‘Velhice transviada’

Publicado postumamente, livro de João W. Nery dá visibilidade a quem driblou a transfobia e sobreviveu no país que mais mata travestis e transexuais no mundo.

O dado não é novo, mas nem por isso menos chocante: o Brasil é o país em que mais se mata travestis e transexuais no mundo. São raros os que conseguem passar dos 35 anos. E raríssimos os que vivem além dos 50 anos. Mirando este segmento da população, o psicólogo, escritor e ativista dos direitos humanos João W. Nery decidiu escrever sobre o que ele chamou de “transvelhos”. O objetivo de ‘Velhice transviada’ é “descontruir a imagem caricata que se faz das pessoas transidosas” como o próprio João, o primeiro transgênero masculino brasileiro a passar pela cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos, em plena ditadura militar.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, João reconta um pouco de sua trajetória, já narrada na autobiografia ‘Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois’. Aos 68 anos, enquanto escrevia suas reflexões sobre o envelhecimento de pessoas trans, João descobriu um câncer no cérebro bastante agressivo, que lhe daria pouquíssimo tempo de vida. Impressiona a maneira como o autor fala sobre a doença que o acometeu. Para boa parte dos brasileiros, este é um assunto tabu. E muitos evitam até mesmo falar o nome da doença, como se a simples menção trouxesse mau agouro. João acredita no oposto, a teoria dele “sempre foi a de que quanto mais se ventila o assunto, menos monstruoso ele se torna – um exercício de banalização, mesmo envolvendo as cercanias da finitude”.

Com a serenidade de quem já havia superado outros dois tabus (a transexualidade e o envelhecimento), João passou por um tratamento que o debilitou bastante, mas não deixou de escrever. Sem medo, continuou trabalhando nos depoimentos que formam a segunda (e melhor) parte do livro. No dia 26 de outubro de 2018, apenas dois dias depois de ter escrito as últimas linhas, João Nery morreu. Publicado postumamente pela editora Objetiva em 2019, ‘Velhice transviada’ cumpre com louvor – ao longo de 172 páginas – o objetivo: dar voz a quem é constantemente rotulado como abominável, a quem é expulso de casa e obrigado a viver nas e das ruas, a quem é negado o direito à cidadania plena, à existência e à longevidade.

“A solidão é uma condição em que as pessoas de mais idade ficam, mas no caso da travesti está associada ao abandono e ao preconceito. Tenho pessoas que têm uma trajetória comigo, mas que, por eu ser travesti, não falam mais comigo. É uma solidão baseada numa verdade: a de dar ao outro o direito de não querer mais se relacionar comigo em função de suas limitações. Chame de preconceito, do que quiser, mas aceitação não se impõe. Prefiro a solidão a ter alguém que está ao meu lado apenas para não ser chamado de preconceituoso. Não quero ser o selo, o certificado politicamente correto de ninguém. Quero sentir liberdade da pessoa conviver comigo. Porém, não conviver não significa ter necessidade de me matar. Simplesmente precisamos nos respeitar.”

Valquíria, em entrevista, in 'Velhice transviada'

As entrevistas são fortes. A confiança que os entrevistados têm em relação ao autor faz com que relatem, de forma bastante honesta e desabrida, as dificuldades por que passaram ao longo da vida. A travesti Anyky Lima, por exemplo, conta como foi expulsa de casa pela própria mãe aos 12 anos, quando começou a se comportar como menina, e como teve que se prostituir. A história de Sissy é semelhante: foi prostituta na Europa, violentada em Portugal, usuária de álcool e drogas, soropositiva. Sobrevivente, hoje é militante e trabalha com moradoras de rua que são trans em Belo Horizonte. Outra personagem do livro é Valquíria, que foi seminarista e se casou, assumindo papéis que não correspondiam ao que de fato era. Ela chegou a tentar suicídio algumas vezes antes de se assumir travesti.

As agruras de uma vida à margem da sociedade fizeram das personagens retratadas em ‘Velhice transviada’ pessoas mais fortes, exemplos para uma nova geração que, infelizmente, ainda tem de passar pelos mesmos preconceitos e enfrentar a mesma violência. Dar visibilidade a quem conseguiu sobreviver a tantas adversidades, como faz o livro de João Nery, é extremamente importante em uma sociedade transfóbica como a nossa. Agora cabe a nós, leitores, não deixar que a população trans continue a ser estigmatizada e marginalizada. É preciso garantir que ela tenha direito à cidadania plena e à longevidade.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Capa do livro: Carlos di Celio/Objetiva

‘Memórias de um urso-polar’

Em tom de fábula moderna, escritora japonesa Yoko Tawada imagina como seriam as autobiografias de três gerações de uma mesma família de ursos.

