A morte na fazenda

Naquele dia, vencia o prazo de João. A morte pediu ao vento que fosse adiantando o trabalho, que a listagem parecia não ter fim. E lá foi o vento até a fazenda, sussurrando baixinho o chamado: “João, vem, João”, diziam avós, pais, tios e até Rosinha, a namorada da infância que sucumbiu ainda moça a uma doença misteriosa sem cura.

Deitado para a sesta, João ouviu as vozes vindo ao longe. Medroso, abriu só um dos olhos para espiar se alguém invadia o quarto. Percorreu o cômodo todo. A porta estava fechada e a janela entreaberta, mas não havia ninguém. Sentiu uma dorzinha no peito e um zumbido no ouvido. E as vozes foram ficando mais fortes: “João, vem, João”. Era assim que se morria, então? Não sabia, era a primeira vez que morreria e nunca ninguém voltou para contar. Pelo sim, pelo não, tratou de fechar o único olho aberto, fez um sinal da cruz e se pôs a rezar, pedindo a Deus para ver os filhos crescidos e o rosto dos netos.

O vento fazia cada vez mais barulho, soprando forte a cabeleira das árvores lá fora e derrubando uns frutos que ainda nem estavam maduros. Os animais correram para a toca e os passarinhos desistiram de voar. Até o sol se escondeu entre as nuvens. E a tarde foi ficando cinzenta. “Tira a roupa do varal que vai chover, Maria”, a vizinha gritou. Mas nem carecia disso, porque as gotas iam desabar só como lágrimas.

Toda a paisagem espreitava; e João seguia rezando todas as rezas conhecidas e pedindo a todos os santos que intercedessem por ele. Mas, no fundo, sabia que não teria muito jeito, que a morte não é de adiar compromisso. Se ela vem buscar, o sujeito não tem escolha a não ser acompanhar. Não tem apelo ou negociação que a demova. Só mesmo um milagre, que era justamente o que João tentava com Deus. Que a morte errasse de casa. Ou levasse só a doença. Ou, quem sabe?, morresse no caminho. Será que também a morte morreria um dia? Oxalá, meu Pai, fosse aquele, pediu João, fazendo o sinal de cruz.

Nada parecia adiantar. O vento, que até então soprava, perdeu a paciência e começou a bufar. “João, vem logo, João”, diziam as vozes ao homem teimoso, que rezava cada vez mais rápido e devotava ainda mais fé a Santo Expedito. As telhas da casa se agitavam, as janelas trepidavam e a cortina esvoaçava. Lá vinha o vento em fúria para cumprir os desígnios da morte, que não aceitava atrasos nem se rendia a caprichos.

Feito um furacão, o vento invadiu a cozinha, chacoalhando tudo o que via pela frente. Passou pela sala, derrubando os vasos de planta mais frágeis e espalhando a terra pelo chão. Atravessou o corredor e, ignorando a entrada do banheiro, foi encontrar João deitado no meio da cama, virado de lado, com as pernas meio dobradas e as mãos unidas pelas palmas. Os olhos continuavam fechados, mas os lábios se agitavam em oração. A cena daria até dó, se a morte tivesse sentimentos.

“João, vem, João”, ele ouvia chamarem. Não queria ir, mas se sentia tão fraco e impotente que chorou, mesmo de olhos fechados. Triste figura, admitiu a morte, que já desmontava do vento. Ela se aproximou sem pressa, passou as mãos pelos ralos cabelos do homem e lhe enxugou as lágrimas. Devagar, curvou-se até ficar cara a cara com João, que ainda rezava. Com o indicador da mão direita, tocou-lhe os lábios para que silenciasse. João interrompeu a prece e suspirou.

A morte lhe beijou com calma. Lentamente, foi sugando todo o ar daquele corpo, que aos poucos foi desbotando, a pele perdendo o viço. Sugou até a última lufada, deixando os pulmões murchos como duas frutas secas. Com cuidado, a morte embrulhou a alma de João na mortalha e guardou na bolsa. Nada se ouvia. Nem o chamado. Nem as roupas balançando no varal. Nem os bichos da fazenda. Nem um pio dos passarinhos. Tudo cinza e quieto lá fora.

Depois de terminado o trabalho, a morte se levantou e se espreguiçou longamente. Olhou João uma última vez. Morto, certificou-se. Respirou fundo, montou novamente no vento e saiu. Ainda tinha muito trabalho a fazer naquele dia.

