‘Frances Ha’

Você se lembra de quando era criança e passava horas fantasiando como seria sua vida quando crescesse? Se a resposta for positiva – o que é muito provável, já que a nossa imaginação na infância costuma ser bem fértil e o futuro é um vasto campo a ser explorado (e sonhado) -, você se imaginava exercendo uma profissão de sucesso, morando em uma casa incrível com a família perfeita que formou e cercado de muitos amigos.

Frances (Greta Gerwig) se via como uma grande bailarina, dançando nos palcos mais famosos do mundo. Perto de completar trinta anos, um divisor de águas definitivo para a fase adulta e uma idade na qual muita gente entra em crise, ela percebe que o futuro imaginado está mais distante do que ela gostaria: o término com o namorado, o afastamento da melhor amiga com quem ela dividia um apartamento e a instabilidade da companhia de dança da qual faz parte como bailarina substituta.

Enquanto a vida perfeita que tinha planejado para si parece afundar cada vez mais, Frances tenta manter a cabeça fora d’água e respirar. Passando de uma frustração a outra, a jovem de 27 anos vai aprendendo a lidar com os dissabores e com uma realidade que, por mais que queira, não pode evitar: a juventude, aos poucos, vai se esgotando e ela precisa assumir as responsabilidades da vida adulta.

Não se deixe enganar pela sinopse pessimista e pela fotografia em preto e branco que torna ainda mais melancólico o filme de Noah Baumbach (dos ótimos ‘A lula e a baleia’ e ‘História de um casamento‘) lançado em 2012 e disponível no catálogo da Netflix. O roteiro – escrito pelo próprio Noah em parceria com a protagonista, a atriz e hoje diretora Greta Gerwig – oferece momentos bastante singelos. Calcado em uma personagem muito bem construída, com a qual os espectadores se identificam logo de cara, ‘Frances Ha’ retrata com humor e doçura a vida de uma pessoa que é absolutamente comum, mas, nem por isso, menos interessante.

Foto: divulgação

‘Wasp network: rede de espiões’

Histórias de espionagem sempre são um prato cheio para o cinema, não importando o gênero. E não é de hoje. Podem ser filmes de ação, como as séries ‘007’ e ‘Missão impossível’. Podem ser dramas, como ‘O bom pastor’ e ‘O espião que sabia demais’. Ou até comédia, como ‘Johnny English’ e ‘Austin Powers’.

Muitas das narrativas são baseadas em histórias reais. É o caso de ‘Wasp network: rede de espiões’, disponível no catálogo da Netflix desde junho deste ano. O longa-metragem de pouco mais de duas horas de duração foi inspirado no livro ‘Os últimos soldados da Guerra Fria’, do jornalista e escritor brasileiro Fernando Morais, e se apresenta como um suspense político.

Escrito e dirigido pelo francês Olivier Assayas (de ‘Carlos, o chacal’ e ‘Personal shopper’), o filme conta a história do piloto de avião René González (Edgar Ramírez), que deixa a mulher (Penélope Cruz) e a filha pequena em Cuba para tentar recomeçar a vida nos Estados Unidos no início dos anos 1990. Lá, acaba entrando para uma rede de espionagem pró-Fidel Castro, cujos agentes se infiltram em grupos que visam atacar a ilha socialista.

Tramas que envolvem espionagem precisam ser muito bem roteirizadas para que se compreenda com clareza a posição dos envolvidos. Infelizmente, não é o que ocorre em aqui. Em muitos momentos, é difícil saber de que lado determinada figura está ou se a atitude por ela tomada naquele momento específico é, na verdade, um blefe. Para tornar tudo ainda mais confuso, há um excesso de personagens que surgem sem qualquer contextualização.

O defeito mais imperdoável, porém, é a falta de clímax. Nenhuma cena do filme é capaz de arrancar do espectador mais do que um bocejo e tampouco as supostas cenas de ação conseguem se livrar da monotonia. Chama a atenção que um produtor com a experiência de Rodrigo Teixeira tenha topado a empreitada e que um roteiro tão frágil tenha reunido um bom elenco, que – além dos já citados Edgar Ramírez e Penélope Cruz – inclui ainda Wagner Moura, Ana de Armas e Gael García Bernal.