Quanto mais urgentes se tornam as bandeiras ambientais e as necessidades de ação, mais surgem indivíduos incapazes de enxergar o óbvio: precisamos agir imediatamente para frear as mudanças climáticas. Em 2006, a causa foi personificada na figura de um simpático filhote de urso-polar. Abandonado pela mãe, ele foi criado por um tratador no zoológico de Berlim, onde ganhou o nome de Knut e foi acompanhado de perto por milhares de visitantes e, de longe, pela mídia global.

Um dos olhares atentos sobre o ursinho era da escritora japonesa Yoko Tawada, recém-chegada a Berlim, depois de ter vivido em Hamburgo, também na Alemanha, por 24 anos. A história do animal a comoveu tanto que ela teve a ideia de escrever não só a biografia dele, como também a de sua mãe, uma dançarina circense da Alemanha Oriental, e a de sua avó, nascida na também já extinta União Soviética e exilada no Canadá. E, o mais surpreendente, é que as trajetórias dos ursos são narradas em forma de autobiografia.

Publicado originalmente em alemão em 2014, ‘Memórias de um urso-polar’ foi traduzido por Lúcia Collischonn de Abreu e Gerson Roberto Neumann e publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019. Com ares de fábula moderna e um protagonista naturalmente carismático, como são quase todos os filhotes, o livro fala não só dos ursos, mas também sobre a maneira como nós, humanos, lidamos com a natureza.

“O Homo sapiens se movimenta de forma lenta, como se tivesse muita carne sobressalente no corpo, mas ao mesmo tempo é pateticamente magro. Pisca com muita frequência, sobretudo em momentos decisivos, quando precisa enxergar com mais clareza. Quando nada está acontecendo, encontra alguma razão para se mover freneticamente, mas, quando há um perigo real, lida com isso de forma muito lenta. O Homo sapiens não foi feito para a batalha, de forma que deveria aprender a sabedoria e a arte da fuga, como coelhos e veados. Mas ele ama a luta e a guerra. Quem criou essas tolas criaturas? Alguns humanos afirmam ter sido criados à imagem e semelhança de Deus. Isso é um insulto a Deus. No norte dessa nossa terra há pequenas tribos que ainda lembram que Deus, na verdade, se parecia com um urso.”

Yoko Tawada, in 'Memórias de um urso-polar'

A forma como Tawada elabora as autobiografias é surpreendente. As três partes, uma para cada membro da família, são absolutamente singulares: a maneira de escrever deixa claro não só a personalidade dos ursos, mas também corresponde à idade e reflete a trajetória de vida de cada um deles. A autora evidencia, por exemplo, que Knut está aprendendo a linguagem, o que torna o texto ainda mais interessante.

A cada novo capítulo, o leitor vai se desarmando da estranheza que é ter um urso como autor e embarcando na proposta. Outro trunfo do livro está no fato de que as sequências são sempre melhores do que a história anterior. Inventivo na forma, ‘Memórias de um urso-polar’ é tocante e surpreendente também no conteúdo. Knut conquista qualquer leitor, afinal, ninguém resiste a um filhote fofo.

Foto: Tobias Schwarz/Reuters
Capa do livro: Alyssa Cartwright/Todavia

‘Coisas que aprendi com um bebê’

Em livro de tirinhas, cartunista gaúcho Rafael Koff mostra com humor bastante refinado e olhar sensível o cotidiano de um pai se descobrindo na função.

Conheci o trabalho de Rafael Koff em meados de 2012. Foi nesta época que ficaram famosas as tirinhas do cartunista de Porto Alegre com personagens do desenho japonês ‘Cavaleiros do zodíaco’. Com humor refinado, as histórias humanizavam os heróis e os colocavam em situações banais e curiosas, bem distantes da missão de salvar uma princesa e lutar com cavaleiros mais poderosos. O sucesso na internet deu origem a um financiamento coletivo para a impressão do livro ‘Tirinhas do zodíaco’.

