Um desabafo

Ontem, fez um lindo dia no Rio. Apesar de o inverno bater à porta, fazia sol e calor, o céu completamente azul e sem nuvens. Um convite para ir à praia. E muita gente foi, ignorando solenemente a proibição das autoridades políticas e de saúde, que ainda recomendam restringir a circulação por causa da pandemia do novo coronavírus. Nem os especialistas sabem se já chegamos ao pico da doença, porque temos um baixíssimo número de testes, mas a quase unanimidade deles afirma que – por enquanto – não é hora de flexibilizar as medidas de distanciamento social. No entanto, muitas cidades vêm relaxando as regras. É o caso do Rio, que liberou, por exemplo, a frequentação de shoppings.

Mas este não é um texto sobre a flexibilização da quarentena. É um desabafo. Eu também quis ir à praia ontem, aproveitar o tempo bom e o dia agradável, o calor que não era tão escaldante. Mas eu fiquei em casa. Pela minha saúde, pela saúde das pessoas que eu amo e pela saúde de pessoas que eu nem conheço, que podem até ter ido à praia ontem. Ao longo de todo esse período de quarentena, tenho ficado em casa o máximo que posso. Saio apenas para trabalhar (o jornalismo é atividade essencial), para ir ao mercado ou à farmácia, sempre seguindo as recomendações de higiene (máscara e álcool em gel), evitando aglomerações e apenas pelo tempo necessário. Tenho feito banho de sol na janela e exercícios físicos em casa, apesar de não estar proibido caminhar na rua, porque sei que reduzir a quantidade de pessoas circulando é fundamental para o tal achatamento da curva.

Quem estava ontem na praia também sabe disso, não é possível que não, depois de tantos meses e tantas notícias sobre o que é preciso fazer neste momento. Quem foi à praia ontem deliberadamente se achou no direito de infringir a lei e ignorar a gravidade da doença, acreditou ser mais esperto que todos aqueles que, como eu, ficaram em casa cumprindo o isolamento. Confesso que, quando vi as imagens das areias cheias, fiquei irritado por aquela gente estar me fazendo de bobo, aproveitando o dia lindo lá fora e eu estar aqui, me contentando em ver o sol e o céu azul pela janela.

Refletindo melhor sobre o certo a se fazer neste momento, a raiva passou, ainda que a decepção e a tristeza pela falta de empatia permaneçam. Podem me chamar de trouxa, de babaca e até de otário. Só não podem me acusar de ser também responsável pelo número de mortes que não para de subir. Tenho a consciência tranquila para deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir em paz, sabendo que eu fiz a minha parte, eu fiquei em casa. E continuarei fazendo. Por mim. Pelos meus. E também pelos outros.

Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

Quando tudo isso acabar

Quando tudo isso acabar, eu quero sair à rua e ver se ainda me lembro de como se circula pela cidade. Quero correr pelo calçadão, sentindo o vento no rosto, até chegar ao Aterro, onde as árvores filtram a luz do sol e deixam o inverno ainda mais gelado. Quero desligar a música no celular para ouvir o canto dos passarinhos, alheios a buzinas e motores lá no asfalto. Uma água de coco, por favor. Depois, voltarei caminhando para recuperar o fôlego, até perdê-lo de novo quando o Pão-de-Açúcar e o Cristo ressurgirem no horizonte.

Quando tudo isso acabar, eu quero rever meus pais. E avós, tios, primos… Juntar a família toda num preguiçoso almoço de domingo, em que cada um leva o que quiser e a tia Lúcia leva o pavê de pêssego. Tem dia das mães e aniversários para colocar em dia; tantas conversas, risos, piadas e fofocas daquela parte da família que ninguém convida e que só convive em situações extraordinárias, porque parente não se escolhe. Quando cada um for caindo para um lado, vou passar um cafezinho, alguém quer? Ânimos revigorados e papo reanimado. E vai todo mundo ficando para o lanche até que, meu Deus, começou o Fantástico e amanhã é dia de trabalhar.

