'Parasita'

Lotando sessões pelo mundo, filme do sul-coreano Bong Joon-ho mescla comédia farsesca com drama social anárquico, mas subestima a inteligência do espectador.

Com atraso, fui assistir a ‘Parasita’, depois de algumas tentativas frustradas por causa das sessões sempre lotadas. O filme do sul-coreano Bong Joon-ho, que tem colecionado prêmios mundo afora e conquistado muita gente no Brasil desde o lançamento, em novembro do ano passado, conta a história da família Kim. Os pais e os dois filhos estão desempregados e moram em condições de muita insalubridade na periferia de Seul. Graças à indicação de um amigo, o filho adolescente começa a dar aulas particulares de inglês para a filha de uma família rica. Aos poucos, os parentes vão sendo infiltrados como empregados dos Park.

O roteiro – assinado pelo próprio Joon-ho e por Jin Won Han – representa as duas famílias como um espelho de opostos: enquanto uma é pobre, suja, ruidosa, feliz e malandra, a outra é rica, limpa, silenciosa, triste e ingênua. A caricatura explícita e o exagero em tons de comédia servem à primeira metade do filme de truque para entreter o espectador e fazê-lo engolir sem muitos questionamentos a facilidade com que a missão de infiltrar os desempregados no clã milionário é concluída.

Paralelamente, o diretor injeta pequenas doses de suspense, preparando as bases para uma virada na trama. Na segunda metade, o filme deixa de ser uma farsa cômica para incorporar o drama social anárquico nos moldes de ‘Corra!’ e ‘Nós’, obras muito mais inspiradas e bem acabadas do americano Jordan Peele: uma situação aparentemente pontual desencadeia uma espiral de violência imprevisível, perturbadora e irrefreável.

Pretendendo ser uma metáfora da luta de classes e da extratificação social na Coreia do Sul, que ressoa em outros cantos do mundo, como comprova o sucesso de público em países distantes e de culturas bem diferentes, Joon-ho comete o erro de não ser sutil. A família Kim, por exemplo, é sempre esperta o suficiente para dar conta de qualquer tarefa para enganar os ricos integrantes da família Park, que – por sua vez – são sempre estúpidos demais a ponto de não perceber que estão sendo tapeados. E, ao escolher os Kim como representantes dos desfavorecidos, sugere que vale tudo para ascender socialmente, ainda que esta ascensão fracasse mais adiante.

A promessa de quebrar as engrenagens que mantêm girando a roda das desigualdades sociais é extremamente sedutora. São perfeitamente compreensíveis as manifestações de simpatia pelos protagonistas, que vivem condições degradantes e estão submetidos a inúmeras formas de humilhação, como o fato de morarem abaixo do nível da rua e estarem sujeitos a ter a casa invadida pela urina de um bêbado. Apesar das dificuldades, são felizes à sua maneira, em oposição à família rica, que vive em um casarão grande o bastante para que cada um viva a solidão em seu próprio cômodo.

O principal defeito do roteiro é ser maniqueísta, mas os belos planos criados por Bong Joon-ho e as surpresas provocadas pela história ajudam a camuflá-lo. Os sobressaltos e os risos nervosos se sucedem cada vez mais rapidamente, sem dar tempo para que o espectador questione as motivações e reações dos personagens, muitas delas sem coerência. ‘Parasita’ tem o mérito de ampliar o alcance do cinema da Coreia do Sul pelo mundo, mas os sul-coreanos já fizeram filmes mais honestos com a inteligência do público, como ‘Oldboy’ (2003), ‘Casa vazia’ (2004) e ‘O caçador’ (2008).

Foto: Jae-Hyeok Lee/Divulgação

'1917'

Brilhantemente dirigido em grandes planos-sequência por Sam Mendes, filme prova que temática de guerra está longe de se esgotar no cinema.