Desde então, Koff vem usando com êxito as plataformas de crowdfunding para financiar e publicar seus projetos. Foi assim com ‘Freddy and Jason have fun’, uma homenagem bonitinha – e também sangrenta – aos personagens de terror, e com ‘Cueca por cima das calças’, que parodiava o universo dos super-heróis, ambos de 2013. Temas ligados ao cinema aparecem também em ‘Bastidores’, de 2016. Há ainda inúmeros outros livros publicados pelo cartunista.

O trabalho mais recente é ‘Coisas que aprendi com um bebê’, série de quadrinhos que o autor concebeu durante o primeiro ano de vida de sua filha e que ele recomenda a todo mundo que tem, quer ter ou já foi um bebê. Como os demais, o projeto foi lançado em uma vaquinha virtual que arrecadou mais de R$ 7 mil entre 167 apoiadores em outubro de 2019, batendo com folga a meta de R$ 6 mil.

O livro traz os traços e o humor sutil que são característicos de seu autor. Mesmo para quem não é pai, as tirinhas causam identificação imediata. Elas apresentam tanto situações cotidianas, como a enorme quantidade de coisas que os pais precisam carregar quando saem com um bebê, quanto questões mais filosóficas sobre a paternidade (e, por que não?, sobre a maternidade), como a perda de identidade: em vez de um indivíduo singular, o sujeito se torna o pai de alguém, sendo quase sempre referenciado pela criança. São 108 páginas de uma leitura agradável e leve, que tornam ‘Coisas que aprendi com um bebê’ um saboroso livro sobre o cotidiano de um homem se descobrindo em uma das funções mais nobres e difíceis do mundo, para a qual não há receita pronta, a de ser pai.

Fotos: Rafael Koff/divulgação

‘Marrom e amarelo’

Com a política de cotas como pano de fundo, romance de Paulo Scott evidencia a persistência do racismo no Brasil e a potência da nossa literatura contemporânea.

Um dos temas mais polêmicos quando se fala em educação é a política de cotas raciais, que instituiu uma reserva de vagas a estudantes negros, e majoritariamente pobres, em instituições públicas de ensino superior. Trata-se de uma reparação histórica a direitos que foram negados ao grupo étnico que representa a maioria da população brasileira, tão bem-vinda e necessária, mas insuficiente diante da realidade do país. Entretanto, em vez de discussões sobre como reparar e garantir mais direitos, ainda é preciso ratificar sua validade enquanto política pública.

Este é o pano de fundo de ‘Marrom e amarelo’, livro que o professor universitário e escritor gaúcho Paulo Scott publicou em 2019 pela Alfaguara. Irmão mais velho e de pele mais clara de uma família mestiça, Federico cresceu em um violento subúrbio de Porto Alegre tendo de lidar com a discriminação. Aos 49 anos, já morando em Brasília e sendo um respeitado ativista racial, foi convidado a integrar uma comissão instituída pelo novo governo para rediscutir os critérios pelos quais um estudante teria direito à cota nas universidades.

“Lourenço me disse que eu estava mandando muito bem no drama queen, que a estatueta chegaria pelo correio em quinze dias e riu, depois disse que era inevitável, que um dia a consciência de tudo ia chegar, disse que eu não devia pensar demais, que a idade já devia ter me ensinado que algumas vezes o melhor era não pensar demais. Eu disse que o meu radar já não captava certas coisas, certos comportamentos, certos conflitos, disse que estava perdendo o jeito. Ele riu, disse que perder algumas ilusões sobre nós mesmos fazia parte do andar da carroça, que eu devia aceitar o andar da carroça. Eu disse que quando crescesse ia querer ser que nem ele, ia aprender a copiar aquela porcaria de serenidade infalível dele. Ele riu e disse que pra algo daquele tipo acontecer eu ia ter de nascer de novo.”

Paulo Scott, in 'Marrom e amarelo'

As discussões do grupo de trabalho e um problema de família envolvendo a sobrinha, que dava seus primeiros passos na militância por direitos humanos, fazem com que o protagonista reveja a própria carreira e confronte fases anteriores de sua vida. As temporalidades abarcadas na trama, que vai de 1973 a 2016, mostram que houve pouco avanço: o Brasil continua sendo um país racista e a igualdade, uma promessa. Ainda há um longo caminho de luta a ser percorrido.

