O que não se vê no espelho

“Estar no mundo fisicamente exige da gente uma certa segurança, não?”, questiona-se a cartunista Laerte Coutinho já quase no fim do documentário ‘Laerte-se’, produção da Netflix dirigida por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, que conduz também – com extrema sensibilidade – as entrevistas nas quais a artista fala com sinceridade sobre sua identidade de gênero. O processo de mudança veio a público em setembro de 2010, quando Laerte contou à revista Bravo sobre o hábito de se vestir com roupas e acessórios femininos.

Era o estopim de uma transformação que ia muito além do crossdressing. A figura que Laerte via no espelho não condizia com a pessoa que desejava ser. O reflexo mostrava um homem vestido de mulher, e não a mulher que efetivamente gostaria de ser. Depois de décadas aprisionada em uma identidade masculina, a cartunista – com a segurança de uma carreira sólida e com filhos já criados, como ela mesmo conta no filme – decidiu se libertar e se assumir mulher.

Ainda que o corpo seja a parte mais visível, o que determina a identidade de um ser humano não é a biologia. Culturalmente, nos habituamos a definir masculino e feminino pela imagem dos corpos. No entanto, temos aprendido ao longo dos anos que um corpo, mesmo nu, pode dizer muito pouco ou até contradizer o que se vê. Aos poucos e com grandes sobressaltos, a luta para que o gênero deixe de ser um fardo a quem foge a uma norma socialmente imposta ganha musculatura.

É esta batalha que Laerte trava com uma honestidade rara. Após um momento de hesitação, a cartunista aceitou compartilhar sua intimidade com a equipe do documentário e tentar responder a uma questão complexa: o que é, de fato, ser mulher. As inseguranças e dúvidas que deixa transparecer são a prova de que a identidade é uma construção que nunca termina e em nada diminuem a coragem de se expor tão abertamente. Não é por acaso que o filme transformou sujeito em verbo: nossas ações dizem muito do que somos. Ouse ser quem você quiser ser. Laerte-se!

Foto: divulgação

‘O último cine drive-in’

Durante a pandemia do novo coronavírus, um tipo de cinema que muitos acreditavam já extinto voltou ao noticiário, ao imaginário dos espectadores e a muitas cidades. O conceito do drive-in é simples: basta estacionar o carro em uma vaga diante da tela e sintonizar o rádio em determinada frequência (ou, de forma mais moderna, o celular) para ver e ouvir o filme. Em tempos de isolamento, é a única forma possível de ir efetivamente ao cinema.

Diante do estranho momento em que vivemos, lembrei-me de ‘O último cine drive-in’, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta brasileiro Iberê Carvalho, lançado em 2015, e que desde então figurava na minha lista de produções a assistir. Roteirizado pelo próprio Iberê e por Zé Pedro Gollo, o filme acompanha a volta de Marlombrando (Breno Nina) a Brasília, cidade onde cresceu e onde agora a mãe, Fátima (Rita Assemany), está internada com uma grave doença. Sem ter a quem recorrer, ele se vê obrigado a procurar o pai, Almeida (Othon Bastos), dono do último drive-in do país, ameaçado tanto pela falta de público quanto pela especulação imobiliária.

O tributo prestado ao cinema e ao seu poder de encantamento é óbvio, evidenciado pelas muitas referências que a direção de arte põe em cena, como cartazes de clássicos como ‘Cinema paradiso’ e ‘O poderoso chefão’. Mas, para além da homenagem metalinguística, o filme aborda a decadência e a finitude, tanto dos corpos físicos quanto das interações interpessoais e dos espaços. Como na relação entre pai e filho, pouco é dito e quase tudo é subentendido. A economia do roteiro abre espaço para que a compreensão se dê mais pelos silêncios e pelas ações do que pelas palavras.

Não significa dizer, com isso, que seja um filme de difícil leitura. Muito pelo contrário. A narrativa é simples a ponto de se tornar previsível. Desde o início, é possível deduzir onde a trama vai desaguar uma hora e quarenta minutos depois. A falta de surpresa, no entanto, não chega a ser um demérito, porque ‘O último cine drive-in’ parece mais interessado em observar as interações humanas e o modo como os personagens vão se moldando uns aos outros. E, para tal, se vale de um elenco bastante coeso.

Foto: divulgação

‘Minha mãe é uma peça 3’

Poucos atores na atualidade são garantia de sucesso no cinema. Um dos principais nomes a figurar nesta seleta lista é Paulo Gustavo, que chega às telas novamente à frente da personagem que o consagrou: dona Hermínia. Agora, ela terá de lidar com a síndrome do ninho vazio, já que Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier) deixaram a casa da mãe para formar suas próprias famílias. Além de sogra, a moradora mais famosa de Niterói descobre ainda que vai ser avó novamente.

O roteiro de ‘Minha mãe é uma peça 3’ – assinado por Paulo Gustavo, Fil Braz e Susana Garcia, que também dirige a produção – segue o modelo dos dois episódios anteriores: sem um arco dramático bem definido (com princípio, meio e fim), as cenas funcionam como esquetes de programa de humor. Um exemplo é a sequência em Los Angeles, que nada agrega à trama. Por outro lado, ficou de fora qualquer relação com as duas primeiras empreitadas; não se explica o que aconteceu com o programa que dona Hermínia passou a apresentar no segundo filme.

As histórias giram em torno de temas domésticos com os quais todos nós estamos familiarizados em alguma medida e, por isso, o espectador é rapidamente capturado e se identifica com muitas situações retratadas, como as brigas entre as irmãs e a ceia de Natal. Mas o enredo diluído em muitas possibilidades não desenvolvidas (fala-se sobre casamento gay, gravidez acidental e envelhecimento sem grande profundidade em nenhum dos assuntos) privilegia o riso e evita a emoção.

Ainda que tenha bons atores no elenco, como Herson Capri e Alexandra Richter, todos os holofotes se voltam para Paulo Gustavo. Presente em todas as cenas e com domínio absoluto da carismática, verborrágica e desbocada personagem principal, ele dispara com eficiência uma metralhadora de piadas e faz ‘Minha mãe é uma peça 3’ entregar ao público justamente o que promete: boas risadas.

Foto: Marco Antônio Teixeira/Divulgação