Quando tudo isso acabar, eu quero dar uma festa. Sem nenhum motivo aparente, apenas para celebrar os encontros e o milagre de estarmos vivos. Vou chamar todo mundo e apresentar quem não se conhece, um beijinho, ou dois, ou três, muito prazer. Vai ter aquele burburinho que nos obriga a falar mais alto para ser ouvido e a rir em silêncio, porque gargalhada se entende até muda. E, sem se importar com qual música toca, todo mundo vai dançar como se não houvesse amanhã, porque – aprendemos agora – talvez não haja mesmo.

Quando tudo isso acabar, eu quero ir ao cinema. Assistir a uma comédia daquelas bem bobas, que nos deixam cansados de tanto rir. Espero que a sessão esteja lotada, porque as cenas são bem mais engraçadas quando rimos junto com os outros. Que os trailers sejam um prenúncio de boas estreias futuras e de que a vida estará mesmo voltando à normalidade. Pouco vai me importar que as pessoas comam pipoca fazendo bastante barulho, porque o croc croc nem atrapalha. Mas que ninguém leve hambúrguer com milkshake, porque já é avacalhação. E desliga o celular aí, que a luz está atrapalhando. Tomara que os créditos tragam os erros de gravação, para ajudar a passar o tempo enquanto o público se dispersa e para o Victor esquecer de perguntar se eu vou ficar para limpar a sala.

Quando tudo isso acabar, eu quero voltar aos meus restaurantes preferidos. E já peço que os acompanhantes tenham paciência comigo, porque vou demorar ainda mais para escolher um prato do cardápio. Por favor, não briguem se eu optar pelo de sempre. É que tantas opções parecem boas. E não vira agora, seja discreto, mas olha que lindo o peixe que o senhor da mesa aqui à direita pediu. Vou fazer o garçom repassar toda sua lista de sucos, mesmo sabendo que não tem uva ou caju, os únicos que eu bebo. Mas vai que mudou nos últimos tempos. Sobremesa? Com certeza, mas para dividir, e que não seja sorvete nem nada muito doce.

Quando tudo isso acabar, eu quero ir ao shopping. Nem vou comprar nada, só dando uma olhadinha mesmo, qualquer coisa eu chamo, obrigado. Ver as vitrines, saber que o que nunca se pensou em ter está na promoção e ficar tentado a levar. E desde quando você vai usar isso? Sei lá, vai que um dia preciso. Tá bom, melhor não. Ficar horas olhando lojas de decoração para passar o tempo. E entrar em todas as lojas de departamento, já de olho em algum presente para um aniversário que vem chegando. Ou Natal. Ou achei isso a sua cara, espero que goste.

Quando tudo isso acabar, eu quero entrar de novo naquela livraria imensa aqui da esquina e me perder nos labirintos de prateleiras. Passar o tempo descobrindo novidades. Puxa, essa edição é muito mais bonita do que a que eu tenho em casa. Vou procurar aquele livro que a Carol me recomendou, porque da última vez ela acertou na indicação. Olharei também as estantes dos importados, porque sempre é bom treinar uma língua estrangeira na companhia de boa literatura. Que eu consiga sair com poucas compras. Se não, tudo bem também, livro não é gasto, é investimento.

Quando tudo isso acabar, vai ser como era antes? Será que vamos continuar a fazer as mesmas coisas do mesmo jeito? Ou vai mudar tudo e teremos que reaprender a ser e estar no mundo? Por enquanto, são perguntas sem respostas. Enquanto a pandemia não passa, vou organizando a lista de desejos. Incluindo novas atividades, definindo prioridades. Se vou cumprir, não sei. Continua tudo meio indefinido, incerto. Mas já tem um monte de coisas que eu quero fazer quando tudo isso acabar.