Fui ao cinema com enorme expectativa assistir a ‘1917’. Em primeiro lugar, porque dramas de guerra costumam me chamar mais a atenção do que os que se concentram na ação do conflito. Depois, porque a obra foi dirigida por Sam Mendes, que tem no currículo filmes aclamados como ‘Beleza americana’ – pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor – e o irretocável ‘Foi apenas um sonho’, que reuniu Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em suas melhores fases e traz ainda um assombroso Michael Shannon. E vale creditar também ao cineasta a oxigenada dada à saga ‘007’; são dele ‘Operação Skyfall’ e ‘007 contra Spectre’.

Chama a atenção ainda em ‘1917’ a arriscada opção por construir o longa-metragem como uma sucessão de planos-sequência, dando a impressão de que a maior parte da ação transcorre em tempo real. Esta decisão é coerente com o roteiro, escrito pelo próprio Sam Mendes, em parceria com Krysty Wilson-Cairns. Dois soldados britânicos recebem uma missão praticamente impossível durante um dos momentos cruciais da Primeira Guerra Mundial: cruzar um território dominado pelos alemães para entregar uma mensagem que pode evitar a morte de cerca de 1,6 mil homens da Grã-Bretanha em uma emboscada. Como o ataque é iminente, Blake (Dean-Charles Chapman, simpático) e Schofield (George MacKay, minimalista) precisam correr contra o tempo. O caráter de urgência, somado aos hercúleos esforços dispensados na empreitada, faz o espectador prender a respiração em diversos momentos.

Enquanto os soldados buscam cumprir a missão que lhes foi confiada (e que pode definir o futuro da guerra), seus dramas particulares vão sendo pincelados ao longo do percurso. São poucos os diálogos, mas suficientes para revelar as motivações dos personagens e entender de onde vieram. Em meio ao cenário devastado e desolador, Chapman e MacKay, que têm aqui a melhor oportunidade de suas carreiras no cinema, transmitem em mínimos gestos tanto o desgaste físico quanto esgotamento psicológico a que seus protagonistas estão submetidos.

O domínio de Sam Mendes da técnica do plano-sequência é evidente. O diretor comanda coreografias engenhosas. Por vezes, a câmera está colada aos personagens, comportando-se como se fosse um deles. Por outras, se afasta para mostrar múltiplas ações simultâneas em cenários grandiosos e arrasados, com centenas de figurantes. De forma bastante orgânica, estes dois modos de operação se alternam diversas vezes dentro de uma mesma sequência; e sempre magistralmente fotografados por Roger Deakins, parceiro habitual tanto de Sam Mendes quanto dos irmãos Coen.

Toda expectativa é correspondida. A estética apurada (fotografia e direção de arte impecáveis), a trilha sonora de Thomas Newman que pontua momentos específicos, a mixagem de som que insere o espectador no cenário da ação, as atuações precisas de todo o elenco e o roteiro quase irretocável (apenas uma sequência envolvendo uma jovem francesa poderia ser descartada, ainda que funcione como um respiro) são brilhantemente orquestrados pelo diretor. Em ‘1917’, cai por terra a máxima de que, em uma guerra, não há vencedores. Há sim. E este alguém é Sam Mendes.

Foto: François Duhamel/Divulgação

'O escândalo'

Baseado em história real sobre assédio, filme tenta levantar debate necessário, mas desperdiça o bom elenco em roteiro preguiçoso e direção apagada.

Em 2016, o então diretor-geral da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow), deixou o cargo depois de ter sido acusado de assédio sexual pela ex-âncora Gretchen Carlson (Nicole Kidman). No processo, ela alegou ter sido demitida após rechaçar sucessivas investidas do ex-chefe. O caso teve repercussão mundial, já que Ailes foi consultor de mídia de presidentes republicanos, como o de George W. Bush, e transformou a Fox News no canal de notícias a cabo de maior audiência dos Estados Unidos.

É essa a história que está recontada em ‘O escândalo’. Em tempos de Me Too, movimento que denunciou práticas de masculinidade tóxica também na indústria do cinema e se expandiu para outros setores da sociedade americana e para fora dos Estados Unidos, levantar questões como assédio é absolutamente necessário. Mas o filme oferece pouco, limitando-se apenas a recontar um caso de grande repercussão, talvez acreditando que ele – por si só – bastaria.