Imagem: ‘Extensive landscape with grey clouds’ (c. 1821), de John Constable (1776-1837)

Diário da quarentena: Loco Abreu

Ouvi passos no corredor e a chave girando na fechadura. Depois de nem sei quantos dias, João finalmente voltava para casa. Pulei da cama e, antes mesmo que ele girasse a maçaneta, já estava sobre o braço do sofá. Um cheiro diferente invadiu a sala. Devagarinho, um jovem colocou a cabeça pelo vão criado entre a porta e o batente. Quando me viu, arregalou os olhos em pânico. Aquele não era o João que morava comigo. Era o outro João, o parvo.

Desci do sofá e fui à porta. O cheiro de medo foi ficando mais forte. Quando finalmente entrou, vi que estava sozinho. Apesar da máscara que cobria metade do rosto, a expressão de pavor era visível. Pensei em fazer troça da situação, mas o cheiro já me causava náusea e preferi voltar para o quarto.

Não demorou para que viesse atrás. Continuei deitado, acompanhando seus passos com os olhos. Sua voz abafada me pediu calma, ainda que fosse ele quem estivesse nervoso. Embora o sol iluminasse o cômodo, acendeu a luz. E, praticamente se arrastando pela parede, caminhou até o armário. Abriu as portas uma a uma, sem tirar os olhos de mim. Quando encontrou o que procurava, deu um leve sorriso que me desconcertou.

O parvo tinha achado a maldita caixa. O próximo passo, claro, era me querer lá dentro. É sempre assim: eu entro, fecham a portinhola e me levam para o veterinário, um sujeito estranho de jaleco branco com instrumentos de tortura em mãos, que me apalpa o corpo todo, me espeta o cangote e me toma a temperatura enquanto diz frases imbecis com as palavras no diminutivo.

Hoje, decidi que não iria. Não fazia tanto tempo assim desde a última vez. E, se João – o meu, não o parvo – quisesse que eu fosse ao veterinário, que tivesse a hombridade de me buscar pessoalmente. Que afronta mandar um emissário e, ainda por cima, um tão incompetente!

Colocou a caixa sobre a cama e, vendo que eu não entraria de bom grado, saiu. Pensei que tivesse ido embora, mas ouvi que fuçava alguma coisa na cozinha. O velho truque do sachê. Esses humanos são tão previsíveis, sempre apelando para comida. Voltou como se tivesse um troféu em mãos. Abriu a embalagem e colocou na caixa. Depois, deu dois tapinhas para indicar onde havia posto. É uma pena que ele não tivesse noção do ridículo. O idiota realmente acha que não vi? Ignorei. Nenhum sachê vale a visita ao veterinário.

Sem saber bem como agir, ele foi empurrando a caixa em minha direção, o que me obrigou a levantar. Contrariado, me espreguicei para alongar a musculatura e pulei para a cômoda; depois, para o alto do armário, onde não me alcançaria.

Desanimado, o parvo saiu outra vez do quarto. Achei que tinha finalmente desistido, mas voltou com uma vassoura. Senti meu corpo tremer. Entrávamos em um terreno perigoso. Segurando o cabo com as duas mãos, ele se aproximou do armário. Tentei recuar, mas uma mala bloqueava meu caminho.

Fui obrigado a me render. Pulei de volta para a cômoda com a vassoura ainda apontada para mim. Quando passei para a cama, ele deu mais duas batidinhas na caixa. Não havia como escapar. Uma vassourada seria pior que que as apalpadelas do veterinário ou o termômetro. Ao menos, tinha um sachê.

Enquanto comia, notei que fechava as janelas e as cortinas. Ele pegou a caixa pela alça, apagou a luz e saiu do quarto. Repetiu o mesmo ritual na sala e, quando seguimos em direção à porta, pude ver de relance uma foto minha com o João, o que morava comigo. Miei de saudade. E também para protestar contra a minha retirada de casa. Tudo em vão. Nunca mais voltei, nem vi o meu João. Só o parvo.

Imagem: ‘Black cat oil painting’ (2018), de Viktoriia Raznatovska

Diário da quarentena: João

Da última vez, vô, você estava bem. Um pouco rouco e ofegante, é verdade, mas bem. Estaria melhor, não fosse o empate do Botafogo com o Bangu. A gente tinha acabado de chegar do Engenhão, onde perdera boa parte da voz gritando com os jogadores. Todo ano, você dizia que não iria torcer mais, que tudo o que aquele time sem vergonha poderia fazer era lutar para não ser rebaixado e que em nada honrava a camisa que um dia foi defendida por Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Didi, Amarildo e tantos outros ídolos que você ia enumerando. Tempos em que a gente tinha orgulho de ser botafoguense, dizia com saudade.

