‘Frances Ha’

Você se lembra de quando era criança e passava horas fantasiando como seria sua vida quando crescesse? Se a resposta for positiva – o que é muito provável, já que a nossa imaginação na infância costuma ser bem fértil e o futuro é um vasto campo a ser explorado (e sonhado) -, você se imaginava exercendo uma profissão de sucesso, morando em uma casa incrível com a família perfeita que formou e cercado de muitos amigos.

Frances (Greta Gerwig) se via como uma grande bailarina, dançando nos palcos mais famosos do mundo. Perto de completar trinta anos, um divisor de águas definitivo para a fase adulta e uma idade na qual muita gente entra em crise, ela percebe que o futuro imaginado está mais distante do que ela gostaria: o término com o namorado, o afastamento da melhor amiga com quem ela dividia um apartamento e a instabilidade da companhia de dança da qual faz parte como bailarina substituta.

Enquanto a vida perfeita que tinha planejado para si parece afundar cada vez mais, Frances tenta manter a cabeça fora d’água e respirar. Passando de uma frustração a outra, a jovem de 27 anos vai aprendendo a lidar com os dissabores e com uma realidade que, por mais que queira, não pode evitar: a juventude, aos poucos, vai se esgotando e ela precisa assumir as responsabilidades da vida adulta.

Não se deixe enganar pela sinopse pessimista e pela fotografia em preto e branco que torna ainda mais melancólico o filme de Noah Baumbach (dos ótimos ‘A lula e a baleia’ e ‘História de um casamento‘) lançado em 2012 e disponível no catálogo da Netflix. O roteiro – escrito pelo próprio Noah em parceria com a protagonista, a atriz e hoje diretora Greta Gerwig – oferece momentos bastante singelos. Calcado em uma personagem muito bem construída, com a qual os espectadores se identificam logo de cara, ‘Frances Ha’ retrata com humor e doçura a vida de uma pessoa que é absolutamente comum, mas, nem por isso, menos interessante.

Foto: divulgação

‘Nem que a vaca tussa’

O início dos anos 2000 foi bem difícil para a Disney, em que o estúdio enfrentou a concorrência pesada da Pixar, que lançou animações como ‘Monstros S.A.’ (2001), ‘Os incríveis’ (2004) e ‘Carros’ (2006), obras com roteiro e estética muito mais interessantes que ‘A nova onda do imperador’ (2000), ‘Atlantis: o reino perdido’ (2001) e ‘Leitão: o filme’ (2003), da Disney. A única exceção é ‘Lilo & Stitch’ (2002). Até que, em 2006, a Disney comprou a Pixar e recuperou a qualidade com ‘Ratatouille’ (2007), ‘Wall-e’ (2008) e ‘Up: altas aventuras’ (2009).

Foi no período de vacas magras (com trocadilho, por favor) que a Disney lançou, em 2004, ‘Nem que a vaca tussa’ (‘Home on the range’, no original). Escrito e dirigido por Will Finn e John Sanford, o filme conta o périplo de três vacas – Maggie, Grace e senhora Caloway – para salvar a fazenda onde vivem de ir a leilão por causa das dívidas acumuladas. Para isso, elas vão precisar capturar um bandido perigoso, Alameda Slim. Ele é capaz de hipnotizar o gado para roubar o rebanho, revendê-lo e, depois, comprar as fazendas cuja falência ele mesmo provocou.

Com orçamento de US$ 110 milhões, a animação fez pouco mais de US$ 145 milhões em bilheteria no mundo todo, cifra que cobre os custos de produção, mas que está bem aquém das expectativas. Não é por acaso. O roteiro é extremamente previsível e nem mesmo a trilha sonora – uma das especialidades da Disney – escapa do óbvio. Os números musicais inseridos na trama são decepcionantes e não há canção capaz de grudar na memória do espectador.