O roteiro carece de um conflito forte o suficiente para que o espectador fique em dúvida sobre o desfecho da trama. Charles Randolph repete aqui a mesma fórmula usada no superestimado ‘A grande aposta’, que lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro adaptado. Ele incorpora diferentes elementos narrativos, que servem mais para confundir do que para fazer o filme avançar: narração de vários protagonistas, letterings para qualificar figuras desimportantes e uma injustificada e preguiçosa quebra da quarta parede (quando o personagem fala diretamente ao público).

Os defeitos até poderiam ser corrigidos pelo diretor, mas falta experiência a Jay Roach, cujo currículo é marcado por comédias esquecíveis como ‘Austin Powers’ e ‘Entrando numa fria’. Com uma história interessante, mas sem clímax, e direção frouxa, o que se destaca é o elenco. Além de Nicole Kidman, Charlize Theron, que interpreta uma âncora que hesita entre ignorar ou se unir a Gretchen Carlson, e Margot Robbie, que vive uma jovem aspirante à apresentadora, defendem bem seus papéis. Com exceção das atrizes, ‘O escândalo’ é um rascunho do que poderia ter sido um grande filme.

Foto: Hilary Bronwyn Gayle/Divulgação

'Judy: muito além do arco-íris'

Filme promove a dessacralização de uma das figuras mais icônicas da indústria do cinema e dá à atriz Renée Zellweger o melhor papel de sua carreira.

Qual é o preço da fama? Judy Garland escreveu seu nome de forma definitiva na história do cinema ao interpretar Dorothy Gale em ‘O mágico de Oz’. Apesar disso, descontando-se as muitas perdas ao longo do percurso, o preço foi alto demais. Ser uma das maiores estrelas de Hollywood com tão pouca idade custou à atriz noites de sono, a fome e anos de vida. É esta história que está recontada em ‘Judy: muito além do arco-íris’, que acompanha a última turnê da artista em Londres, seis meses antes de sua morte precoce, aos 47 anos, em junho de 1969.

O cansaço com a fama e com a exaustiva rotina de celebridade vinha de longa data (havia claros indícios de fadiga já na adolescência), mas Judy (Renée Zellweger) precisava permanecer na estrada para alimentar seus filhos e manter a guarda deles. A atriz andava em baixa nos Estados Unidos por causa de seu comportamento imprevisível. Nenhuma empresa desejava contratá-la, pois as seguradoras se recusavam a arcar com a possibilidade de um acordo não cumprido. Diante das raras oportunidades e dos baixos cachês em seu país natal, ela vislumbrou a chance de faturar mais alto na Inglaterra. Assim, poderia comprar sua casa e permanecer com os filhos – a única coisa que verdadeiramente lhe importava – sob suas asas.

O roteiro de Tom Edge se vale de alguns flashbacks para que o espectador entenda a trajetória e o enfado da protagonista. Eles revelam como a jovem de Minnesota se tornou uma estrela, um exemplo a ser seguido por milhões de meninas que desejavam estar em seu lugar. O caminho, porém, não foi fácil: Judy (Darci Shaw, na juventude) fazia regime forçado para manter o corpo, fingia felicidade em relacionamentos de fachada e cumpria uma rotina de trabalho que chegava a durar 18 horas.

Muitas vezes, a atriz esteve a ponto de abandonar tudo. Nestes momentos, aparecia Louis B. Mayer (Richard Cordery), todo-poderoso produtor do estúdio responsável pelo sucesso da menina. Com um discurso tão cruel quanto convincente, ele a lembrava de que renunciar à carreira significava voltar a ser uma garota interiorana, com perspectivas limitadas de emprego e a expectativa de um bom casamento. De forma consciente, ainda que sob intenso assédio de Mayer, Judy optou por levar a carreira adiante e arcou com as consequências desta escolha: a dependência em inibidores de apetite, soníferos, cigarros e álcool.