Saudade. Um vazio tão imenso que, reza a lenda, só a língua portuguesa teve coragem de transformar em palavra. A única, agora, capaz de explicar a falta que você me faz.

Ah, seu João Carlos, que peça o destino pregou na gente, levando-o tão de repente e sem despedida. Espero que você tenha partido com orgulho de mim. Nem que seja só um pouquinho do imenso orgulho que eu sinto em ser seu neto, de ser João que nem você, de torcer pelo seu time (e o meu pai flamenguista sempre disse que nunca vai lhe perdoar por isso) e de ter aprendido a ouvir de Beth Carvalho não só porque ela tinha uma bela voz, mas porque também era botafoguense roxa.

Queria ter podido me despedir, vô Joca. Dizer que ia ficar tudo bem e que não se preocupasse com o Loco Abreu, que eu colocaria ração e cuidaria dele até que você voltasse para casa, mesmo achando que aquele gato me odeia e que iria me atacar. Mas a gente vive tempos tão estranhos que até afeto virou ameaça de morte, e eu não pude visitar você no hospital. Vai ver este mundo está mesmo perdido, como você sempre dizia, mas um dia a gente se encontra.

Obrigado, vô, por tudo o que me ensinou, pelas férias que eu passei na sua casa, pelas partidas de botão que me deixava ganhar (afinal, eu sempre escolhia o Botafogo e você não aceitava que o time perdesse nem mesmo no botão), pelas tardes no Engenhão. Vai ser tão difícil voltar lá sem você, sabia? Obrigado, vô, pela paciência e pelo carinho em todos esses anos. Eu não pude dizer quando você mais precisa ouvir, mas acho que o senhor sempre soube, vô Joca: eu amo você!

Foto: Botafogo/divulgação

Diário da quarentena: Guto

Abri os olhos assustado. Coração batendo acelerado. Respiração ofegante. Como se eu tivesse tido um pesadelo. A noite ia pelo meio. Uma luz débil vinha de fora. Na penumbra que tomava conta do quarto, conseguia ver apenas a forma do corpo de Elisa, que dormia um sono tranquilo embrulhada no lençol. O tique-taque distante do relógio quebrava o silêncio. Tudo parecia tranquilo, menos eu.

Ainda de olhos abertos, buscava respirar profundamente. Puxava o ar pelo nariz bem devagar e soltava aos poucos pela boca. Tentava não pensar em nada, me concentrando apenas na respiração. Em vão. Os pensamentos me atingiam como grossos pingos de chuva caindo ao chão. E quanto mais eu me esforçava para me livrar deles, maior era o temporal. Por mais que precisasse descansar para mais um dia de intenso trabalho, decidi não resistir e deixar chover até a última nuvem cinza no céu.

Como gotas de chuva, as lágrimas foram empapando a camisa do pijama e alagando o travesseiro. Fazia tempo que não chorava assim, de embotar os olhos. E eu, que nunca fui religioso, rezava para que o choro não acordasse Elisa. Não queria acrescentar mais nenhuma dose de preocupação às muitas que ela já tinha: os pais idosos e cardiopatas morando em outra cidade, o irmão empresário sem saber como vai sobreviver ao fim da quarentena e o marido médico trabalhando quase sem parar. Já me pesava suficientemente na consciência que minha saúde física pudesse lhe tirar o sono para que se somasse à lista minha saúde mental.

Para ser honesto, nem eu mesmo sei a quantas anda minha sanidade em tempos de rotina tão insana e intensa, com hora para chegar ao hospital, mas não para sair, com a indignação constante pela falta de equipamentos básicos, com a falta de tempo para dar o mínimo de atenção os pacientes, com o temor não só de contrair a doença, mas de espalhá-la – sem querer e sem saber – para outras pessoas, principalmente para quem a gente ama.

Como médico, meu maior medo se materializou. Há semanas, temos perdido pacientes vítimas do novo coronavírus, embora tenhamos feito tudo o que estava ao nosso alcance para salvá-los, ainda que em condições bem adversas. Ontem, tivemos que escolher quem salvar. Pouco importam os critérios técnicos. De nada adiantam os protocolos. Por mais racional que tenha sido a escolha, no final, fomos nós que decidimos qual paciente continuaria lutando pela própria vida, abandonando o outro à própria sorte. Até o último suspiro, se nos serve de consolo, lutamos por uma vaga, por um respirador, pela recuperação do seu João.