Se, por um lado, o romance revela nosso atraso como nação, por outro, reforça a potência da literatura brasileira contemporânea. A paralisia política e as tensões raciais brotam nas quase 160 páginas de forma crua e objetiva. Os trechos de diálogos mais longos exigem certa atenção do leitor, mas a narração em primeira pessoa e a linguagem cotidiana acentuam o absurdo tratamento dado aos negros deste país e evidenciam a urgência de uma mudança na sociedade.

Foto: ‘Sem título’ (2015), guache de Sidney Amaral
Capa do livro: Alceu Chierosin Nunes

‘Todos os santos’

Melancólico e nostálgico, mas igualmente poético, livro de Adriana Lisboa convida o leitor a uma importante reflexão sobre perdas e como superar um luto.

Mauro poderia ter sido um excelente nadador olímpico. Ou um campeão em outro esporte. Ou um profissional de sucesso em qualquer carreira que escolhesse. Mauro poderia ter sido muitas coisas, não fosse por aquele domingo aparentemente comum em clube do Rio de Janeiro. Na festa de aniversário de uma das meninas mais ricas da escola, Vanessa perdeu o irmão caçula em um acidente na piscina.

A mesma tragédia que marcou a infância da menina a ligou de maneira definitiva a André, colega de escola de Mauro, e uniu as famílias de ambos. Tempos mais tarde, já adulta e pesquisadora de aves migratórias na distante Nova Zelândia, Vanessa revisita o passado e tenta entender o que aconteceu desde aquele trágico domingo de novembro há cerca de quatro décadas e ressignificar a relação com André. Tocar essa ferida ainda não plenamente cicatrizada não é fácil, mas– movida por uma revelação inesperada – ela sente que precisa fazê-lo.

“Não penso muito, hoje em dia, repeti. Não acha estranho? Quando uma coisa dessas acontece, tudo é de um tamanho que parece que vai esmagar você para sempre, uma chave de braço que passou a fazer parte do seu corpo, e a cada minuto você precisa se lembrar e se convencer de que o que aconteceu aconteceu mesmo. Então um dia, e você não sabe como foi que chegou até ali, já não pensa mais tanto no assunto. E quando pensa o assunto passou a fazer parte da sua vida, da sua história. É um problema que você não vai conseguir resolver nunca. Uma contradição que acata, que aceita. É assim que a gente cumpre o luto, talvez.
[…]
Não sei se é assim que a gente cumpre o luto, pensando bem, eu disse. Será que a gente só faz mesmo é tentar esquecer a pessoa que morreu, para continuar vivendo? Tirar da pessoa a importância que ela teve para nós.
Não, você disse. Tenho certeza de que não é isso.
Não tenho essa certeza toda.

Adriana Lisboa (in 'Todos os santos')

O relato, tão nostálgico quanto dolorido, entre o Rio de Janeiro de outrora e a Nova Zelândia de hoje, é o cerne de ‘Todos os santos’, romance da escritora carioca Adriana Lisboa publicado em 2019 pela Alfaguara. Apesar de curto (são apenas 148 páginas), o livro requer tempo. Simples e direta na forma, a obra convida a reflexões sobre perda, culpa, arrependimento e perdão. Impossível não parar entre um parágrafo e outro para se colocar no lugar de Vanessa ou apreciar a escrita concisa e profunda da autora.

O luto sempre pode ser pacificado, mas nunca superado, o que faz de ‘Todos os santos’ um romance triste e melancólico. No entanto, o lirismo com que Adriana Lisboa conduz a narrativa, aparentemente à deriva e fragmentada, cria um porto seguro para o leitor. A travessia por reminiscências tão profundamente pessoais de Vanessa conquista tanto pela tessitura poética quanto pela universalidade do tema; ninguém é imune a perdas. A diferença está em como se lida com elas.

Foto: Getty Images/iStockphoto
Capa do livro: Claudia Espínola de Carvalho

‘O labirinto do fauno’

Universo que Guillermo del Toro levou aos cinemas ganha livro em adaptação expandida de Cornelia Funke e confirma caráter eterno de obra-prima.

A literatura é capaz de aliviar uma perda? Até que ponto ela pode ajudar alguém a sobreviver a um ambiente extremamente hostil? São estas as perguntas que movem ‘O labirinto do fauno’, um conto de fadas para adultos dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro para o cinema em 2006. Em meados do ano passado, o filme foi adaptado para um livro de mesmo nome. Trata-se de um percurso bastante incomum, já que normalmente é o texto impresso que costuma ser levado às telas.