Com exceção dos flashbacks, todas as cenas são inteiramente centradas na protagonista adulta. É tudo o que Renée Zellweger precisava para hipnotizar o público. Com uma carreira bastante irregular (os destaques ficam por conta de ‘Chicago’ e ‘Cold mountain’), a atriz interpreta seu melhor papel. Sem cair na caricatura, ela domina todas as emoções da personagem: dos arroubos de fúria ao amor sincero pelos filhos, da dor da solidão à alegria de se sentir amada por um casal de fãs britânicos. Em mínimos gestos, Renée mimetiza e humaniza uma figura que há muitas décadas paira como mito na indústria do cinema.

Não há como falar de Judy Garland sem mencionar ‘Somewhere over the rainbow’. Ao longo de todo o filme, o diretor Rupert Goold (‘A história verdadeira’) cria expectativa para o momento em que a canção será executada. E o roteiro é bastante eficiente ao inseri-la na melhor cena e de forma completamente orgânica. Mesmo se concentrando em um período bem curto da vida da atriz e fazendo voltas pontuais no tempo, o longa-metragem consegue resumir toda a vida da estrela e se firma como uma das melhores produções do ano. O maior trunfo de ‘Judy’ é revelar ao espectador que, além do arco-íris, há muitos tons de cinza.

Foto: David Hindley/Divulgação

'O labirinto do fauno'

Universo que Guillermo del Toro levou aos cinemas ganha livro em adaptação expandida de Cornelia Funke e confirma caráter eterno de obra-prima.

A literatura é capaz de aliviar uma perda? Até que ponto ela pode ajudar alguém a sobreviver a um ambiente extremamente hostil? São estas as perguntas que movem ‘O labirinto do fauno’, um conto de fadas para adultos dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro para o cinema em 2006. Em meados do ano passado, o filme foi adaptado para um livro de mesmo nome. Trata-se de um percurso bastante incomum, já que normalmente é o texto impresso que costuma ser levado às telas.

O ano era 1944. Em meio à guerra civil na Espanha, a jovem Ofélia (Ivana Baquero, segura e expressiva, apesar da pouca idade) é obrigada a se mudar após a morte do pai e o novo casamento de sua mãe, Carmen (Ariadne Gil), com o sádico capitão do exército franquista Ernesto Vidal (Sergi López, excepcional). Palco de conflitos entre as forças fascistas e rebeldes que se insurgem contra o governo nacional, o posto de campanha no norte do país não é nada propício para uma menina com menos de dez anos, tampouco para uma mulher grávida; Carmen espera o primeiro filho de Vidal, a única coisa que lhe interessa. Neste cenário sombrio, Ofélia se refugia na literatura.

A fantasia que lê nos livros se torna realidade quando ela encontra o Fauno (Doug Jones, ator excepcional que interpreta ainda o Homem Pálido), um ser mitológico com características de animais, humanos e plantas. Com ele, a jovem descobre que pode ser filha do rei do submundo e, portanto, herdeira do trono. Porém, para poder reencontrar seu verdadeiro pai, Ofélia terá que passar por três provações para comprovar sua identidade. Enquanto isso, na vida real, vai precisar sobreviver às agruras da guerra e ainda se desvencilhar das garras de um padrasto que a despreza e faz de sua mãe uma refém. Para Vidal, a menina – como todas as mulheres – pouco importa. O casamento foi pensado com o único objetivo de render um herdeiro.

“A mãe de Ofélia ainda não sabia, mas ela também acreditava em contos de fadas. Carmen Cardoso acreditava no conto de fadas mais perigoso de todos: o do príncipe que a salvaria.”

Cornelia Funke (in 'O labirinto do fauno')

Profundamente filosófico e encantador, o filme do diretor, produtor e roteirista Guillermo del Todo representou o México na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro. Perdeu para o alemão ‘A vida dos outros’, mas faturou as estatuetas de melhor fotografia (Guillermo Navarro), direção de arte (Eugenio Caballero e Pilar Revuelta) e maquiagem (Davi Martí e Montse Ribé), além de ter sido indicado também em duas outras categorias: roteiro original e trilha sonora (Javier Navarrete). Foi um feito e tanto para uma produção que não é falada em inglês.

