confiando de forma absoluta na proposta, o restante do elenco embarca no tom farsesco da trama sem medo. Há boas cenas com Sam Rockwell e Rebel Wilson, que interpretam líderes do acampamento de formação de pequenos nazistas. Outro ponto de alívio cômico é Archie Yates, que dá vida ao desastrado amigo Yorki. As atuações – digamos – mais sérias ficam por conta de Thomasin McKenzie e Scarlett Johansson, que vivem a menina judia e a mãe do protagonista, respectivamente. Mas é Roman Griffin Davis quem rouba a cena. Esperto e carismático, ele se sai muito bem tanto na comédia quanto nos momentos mais dramáticos.

O grande mérito de Taika é transformar a ousadia em um filme que consegue divertir e fazer pensar. O cineasta minimizou ao máximo os riscos de transformar o que foi concebido para ser uma sátira aos abomináveis ideais nazistas em apologia. Nos tempos atuais, em que pensamentos autoritários e nacionalistas voltaram a ecoar em diversas partes do mundo, ‘Jojo Rabbit’ poderia ser mais incisivo em condenar os horrores do Holocausto, mas sua realização já é um feito a ser celebrado.

Foto: Petr Stuna/divulgação