Sei que fizemos o que pudemos, o que estava ao nosso alcance. Desde ontem, porém, não consigo parar de pensar naquele senhor que tivemos de abandonar: quem ele era, do que gostava, se tinha filhos e netos, o que viveu, que planos fazia para o futuro, que sonhos realizou e quais ainda estavam na fila. Desde ontem, repito em vão para mim mesmo que seguimos o protocolo. Não há critério técnico capaz de aplacar a culpa que sinto agora. Há quinze anos, escolhi ser médico para salvar vidas. E jurei que faria tudo o que estivesse ao meu alcance. Ontem, não deu. Peço perdão ao seu João por tê-lo deixado partir. E à família do seu João, que hoje chora sua morte. E que um dia também eu possa me perdoar.

Foto: ‘The blue way IV’, de Rumen Spasov

Diário da quarentena: Elisa

Faz pouco mais de seis meses que prometi ser fiel, amar e respeitar Guto, tendo quase duzentos convidados como testemunha, além do padre e, principalmente, de Deus. Foi uma cerimônia linda, do jeito que havíamos planejado por quase um ano. Mais eu do que ele, na verdade. Nada religioso, Guto decidiu que não decidiria nada, seria apenas um consultor, como ele mesmo disse, caso eu precisasse. Casar na igreja, de branco, véu e grinalda, era um sonho de infância, um desses clichês que nos põem na cabeça desde a mais tenra infância e contra o qual eu nunca lutei. Não há no mundo mulher mais linda do que a noiva.

Modéstia à parte, eu estava mesmo linda. Não, mais que isso, eu estava deslumbrante. Valeram a pena a dieta (e só Deus sabe o quanto foi difícil recusar chocolate, principalmente na TPM), a peregrinação até encontrar o vestido e o sapato perfeitos, as intermináveis horas na academia para ter o corpo que eu queria e os incontáveis testes de cabelo e maquiagem. Às sete da noite daquele cinco de outubro, de braço dado com meu pai, aos primeiros acordes da marcha nupcial, entrei confiante na igreja. Eu, que sempre fui tímida e fazia questão de passar despercebida na multidão, sorri para os convidados, para o padre, para Guto e para os fotógrafos como quem diz “Podem me olhar, eu sei que estou maravilhosa”. Foi uma cerimônia inesquecível.

Da casa de Deus, fomos para a casa de festas, receber e recompensar os convidados por aturar a cerimônia religiosa, as roupas desconfortavelmente elegantes e os gastos com os presentes. Tio Vlad, por exemplo, bebeu em uísque tudo o que desembolsou com a geladeira, apesar dos muitos cutucões da tia Sônia e dos olhares escandalizados de minha avó. Meu irmão caçula, menor de idade, vigiado de perto pela madrinha, espantou o tédio com quilos de salgadinhos que lhe engorduraram os dedos e, por tabela, a tela do celular. Duda, a dama de honra, e Arthur, o pajem, dominaram a pista de dança nas primeiras duas horas de festa. Depois disso, tudo o que lembro são flashes de alguns momentos, das coreografias de músicas da adolescência com as amigas de escola, de fotos para redes sociais com colegas do escritório, dos desafios etílicos da turma da faculdade, de carinhosos tapinhas no rosto acompanhados de “você agora já é uma mulher” das tias e avós e de anjos que me deram algo para comer entre as muitas fotos para o álbum de casamento.

Aliás, o álbum foi mais um desejo meu ao qual Guto resolveu atender, embora achasse que tudo caberia em um pen drive e sairia bem mais em conta, sobrando uma verba extra para a lua de mel. Mas fiz questão. E não me arrependo. Foi graças ao álbum que revivi tudo isso agora. Enquanto Guto ampliou a rotina de trabalho no hospital e eu cumpro a quarentena em casa, decidi finalmente arrumar meu lado do armário. Soterrada sob vestidos, saias e calças que peguei para experimentar um dia e acabei não usando, nem guardando até hoje, lá estava a caixa com o álbum.

Ainda bem que não era um pen drive. Só de ver a capa branca com nossos nomes completos escritos em um alto-relevo dourado já senti os olhos cheios d’água. Esses dias isolada do mundo, tendo contato físico apenas com meu marido, e em doses homeopáticas, têm me deixado emotiva. Folheei as páginas devagar, tentando sentir a presença e o calor de todas aquelas pessoas. Algumas fotos, acho, eu via pela primeira vez. Outras, nem me lembrava de ter tirado. Rever o álbum e reviver o casamento fez nascer em mim a vontade de outra festa, que já comecei a organizar mentalmente nos mínimos detalhes, da lista de convidados ao cardápio. E Guto que nem pense em economizar. Quero tudo de novo. E quero estar linda, ou melhor, deslumbrante outra vez. A faxina do armário que fique para depois.

Tela: Susan Moss Cooper