Foto: Sophie Köhler/divulgação

‘Destacamento Blood’

Em meio aos protestos pela morte de George Floyd, segurança afro-americano que foi sufocado por um policial branco por supostamente usar uma nota falsa para fazer compras em um mercado de Minneapolis, nos Estados Unidos, uma das mais poderosas vozes na luta pela igualdade racial se levanta novamente. Chegou ao catálogo da Netflix o filme ‘Destacamento Blood’, no qual o cineasta Spike Lee reflete sobre a participação dos negros na guerra do Vietnã, que representavam 32% das tropas americanas, enquanto eram 11% da população.

O título original – ‘Da 5 Bloods’ – faz referência a um grupo de cinco combates que lutaram juntos no país asiático. Décadas mais tarde, quatro deles voltam ao Vietnã para resgatar não apenas o corpo do quinto soldado, morto durante o conflito, e devolvê-lo à família, mas também para recuperar um baú cheio de barras de ouro que eles enterraram na selva. A viagem, claro, vai despertar velhos traumas, pois, como diz o guia vietnamita dos veteranos, uma guerra nunca acaba, seja na mente de quem a viveu ou na realidade.

Como ficção, ‘Destacamento Blood’ é absolutamente envolvente. Assinado por Spike Lee ao lado de Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott, o roteiro cria uma escalada de tensão que nos deixa absolutamente concentrados na ação. Em paralelo, vai acrescentando, de forma bastante orgânica, camadas de drama nas histórias dos protagonistas, de modo a torná-los tridimensionais e a fazer com que suas motivações sejam compreendidas. E o elenco de veteranos – formado por Delroy Lindo, Clark Peters, Norm Lewis e Isiah Whitlock Jr – entrega interpretações magistrais, aproveitando uma infelizmente ainda rara oportunidade dada a atores negros e experientes de serem protagonistas no cinema.

Obviamente, o cineasta ultrapassa a ficção. Enquanto ardia a guerra no Vietnã, a luta dos negros por direitos civis nos Estados Unidos pegava fogo, tendo no assassinato de Martin Luther King Jr, no dia 4 de abril de 1968, um dos seus momentos mais emblemáticos. Ao longo de pouco mais de duas horas e meia, o longa-metragem recupera fragmentos documentais para que a voz de importantes figuras negras, como o próprio Luther King e Muhammad Ali, volte a ser ouvida.

Concebido e rodado bem antes que os manifestantes voltassem às ruas para cobrar os direitos dos negros, o filme reafirma a capacidade de Spike Lee em analisar a sociedade americana e perceber que os Estados Unidos ainda estão longe de atingir o sonho de que falava Martin Luther King Jr. Mais do que um excelente produto de entretenimento, ‘Destacamento Blood’ é o manifesto de um cineasta que ao longo de toda sua carreira nos lembra do que deveria ser óbvio: vidas negras importam.

Foto: divulgação

‘Minha história’

Poucos anos depois de deixar a Casa Branca, a ex-primeira-dama Michelle Obama publicou a autobiografia ‘Minha história’, lançada no Brasil pela editora Objetiva, que rapidamente se tornou um dos livros mais lidos do ano. Como sugere o título em português (‘Becoming’, no original em inglês), as quase quinhentas páginas recontam a trajetória de uma das mulheres mais poderosas da atualidade, da infância na região de South Side, em Chicago, ao posto de primeira-dama dos Estados Unidos.

Diferentemente de muitas mulheres que estiveram no cargo antes dela e que viveram à sombra de um marido presidente, Michelle ousou se posicionar, algo que já fazia desde a campanha presidencial de 2008, da qual participou ativamente. Na Casa Branca, se tornou porta-voz de meninas e mulheres na busca por igualdade de gênero e de raça não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Também militou por um estilo de vida mais saudável e ativo, incentivando a prática esportiva e uma alimentação mais natural entre os jovens.

Ao defender bandeiras nas quais acredita, Michelle honra a história do avô Dandy, um homem inteligentíssimo que poderia ter tido um futuro brilhante como professor ou médico, mas que passou a vida sendo subestimado por causa da classe social e da cor da pele. Como conta Michelle, o avô perdeu muitas oportunidades na vida não por falta de capacidade, mas porque elas nunca lhe eram dadas. Para não ver esta história se repetindo a cada geração, Dandy cobrava dos netos o melhor que eles pudessem dar.