Imagem: ‘Paint the future’, de Andrew Judd

A morte na fazenda

Naquele dia, vencia o prazo de João. A morte pediu ao vento que fosse adiantando o trabalho, que a listagem parecia não ter fim. E lá foi o vento até a fazenda, sussurrando baixinho o chamado: “João, vem, João”, diziam avós, pais, tios e até Rosinha, a namorada da infância que sucumbiu ainda moça a uma doença misteriosa sem cura.

Deitado para a sesta, João ouviu as vozes vindo ao longe. Medroso, abriu só um dos olhos para espiar se alguém invadia o quarto. Percorreu o cômodo todo. A porta estava fechada e a janela entreaberta, mas não havia ninguém. Sentiu uma dorzinha no peito e um zumbido no ouvido. E as vozes foram ficando mais fortes: “João, vem, João”. Era assim que se morria, então? Não sabia, era a primeira vez que morreria e nunca ninguém voltou para contar. Pelo sim, pelo não, tratou de fechar o único olho aberto, fez um sinal da cruz e se pôs a rezar, pedindo a Deus para ver os filhos crescidos e o rosto dos netos.

O vento fazia cada vez mais barulho, soprando forte a cabeleira das árvores lá fora e derrubando uns frutos que ainda nem estavam maduros. Os animais correram para a toca e os passarinhos desistiram de voar. Até o sol se escondeu entre as nuvens. E a tarde foi ficando cinzenta. “Tira a roupa do varal que vai chover, Maria”, a vizinha gritou. Mas nem carecia disso, porque as gotas iam desabar só como lágrimas.

Toda a paisagem espreitava; e João seguia rezando todas as rezas conhecidas e pedindo a todos os santos que intercedessem por ele. Mas, no fundo, sabia que não teria muito jeito, que a morte não é de adiar compromisso. Se ela vem buscar, o sujeito não tem escolha a não ser acompanhar. Não tem apelo ou negociação que a demova. Só mesmo um milagre, que era justamente o que João tentava com Deus. Que a morte errasse de casa. Ou levasse só a doença. Ou, quem sabe?, morresse no caminho. Será que também a morte morreria um dia? Oxalá, meu Pai, fosse aquele, pediu João, fazendo o sinal de cruz.

Nada parecia adiantar. O vento, que até então soprava, perdeu a paciência e começou a bufar. “João, vem logo, João”, diziam as vozes ao homem teimoso, que rezava cada vez mais rápido e devotava ainda mais fé a Santo Expedito. As telhas da casa se agitavam, as janelas trepidavam e a cortina esvoaçava. Lá vinha o vento em fúria para cumprir os desígnios da morte, que não aceitava atrasos nem se rendia a caprichos.

Feito um furacão, o vento invadiu a cozinha, chacoalhando tudo o que via pela frente. Passou pela sala, derrubando os vasos de planta mais frágeis e espalhando a terra pelo chão. Atravessou o corredor e, ignorando a entrada do banheiro, foi encontrar João deitado no meio da cama, virado de lado, com as pernas meio dobradas e as mãos unidas pelas palmas. Os olhos continuavam fechados, mas os lábios se agitavam em oração. A cena daria até dó, se a morte tivesse sentimentos.

“João, vem, João”, ele ouvia chamarem. Não queria ir, mas se sentia tão fraco e impotente que chorou, mesmo de olhos fechados. Triste figura, admitiu a morte, que já desmontava do vento. Ela se aproximou sem pressa, passou as mãos pelos ralos cabelos do homem e lhe enxugou as lágrimas. Devagar, curvou-se até ficar cara a cara com João, que ainda rezava. Com o indicador da mão direita, tocou-lhe os lábios para que silenciasse. João interrompeu a prece e suspirou.

A morte lhe beijou com calma. Lentamente, foi sugando todo o ar daquele corpo, que aos poucos foi desbotando, a pele perdendo o viço. Sugou até a última lufada, deixando os pulmões murchos como duas frutas secas. Com cuidado, a morte embrulhou a alma de João na mortalha e guardou na bolsa. Nada se ouvia. Nem o chamado. Nem as roupas balançando no varal. Nem os bichos da fazenda. Nem um pio dos passarinhos. Tudo cinza e quieto lá fora.