Mas há dois pontos positivos que podem ser destacados no longa-metragem, que dura cerca de uma hora e quinze minutos e está disponível no catálogo da Netflix. No entanto, ambos dizem respeito ao trabalho feito posteriormente no Brasil. O primeiro deles é a tradução dos diálogos, que consegue encaixar com graça expressões populares brasileiras, como “a vaca foi para o brejo”. O segundo é a dublagem, uma especialidade nossa, que reúne nomes de peso, como Fernanda Montenegro, Claudia Rodrigues e Isabela Garcia, que dão vida às protagonistas. Ainda assim, é pouco para salvar o filme.

Imagem: Disney/divulgação

‘Eu, Daniel Blake’

Até que ponto a burocracia é necessária para organizar a sociedade? Quanto um cidadão é capaz de resistir para manter a sua individualidade frente a milhões de habitantes? Em ‘Eu, Daniel Blake’, um carpinteiro (Dave Johns) luta para conseguir sobreviver com dignidade depois de ter sofrido um grave ataque cardíaco. Embora a médica particular diga que ainda não está apto a voltar ao trabalho, a agência de seguridade social afirma que ele não preenche os requisitos necessários para receber o auxílio-doença.

Começa, então, uma verdadeira saga na busca por direitos. Depois de receber uma carta com a negativa, Daniel liga para a agência. Após esperar por quase duas horas na linha (e podendo ser cobrado por isso), é informado de que a tal correspondência não é suficiente: é preciso esperar por um telefonema para dar entrada no recurso. Precisando de dinheiro e sem poder trabalhar, o carpinteiro decide tentar o seguro-desemprego. Mais um périplo se inicia, agora em outro departamento estatal.

Na segunda tentativa, Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira também em busca de ajuda do governo para conseguir criar seus dois filhos, também ela vítima da burocracia. Os três acabaram de se mudar de um albergue para desabrigados em Londres para um alojamento em Newcastle, cidade no nordeste da Inglaterra. Como a nova casa precisa de muitos reparos e a família não tem a quem recorrer, Daniel se oferece para ajudar.

O roteiro de Paul Laverty é de enorme crueza, na melhor acepção do termo. Sem excessos, o drama se desenvolve por completo em uma hora e quarenta de projeção, concentrando-se em mostrar como Daniel e Katie servem de apoio um para o outro enquanto lutam contra um poderoso aparelho estatal que parece sempre orientado a massacrar seus cidadãos, impelindo-os a desistir da busca por um suporte do governo.

A simplicidade do texto se torna mais rica através olhar doce e atento do diretor britânico Ken Loach. Lançado no Brasil em 2017 e disponível no catálogo da Netflix, ‘I, Daniel Blake’ (título original desta coprodução entre Reino Unido, França e Bélgica) avança lentamente e sem sobressaltos, mas cada pequeno gesto ajuda a compreender o que move o protagonista. Na busca por manter a dignidade e na recusa por se tornar um número, Daniel Blake poderia ser qualquer um de nós. Tudo o que ele queria era ser um cidadão. Nem mais, nem menos.

Foto: Joss Barratt/divulgação

‘Com amor, Van Gogh’

Inspirados pelas obras e pela técnica de Vincent Van Gogh, mais de cem artistas trabalharam durante seis anos em uma animação. Lançada em 2017, ‘Com amor, Van Gogh’ narra a jornada de Armand Roulin (Douglas Booth) para cumprir um pedido do pai, o carteiro Joseph Roulin (Chris O’Dowd), que era amigo do pintor: entregar a Theo Van Gogh (Cezary Lukaszewicz) uma das últimas cartas escritas pelo irmão artista. Na empreitada, Armand acaba descobrindo detalhes sobre a vida e a morte de Vincent, cujo talento só foi reconhecido postumamente.

O esmero da produção – coproduzida por Polônia e Reino Unido e dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman – salta aos olhos já nos créditos de abertura. Trata-se do primeiro longa-metragem da história do cinema todo elaborado com pinturas feitas a mão. Para recriar o estilo inconfundível do artista holandês, a equipe de pintores se valeu das obras de Van Gogh para criar os cenários e de ilustrações feitas para reproduzir as cenas filmadas com atores. O resultado, tanto das passagens coloridas quanto dos flashbacks em preto e branco, é simplesmente arrebatador.