O ano era 1944. Em meio à guerra civil na Espanha, a jovem Ofélia (Ivana Baquero, segura e expressiva, apesar da pouca idade) é obrigada a se mudar após a morte do pai e o novo casamento de sua mãe, Carmen (Ariadne Gil), com o sádico capitão do exército franquista Ernesto Vidal (Sergi López, excepcional). Palco de conflitos entre as forças fascistas e rebeldes que se insurgem contra o governo nacional, o posto de campanha no norte do país não é nada propício para uma menina com menos de dez anos, tampouco para uma mulher grávida; Carmen espera o primeiro filho de Vidal, a única coisa que lhe interessa. Neste cenário sombrio, Ofélia se refugia na literatura.

A fantasia que lê nos livros se torna realidade quando ela encontra o Fauno (Doug Jones, ator excepcional que interpreta ainda o Homem Pálido), um ser mitológico com características de animais, humanos e plantas. Com ele, a jovem descobre que pode ser filha do rei do submundo e, portanto, herdeira do trono. Porém, para poder reencontrar seu verdadeiro pai, Ofélia terá que passar por três provações para comprovar sua identidade. Enquanto isso, na vida real, vai precisar sobreviver às agruras da guerra e ainda se desvencilhar das garras de um padrasto que a despreza e faz de sua mãe uma refém. Para Vidal, a menina – como todas as mulheres – pouco importa. O casamento foi pensado com o único objetivo de render um herdeiro.

“A mãe de Ofélia ainda não sabia, mas ela também acreditava em contos de fadas. Carmen Cardoso acreditava no conto de fadas mais perigoso de todos: o do príncipe que a salvaria.”

Cornelia Funke (in 'O labirinto do fauno')

Profundamente filosófico e encantador, o filme do diretor, produtor e roteirista Guillermo del Todo representou o México na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro. Perdeu para o alemão ‘A vida dos outros’, mas faturou as estatuetas de melhor fotografia (Guillermo Navarro), direção de arte (Eugenio Caballero e Pilar Revuelta) e maquiagem (Davi Martí e Montse Ribé), além de ter sido indicado também em duas outras categorias: roteiro original e trilha sonora (Javier Navarrete). Foi um feito e tanto para uma produção que não é falada em inglês.

‘O labirinto do fauno’ é tecnicamente impecável ao fazer contrastar o conto de fadas que conforta Ofélia com a dura realidade da guerra civil espanhola. A fotografia e a direção de arte trabalham com muitas nuances os tons soturnos que dão cor ao filme, mas pontuam o universo mágico com belas combinações de dourado e vermelho. O trabalho de maquiagem impressiona pela composição do fauno e do homem pálido. Extremamente delicada, a trilha sonora eterniza a canção de ninar que perpassa o filme. E tudo isso é potencializado por interpretações excepcionais, com destaque para Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López e Maribel Verdú, que interpreta Mercedes, empregada que consegue conservar sua humanidade mesmo trabalhando para um homem tão perverso como Vidal.

Como transpor para a literatura um trabalho tão poderoso visualmente que arrebatou público e crítica nos cinemas? E mais, como atingir a mesma excelência da matriz original? A missão foi confiada pelo próprio Del Toro à escritora e ilustradora alemã Cornelia Funke, autora da série ‘Coração de tinta’. Deliberadamente, o livro é extremamente fiel ao filme: Cornelia conta no posfácio que assistiu minuto a minuto do longa-metragem para reproduzir as cenas. O trabalho de escolha das palavras é meticuloso tanto para designar as ações quanto para descrever o clima, tudo muito bem traduzido para o português por Bruna Beber.

Os fãs são presenteados ainda com contos adicionais que expandem o universo dos personagens. Lançado pela editora Intrínseca, o livro vem brilhantemente embalado. São 320 páginas em uma edição de luxo, com capa dura deslumbrante (a cargo de Sarah J. Coleman e Joel Tippie), fitilho para marcar página, projeto gráfico impecável de Antonio Rhoden e belíssimas ilustrações de Allen Williams. É a prova de que ‘O labirinto do fauno’ nasceu para ser uma obra-prima, independentemente do formato.

CRÉDITOS
Foto do filme: Teresa Isasi/Divulgação
Foto do livro:
Intrínseca/Divulgação