Depois de terminado o trabalho, a morte se levantou e se espreguiçou longamente. Olhou João uma última vez. Morto, certificou-se. Respirou fundo, montou novamente no vento e saiu. Ainda tinha muito trabalho a fazer naquele dia.

Imagem: ‘Extensive landscape with grey clouds’ (c. 1821), de John Constable (1776-1837)

Uma coisa de cada vez

Recentemente, em seu Mundo Hipatético, Amanda contou como a quarentena está transformando sua vida. Como estamos todos no mesmo barco (mas, espera-se, cada um na sua casa), o relato é parecido com o de familiares, amigos e colegas de trabalho. Alguns estão com mais dificuldade para pegar no sono ou engordando. Há quem relate ter mais ou menos disposição para fazer exercícios físicos, tempo para aprender algo novo ou para ler aquele livro que há muito andava na fila ou por as séries em dia.

Cada pessoa sente e passa a quarentena de um jeito, a depender da personalidade, do estilo de vida, da condição financeira e do preparo psicológico. Mas enfrentar esse momento de tanta incerteza não é fácil para ninguém. Enfim, nos demos conta de que o futuro é mesmo imprevisível, por mais que tentemos prevê-lo ou planejá-lo. Claro que é importante criar raízes fortes para resistir às intempéries que possivelmente virão. No entanto, temos sempre que nos lembrar de que não controlamos tudo.

Se o futuro está no campo das possibilidades, o presente é mais palpável. E, neste ponto, a quarentena nos tem feito repensar o agora. Com o leque de ações bem mais restrito, nos confrontamos com atividades que fazíamos de modo quase automático ou que delegávamos a alguém. Para muitos, lidar com a limpeza da casa, a lavagem das roupas e o preparo das refeições nem passava pela cabeça. Somam-se à lista o trabalho, a educação dos filhos e os cuidados com os mais velhos.

Diante de uma crise em que a prioridade é a saúde (e que ninguém diga o contrário), precisamos reclassificar o que é urgente e o que é importante; o que não pode ser postergado, o que vai ficar para depois e o que nem será feito. Para mim, foi curioso perceber como algumas coisas que eu achava que eram urgentes passaram à categoria de desnecessárias. E outras, que eram constantemente adiadas, subiram de patamar.

Também me dei conta de como algumas tarefas eram cumpridas de maneira rápida e displicente. Fazer as refeições, por exemplo, era quase que apenas suprir uma necessidade metabólica, com a atenção dividida entre ver as mensagens acumuladas no celular, ouvir podcasts ou assistir ao jornal na televisão. Agora, me permito aproveitar o momento, saboreando cada garfada ou gole.

Parece uma mudança boba, mas não é. Percebi o quanto os resultados não eram satisfatórios justamente porque faltou foco. Já me esqueci de um ingrediente porque prestava atenção ao que ouvia no podcast. Ou o contrário: perdi uma informação relevante porque me concentrava na receita. Também já tive que retroceder na leitura de um livro porque, a cada parágrafo, parava para responder a mensagens no celular.

São exemplos banais, mas que me alertaram para a importância de ter um foco. Vale para atividades da casa, mas também para o trabalho. Esqueça a balela do funcionário multitarefa, capaz de fazer tudo ao mesmo tempo e com igual eficiência. Uma atividade sempre vai ser a principal e as outras, secundárias. E é possível até que nem a principal seja cumprida satisfatoriamente, já que a atenção está dividida. Então, por que não fazer uma coisa de cada vez? Os resultados certamente serão melhores.

Apesar de todos os dias terem 24 horas, uns parecem correr mais depressa que outros; e há grandes chances de que voltem a passar voando quando a quarentena acabar. Mas espero levar dela ao menos dois aprendizados. O primeiro, que nem tudo que é importante é urgente. O segundo, que tudo tem seu tempo. Aproveite.