‘O labirinto do fauno’ é tecnicamente impecável ao fazer contrastar o conto de fadas que conforta Ofélia com a dura realidade da guerra civil espanhola. A fotografia e a direção de arte trabalham com muitas nuances os tons soturnos que dão cor ao filme, mas pontuam o universo mágico com belas combinações de dourado e vermelho. O trabalho de maquiagem impressiona pela composição do fauno e do homem pálido. Extremamente delicada, a trilha sonora eterniza a canção de ninar que perpassa o filme. E tudo isso é potencializado por interpretações excepcionais, com destaque para Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López e Maribel Verdú, que interpreta Mercedes, empregada que consegue conservar sua humanidade mesmo trabalhando para um homem tão perverso como Vidal.

Como transpor para a literatura um trabalho tão poderoso visualmente que arrebatou público e crítica nos cinemas? E mais, como atingir a mesma excelência da matriz original? A missão foi confiada pelo próprio Del Toro à escritora e ilustradora alemã Cornelia Funke, autora da série ‘Coração de tinta’. Deliberadamente, o livro é extremamente fiel ao filme: Cornelia conta no posfácio que assistiu minuto a minuto do longa-metragem para reproduzir as cenas. O trabalho de escolha das palavras é meticuloso tanto para designar as ações quanto para descrever o clima, tudo muito bem traduzido para o português por Bruna Beber.

Os fãs são presenteados ainda com contos adicionais que expandem o universo dos personagens. Lançado pela editora Intrínseca, o livro vem brilhantemente embalado. São 320 páginas em uma edição de luxo, com capa dura deslumbrante (a cargo de Sarah J. Coleman e Joel Tippie), fitilho para marcar página, projeto gráfico impecável de Antonio Rhoden e belíssimas ilustrações de Allen Williams. É a prova de que ‘O labirinto do fauno’ nasceu para ser uma obra-prima, independentemente do formato.

CRÉDITOS
Foto do filme: Teresa Isasi/Divulgação
Foto do livro:
Intrínseca/Divulgação

'Meu nome é Dolemite'

Esteticamente impecável, filme retrata história de ator que foi ícone do cinema afro-americano dos anos 1970 e ajuda Eddie Murphy a resgatar sua carreira.

Desde 2006, quando interpretou o cantor de soul James “Thunder” Early no drama musical ‘Dreamgirls’, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, Eddie Murphy se prestou a papéis bem aquém do talento que ele já tinha demonstrado. A única exceção ficou por conta da dublagem do burro de Shrek.

A carreira parecia fadada a repetir a fórmula que deu certo em ‘Professor aloprado’: interpretar vários personagens em um mesmo filme. Mas, sem um bom roteiro, testemunhamos a derrocada de Murphy em bombas como ‘Norbit, uma comédia de peso’ e ‘O grande Dave’. Felizmente, veio também do humor a sua tábua de salvação. E ela atende pelo nome de Dolemite.

Na Los Angeles dos anos 1970, o comediante Rudy Ray Moore decidiu apostar todo seu dinheiro e prestígio para fazer um longa-metragem. Ele já era famoso pelas apresentações em boates e pelos discos com músicas cômicas e piadas repletas de vulgaridades e palavrões quando resolveu brilhar também no cinema. É essa empreitada que está recontada no filme ‘Meu nome é Dolemite’.

Com respeito e paixão pelo papel que interpreta, Eddie Murphy entrega ao espectador a melhor performance de sua carreira. Não é um personagem fácil. Ao mesmo tempo em que é um showman extravagante e exibicionista, Dolemite tem também profunda consciência do lugar que ocupa; ele é uma estrela e um exemplo para a comunidade negra dos Estados Unidos. Outro destaque do elenco é Wesley Snipes, que também andava em baixa e agora ganha novamente a chance de brilhar.