A neta Michelle não desperdiçou as oportunidades que teve. Estudou em Princeton e Harvard, duas das mais prestigiadas e disputadas universidades norte-americanas. Conheceu Barack Obama em um escritório de advocacia, onde foi mentora dele. Deixou a firma em busca de um novo propósito, se casou, teve duas filhas, chegou à Casa Branca. Desde então, sua vida tem sido acompanhada de perto por milhões de pessoas em todo o planeta.

“Um dia, você é uma família normal. Daí vem uma eleição e sua vida muda na hora. Foi como se nos lançassem por um canhão. Não tivemos tempo de nos ajustar. Ser a primeira-dama foi a maior honra da minha vida. Quantas pessoas ocupam esse lugar de ser o centro das atenções? Cada gesto seu, cada piscada de olho, é analisado. O mundo todo vê cada passo que você dá. Sua vida não é mais sua.”

Michelle Obama, in 'Minha história'

Boa parte dela está contada na autobiografia, em um relato bastante pessoal e inspirador, que também está disponível na versão de audiolivro. Ciente do interesse que desperta tudo o que diz ou faz, Michelle decidiu fazer uma turnê de lançamento do livro, que percorreu 34 cidades dos Estados Unidos. Os bastidores dessa longa jornada foram acompanhados de perto pela lente da câmera de Nadia Hallgren. O material deu origem ao documentário ‘Minha história’, produzido pela Netflix e lançado em maio.

Ao longo de uma hora e meia, o filme confirma o poder que a ex-primeira-dama tem de captar a atenção e cativar o público. Para quem leu a biografia, o documentário oferece pouquíssimas novidades, a não ser o fato de ver a autora recontando passagens de sua própria história e de um relato ou outro de personagens que fizeram e fazem parte da vida dela. O maior atrativo de ‘Minha história’ é mesmo sua protagonista, termo que cai aqui como uma luva: ocupando um posto tradicionalmente secundário, Michelle Obama escolheu as bandeiras pelas quais lutar e construiu, ela mesmo, a imagem que queria para si e o legado que deixará ao mundo.

Fotos: Netflix/divulgação

‘Jojo Rabbit’

Fazer cinema, não importando o país, é sempre um risco. São muitas as variáveis que precisam ser pensadas ao tirar um projeto do papel e os custos são altos. Depois, com o filme pronto, há ainda um último desafio: a bilheteria. Ter bastante público e arrecadar boas cifras não são sinônimo de qualidade cinematográfica, no entanto, são parâmetros econômicos importantíssimos para viabilizar futuros trabalhos.

Os bons resultados de ‘Thor: Ragnarok’, de 2017, cacifaram o diretor neozelandês Taika Waititi a lançar ‘Jojo Rabbit’, uma comédia satírica de premissa ousada: um solitário menino alemão tem Adolf Hitler como amigo imaginário e se esforça para ser um nazista exemplar, mas se vê obrigado a rever seus conceitos ao descobrir que a mãe esconde uma jovem judia no sótão de casa.

Escrito por Taika, a partir da obra de Christine Leunens, o roteiro (premiado com o Oscar de melhor roteiro adaptado) é brilhante ao provar que é perfeitamente possível tratar com humor temas tão sombrios como o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. O exagero e o tom histriônico com que Hitler (interpretado pelo próprio diretor) é representado servem para ressaltar os absurdos da ideologia que tomou o poder na Alemanha durante o período.

Confiando de forma absoluta na proposta, o restante do elenco embarca no tom farsesco da trama sem medo. Há boas cenas com Sam Rockwell e Rebel Wilson, que interpretam líderes do acampamento de formação de pequenos nazistas. Outro ponto de alívio cômico é Archie Yates, que dá vida ao desastrado amigo Yorki. As atuações – digamos – mais sérias ficam por conta de Thomasin McKenzie e Scarlett Johansson, que vivem a menina judia e a mãe do protagonista, respectivamente. Mas é Roman Griffin Davis quem rouba a cena. Esperto e carismático, ele se sai muito bem tanto na comédia quanto nos momentos mais dramáticos.

O grande mérito de Taika é transformar a ousadia em um filme que consegue divertir e fazer pensar. O cineasta minimizou ao máximo os riscos de transformar o que foi concebido para ser uma sátira aos abomináveis ideais nazistas em apologia. Nos tempos atuais, em que pensamentos autoritários e nacionalistas voltaram a ecoar em diversas partes do mundo, ‘Jojo Rabbit’ poderia ser mais incisivo em condenar os horrores do Holocausto, mas sua realização já é um feito a ser celebrado.

Foto: Petr Stuna/divulgação