Arte: Sean David Williams

Diário da quarentena: Loco Abreu

Ouvi passos no corredor e a chave girando na fechadura. Depois de nem sei quantos dias, João finalmente voltava para casa. Pulei da cama e, antes mesmo que ele girasse a maçaneta, já estava sobre o braço do sofá. Um cheiro diferente invadiu a sala. Devagarinho, um jovem colocou a cabeça pelo vão criado entre a porta e o batente. Quando me viu, arregalou os olhos em pânico. Aquele não era o João que morava comigo. Era o outro João, o parvo.

Desci do sofá e fui à porta. O cheiro de medo foi ficando mais forte. Quando finalmente entrou, vi que estava sozinho. Apesar da máscara que cobria metade do rosto, a expressão de pavor era visível. Pensei em fazer troça da situação, mas o cheiro já me causava náusea e preferi voltar para o quarto.

Não demorou para que viesse atrás. Continuei deitado, acompanhando seus passos com os olhos. Sua voz abafada me pediu calma, ainda que fosse ele quem estivesse nervoso. Embora o sol iluminasse o cômodo, acendeu a luz. E, praticamente se arrastando pela parede, caminhou até o armário. Abriu as portas uma a uma, sem tirar os olhos de mim. Quando encontrou o que procurava, deu um leve sorriso que me desconcertou.

O parvo tinha achado a maldita caixa. O próximo passo, claro, era me querer lá dentro. É sempre assim: eu entro, fecham a portinhola e me levam para o veterinário, um sujeito estranho de jaleco branco com instrumentos de tortura em mãos, que me apalpa o corpo todo, me espeta o cangote e me toma a temperatura enquanto diz frases imbecis com as palavras no diminutivo.

Hoje, decidi que não iria. Não fazia tanto tempo assim desde a última vez. E, se João – o meu, não o parvo – quisesse que eu fosse ao veterinário, que tivesse a hombridade de me buscar pessoalmente. Que afronta mandar um emissário e, ainda por cima, um tão incompetente!

Colocou a caixa sobre a cama e, vendo que eu não entraria de bom grado, saiu. Pensei que tivesse ido embora, mas ouvi que fuçava alguma coisa na cozinha. O velho truque do sachê. Esses humanos são tão previsíveis, sempre apelando para comida. Voltou como se tivesse um troféu em mãos. Abriu a embalagem e colocou na caixa. Depois, deu dois tapinhas para indicar onde havia posto. É uma pena que ele não tivesse noção do ridículo. O idiota realmente acha que não vi? Ignorei. Nenhum sachê vale a visita ao veterinário.

Sem saber bem como agir, ele foi empurrando a caixa em minha direção, o que me obrigou a levantar. Contrariado, me espreguicei para alongar a musculatura e pulei para a cômoda; depois, para o alto do armário, onde não me alcançaria.

Desanimado, o parvo saiu outra vez do quarto. Achei que tinha finalmente desistido, mas voltou com uma vassoura. Senti meu corpo tremer. Entrávamos em um terreno perigoso. Segurando o cabo com as duas mãos, ele se aproximou do armário. Tentei recuar, mas uma mala bloqueava meu caminho.

Fui obrigado a me render. Pulei de volta para a cômoda com a vassoura ainda apontada para mim. Quando passei para a cama, ele deu mais duas batidinhas na caixa. Não havia como escapar. Uma vassourada seria pior que que as apalpadelas do veterinário ou o termômetro. Ao menos, tinha um sachê.

Enquanto comia, notei que fechava as janelas e as cortinas. Ele pegou a caixa pela alça, apagou a luz e saiu do quarto. Repetiu o mesmo ritual na sala e, quando seguimos em direção à porta, pude ver de relance uma foto minha com o João, o que morava comigo. Miei de saudade. E também para protestar contra a minha retirada de casa. Tudo em vão. Nunca mais voltei, nem vi o meu João. Só o parvo.

Imagem: ‘Black cat oil painting’ (2018), de Viktoriia Raznatovska