Os detalhes técnicos são bastante apurados. A direção de arte é impecável ao recriar a atmosfera dos anos 1970, os figurinos exploram o estilo inconfundível que marcou época e a trilha sonora embala tudo isso com o swing de hits de grandes nomes da música afro-americana, como Marvin Gaye. Somando esses elementos, o diretor Craig Brewer faz de ‘Meu nome é Dolemite’ não apenas um bom filme, mas um comovente tributo ao fenômeno cinematográfico da blaxploitation.

Foto: François Duhamel/Divulgação

'Frozen 2'

Roteiro fraco e recheado de clichês evita que animação crie identidade própria, mas personagens têm apelo suficiente para levar público de volta aos cinemas.

Com orçamento de milhões de dólares, empenho de centenas de profissionais e dispêndio de anos de trabalho, as animações estão entre as produções mais caras da indústria do cinema. Para minimizar riscos e maximizar lucros, os estúdios costumam apostar em remakes, reboots (quando uma saga é reiniciada) e continuações. É o caso de ‘Frozen 2’, sequência do enorme sucesso lançado pela Disney em 2013. Para efeito de comparação, ‘Frozen: uma aventura congelante’ custou US$ 150 milhões e arrecadou mais de US$ 1,2 bilhão no mundo todo. O segundo volume teve o mesmo orçamento e já ultrapassou o anterior em bilheteria, que vai aumentar mais, já que o filme acabou de estrear no Brasil e ainda está em cartaz em muitos países.

Na nova empreitada, Anna, Elsa, Kristoff, o boneco de neve Olaf e a rena Sven precisam desvendar um antigo mistério que envolve o reino de Arendelle e os poderes mágicos de Elsa. ‘Frozen 2’ é visualmente mais interessante e o roteiro tenta ser profundamente mais filosófico (Olaf, por exemplo, passa todo o tempo questionando a própria existência), mas apela para clichês como a importância da convivência pacífica entre os povos e a harmonia entre os elementos da natureza. Não fosse a falta do “coração”, Elsa poderia ser uma espécie de ‘Capitão Planeta’.

A aventura – presente até no título do episódio inaugural – é frouxa e sem clímax. Os conflitos são resolvidos tão rapidamente que mesmo as perdas, essenciais para a jornada do herói (no caso, heroínas), não são devidamente sentidas pelos protagonistas nem pelos espectadores. E há ainda personagens inexplicáveis, como o espírito do vento Gale, o cavalo – feito de água, mas que não é marinho – Nokk e a salamandra Bruni, cuja única função é ser fofa.

Os momentos mais inspirados do texto são de Olaf (brilhantemente dublado por Fábio Porchat, na versão em português), que serve como alívio cômico da trama. Suas questões existenciais, seu saber enciclopédico e suas tiradas conseguem arrancar muitas risadas. E cabe a ele protagonizar a melhor cena da animação: o momento em que resume os acontecimentos do primeiro filme. Na cena pós-crédito, esse truque se repete com a mesma eficiência para condensar a história que acabou de ser exibida.

Impossível falar do universo de Frozen sem lembrar de ‘Let it go’, uma boa canção que cansou pela quantidade de vezes que foi tocada. Menos grudenta e mais soturna, ‘Into the unknown’ até tenta vencer pelo cansaço (sua melodia é executada em diversos momentos), mas passa bem longe de grudar nos ouvidos pelos próximos meses. A versão para o português, ‘Minha intuição’, é ainda mais malsucedida do que ‘Livre estou’ havia sido. Para completar, a trilha sonora traz músicas pouco inspiradas em cenas que parecem clipes bregas de grupos pop adolescentes dos anos 1990.

A pretensão de ser mais denso esbarra tanto na fraqueza da estrutura narrativa quanto na profunda dependência da obra anterior, sobretudo de seus personagens. Por vezes, os diretores Chris Buck e Jennifer Lee até tentam se descolar e buscar uma identidade própria para a continuação, mas o estrondoso sucesso do primeiro volume parece chamá-los de volta à zona de conforto e novas sensações são rapidamente bloqueadas. O maior defeito de ‘Frozen 2’, com o perdão do trocadilho, é ser excessivamente frio.

Imagem: Disney/Divulgação