Contudo, de nada adiantaria tanta beleza em um conteúdo vazio, que tampouco faria jus ao trabalho de Van Gogh, um artista que começou a pintar tardiamente para os padrões da época (aos 28 anos) e cujo temperamento arredio o levou a ser considerado louco, levando-o a uma morte prematura, por suicídio, aos 37 anos, em 1890. Embora sua carreira não tenha durado nem dez anos, foi bastante produtiva: cerca de 800 obras.

Obviamente, uma biografia tão singular quanto essa já deu origem a inúmeros filmes, como ‘Sede de viver’, dirigida por Vincent Minnelli e protagonizada por Kirk Douglas nos anos 1950, e o recente (e posterior ao desenho) ‘No portal da eternidade’, comandada por Julian Schnabel e estrelada por Willem Dafoe em 2018. Ambos renderam aos atores indicações ao Oscar.

A animação, porém, desloca levemente o protagonismo para Armand Roulin, incumbido de entregar a correspondência à família do pintor. A cada novo encontro com alguém que conviveu com o artista em Auvers-sur-Oise, vilarejo que fica uma hora ao norte de Paris, o jovem vai montando o quebra-cabeça da personalidade de Van Gogh e acaba questionando se ele realmente teria cometido suicídio com um tiro na barriga (uma forma bastante incomum de tirar a própria vida) ou teria sido assassinado.

A suspeição levantada pelo roteiro, escrito pela dupla de diretores em parceria com Jacek Dehnel, ajuda a movimentar a trama, mas o espectador que estiver à espera de uma conclusão vai acabar frustrado ao fim de uma hora e meia de projeção. ‘Loving Vincent’, no título original, é uma animação que está menos preocupada em reescrever a biografia de Vincent Van Gogh e mais interessada em celebrar, com uma estética impecável, a genialidade de um dos maiores e mais conhecidos pintores da história da arte.

Imagem: divulgação

‘O último cine drive-in’

Durante a pandemia do novo coronavírus, um tipo de cinema que muitos acreditavam já extinto voltou ao noticiário, ao imaginário dos espectadores e a muitas cidades. O conceito do drive-in é simples: basta estacionar o carro em uma vaga diante da tela e sintonizar o rádio em determinada frequência (ou, de forma mais moderna, o celular) para ver e ouvir o filme. Em tempos de isolamento, é a única forma possível de ir efetivamente ao cinema.

Diante do estranho momento em que vivemos, lembrei-me de ‘O último cine drive-in’, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta brasileiro Iberê Carvalho, lançado em 2015, e que desde então figurava na minha lista de produções a assistir. Roteirizado pelo próprio Iberê e por Zé Pedro Gollo, o filme acompanha a volta de Marlombrando (Breno Nina) a Brasília, cidade onde cresceu e onde agora a mãe, Fátima (Rita Assemany), está internada com uma grave doença. Sem ter a quem recorrer, ele se vê obrigado a procurar o pai, Almeida (Othon Bastos), dono do último drive-in do país, ameaçado tanto pela falta de público quanto pela especulação imobiliária.

O tributo prestado ao cinema e ao seu poder de encantamento é óbvio, evidenciado pelas muitas referências que a direção de arte põe em cena, como cartazes de clássicos como ‘Cinema paradiso’ e ‘O poderoso chefão’. Mas, para além da homenagem metalinguística, o filme aborda a decadência e a finitude, tanto dos corpos físicos quanto das interações interpessoais e dos espaços. Como na relação entre pai e filho, pouco é dito e quase tudo é subentendido. A economia do roteiro abre espaço para que a compreensão se dê mais pelos silêncios e pelas ações do que pelas palavras.

Não significa dizer, com isso, que seja um filme de difícil leitura. Muito pelo contrário. A narrativa é simples a ponto de se tornar previsível. Desde o início, é possível deduzir onde a trama vai desaguar uma hora e quarenta minutos depois. A falta de surpresa, no entanto, não chega a ser um demérito, porque ‘O último cine drive-in’ parece mais interessado em observar as interações humanas e o modo como os personagens vão se moldando uns aos outros. E, para tal, se vale de um elenco bastante coeso.

Foto: divulgação