Um exercício de cidadania

Seguir as recomendações das autoridades de saúde para conter o avanço do novo coronavírus é mais do que prevenção, é um teste de humanidade e empatia.

Lavar as mãos, evitar tocar o rosto, usar a dobra do cotovelo para cobrir tosse ou espirro, evitar aglomerações, não compartilhar objetos pessoais… As orientações para conter o avanço do novo coronavírus são simples e são compartilhadas em muito lugares, de autoridades de saúde a veículo de comunicação, de informes empresariais a grupos de WhatsApp.

É quase impossível acreditar que há quem não saiba como se proteger. Ainda assim, é enorme o número de pessoas que negligenciam as orientações. Não falo daqueles que por ventura as esquecem e cobrem a tosse com a mão ou que coçam os olhos. A chamada etiqueta respiratória é um hábito que poucos de nós tínhamos e que vamos nos acostumar a usar com o tempo. Falo daqueles cuja negligência é deliberada, como, por exemplo, os que lotaram as praias no último fim de semana.

Como a doença provocada pela contaminação pelo novo coronavírus é semelhante a uma gripe, muita gente se acha no direito de ignorar as recomendações. Afinal, convivemos há muitos anos com gripes e as consequências mais graves da nova doença, que pode levar à morte, atingem um contingente reduzido de pacientes, sobretudo idosos, quem tem problemas respiratórios ou baixa imunidade.

Por mais que muitas pessoas infectadas não apresentem sintomas ou desenvolvam uma forma branda da doença, é preciso pensar fundamentalmente nos grupos de risco. Indivíduos jovens e saudáveis, menos propensos a complicações, precisam ter – mais do que nunca – empatia. Devemos nos proteger não apenas por nós, mas por todos aqueles que podem ser mais duramente atingidos. O novo coronavírus é um desafio para autoridades de saúde do mundo. Para nós, é um exercício de solidariedade.

Foto: CDC/divulgação

‘Marrom e amarelo’

Com a política de cotas como pano de fundo, romance de Paulo Scott evidencia a persistência do racismo no Brasil e a potência da nossa literatura contemporânea.

Um dos temas mais polêmicos quando se fala em educação é a política de cotas raciais, que instituiu uma reserva de vagas a estudantes negros, e majoritariamente pobres, em instituições públicas de ensino superior. Trata-se de uma reparação histórica a direitos que foram negados ao grupo étnico que representa a maioria da população brasileira, tão bem-vinda e necessária, mas insuficiente diante da realidade do país. Entretanto, em vez de discussões sobre como reparar e garantir mais direitos, ainda é preciso ratificar sua validade enquanto política pública.

Este é o pano de fundo de ‘Marrom e amarelo’, livro que o professor universitário e escritor gaúcho Paulo Scott publicou em 2019 pela Alfaguara. Irmão mais velho e de pele mais clara de uma família mestiça, Federico cresceu em um violento subúrbio de Porto Alegre tendo de lidar com a discriminação. Aos 49 anos, já morando em Brasília e sendo um respeitado ativista racial, foi convidado a integrar uma comissão instituída pelo novo governo para rediscutir os critérios pelos quais um estudante teria direito à cota nas universidades.

“Lourenço me disse que eu estava mandando muito bem no drama queen, que a estatueta chegaria pelo correio em quinze dias e riu, depois disse que era inevitável, que um dia a consciência de tudo ia chegar, disse que eu não devia pensar demais, que a idade já devia ter me ensinado que algumas vezes o melhor era não pensar demais. Eu disse que o meu radar já não captava certas coisas, certos comportamentos, certos conflitos, disse que estava perdendo o jeito. Ele riu, disse que perder algumas ilusões sobre nós mesmos fazia parte do andar da carroça, que eu devia aceitar o andar da carroça. Eu disse que quando crescesse ia querer ser que nem ele, ia aprender a copiar aquela porcaria de serenidade infalível dele. Ele riu e disse que pra algo daquele tipo acontecer eu ia ter de nascer de novo.”

Paulo Scott, in 'Marrom e amarelo'

As discussões do grupo de trabalho e um problema de família envolvendo a sobrinha, que dava seus primeiros passos na militância por direitos humanos, fazem com que o protagonista reveja a própria carreira e confronte fases anteriores de sua vida. As temporalidades abarcadas na trama, que vai de 1973 a 2016, mostram que houve pouco avanço: o Brasil continua sendo um país racista e a igualdade, uma promessa. Ainda há um longo caminho de luta a ser percorrido.

Se, por um lado, o romance revela nosso atraso como nação, por outro, reforça a potência da literatura brasileira contemporânea. A paralisia política e as tensões raciais brotam nas quase 160 páginas de forma crua e objetiva. Os trechos de diálogos mais longos exigem certa atenção do leitor, mas a narração em primeira pessoa e a linguagem cotidiana acentuam o absurdo tratamento dado aos negros deste país e evidenciam a urgência de uma mudança na sociedade.

Foto: ‘Sem título’ (2015), guache de Sidney Amaral
Capa do livro: Alceu Chierosin Nunes