Desculpe-me o signo

Sempre ignorei completamente informações envolvendo signos, mas eles são tão levados a sério no Brasil que resolvi me render e até fazer meu mapa astral.

Não sei por que razão, mas em algum momento daquela tarde eu me tornei o tema central da conversa entre colegas de trabalho. Falavam das qualidades (ou seriam defeitos?) da minha personalidade. Tentavam entender por que eu era como sou. E, no Brasil mais do que em outros países, por algum motivo tão inexplicável quanto astrológico, a compreensão da alma humana passa necessariamente pelo signo zodiacal sob o qual a pessoa nasceu.

Para mim, o assunto sempre foi pouco relevante. Racionalmente, tenho dificuldades de acreditar que o jeito de ser de alguém é determinado ou influenciado por astros tão distantes, orbitando sem pressa um sol gigantesco que certamente ignora por completo a nossa insignificante existência na Terra. Meu conhecimento mais próximo e afetivo em torno desta temática se baseia no desenho animado japonês que marcou a infância da minha geração. Foi com ‘Cavaleiros do zodíaco’ que aprendi a ordem dos signos. E, passados tantos anos, a memória já me falha e por vezes esqueço alguns.

Mas minhas amigas de redação levam a questão muito a sério e me perguntaram, não sem antes tentar adivinhar, qual é o meu signo. Respondi, e mesmo aquelas que sabiam a data em que nasci ficaram surpresas com a resposta. Disseram que era impossível, que nenhum traço da minha personalidade correspondia. Logo perguntaram pelo ascendente, que – obviamente – eu não sabia. Sem se dar por vencida, uma delas resolveu consultar meu mapa astral na internet.

Mais minucioso que revista da alfândega em passageiros que vêm dos Estados Unidos, o site pedia informações detalhadas. Não bastavam o dia, mês e hora do nascimento; era preciso preencher também o nome completo, a hora e a cidade onde foi realizado o parto. Acredito que foi por muito pouco que não quiseram também o número do cartão de crédito e o código de segurança que vem gravado no verso.

As suspeitas que minhas colegas tinham se confirmaram: o problema não estava no signo, e sim no ascendente, na lua e no sol em algum dos planetas que já não me lembro mais qual é (até porque nem sei mais se Plutão continua sendo ou não um planeta, e olha que isso é um dado científico). A palavra mais simpática que elas usaram para descrever a minha personalidade depois de terem visto meu mapa astral foi “difícil”.

Achei toda a experiência muito curiosa. Por um lado, fiquei realmente espantado de ver como os signos são levados a sério. Por outro, essa história me despertou uma ótima ideia. Se as pessoas acreditam de verdade que quem somos é reflexo de uma conjunção de fatores celestiais, resolvi – daqui por diante – me valer do meu mapa astral. Queiram me perdoar por ser alguém horrível, é que eu sou escorpião com ascendente em áries.

Foto: reprodução/internet

Uma ida ao Jô

Em uma época em que o sucesso se media por aparições na TV, fui convidado para a primeira entrevista da carreira após o lançamento do meu livro de estreia.

Por muitos anos, décadas até, o nível de sucesso de uma pessoa não se media por curtidas ou compartilhamentos. As redes sociais nem existiam. E o contato era quase todo interpessoal. No máximo, o fio do telefone fazia a mediação entre as duas pontas. Ou assistíamos pela televisão alguém bem-sucedido; invariavelmente, no programa do Jô. Era por lá que passavam todas as celebridades, as figuras públicas de grande relevância no cenário nacional e os personagens mais curiosos do país.

Até hoje não sei dizer em qual destas categorias me encaixava quando o telefone tocou. Era alguém da produção querendo que eu participasse de uma edição do programa. Quase desliguei, parecia trote. Felizmente, não era. O convite era real, e praticamente toda minha biografia e carreira já haviam sido apurados e confirmados com fontes confiáveis (um feito e tanto para alguém como eu, que mal deixara o status de ilustre desconhecido).

Depois de muito tempo – e paciência do produtor, que se empenhou bastante para me convencer -, aceitei. Foi então que me passaram toda a dinâmica da minha participação. Um carro me buscaria em casa e me levaria ao aeroporto, onde embarcaria por volta das quatro da tarde rumo a São Paulo, de onde o programa era apresentado. Uma vez em solo paulistano, seria conduzido ao hotel para que me aprontasse. Às oito da noite, um outro carro da produção estaria me esperando.

Sem atrasos, segui todo o ritual previsto, apesar da chuva fina que insistia em cair tanto no Rio quanto em São Paulo. Por volta de oito e meia da noite, já estava no camarim à espera do momento de gravar minha participação. À minha disposição, uma mesa farta com opções de frutas, pães, bolos e outros doces, todos aparentemente deliciosos. Exceto por alguns pães de queijo – que estavam realmente apetitosos – e de uma xícara de café, consegui resistir a uma eventual farra gastronômica.

O café já ia pela metade quando a porta se abriu. Virei de frente para ela, acreditando que era chegada a hora de um produtor me buscar. Foi quando entrou por ali Tony Ramos. Gelei. Um dos maiores atores do país participaria da mesma edição do programa que eu, o que significava que teria pouquíssimo tempo de conversa ou – pior – seria completamente apagado por aquela presença. Elegante e gentilmente, e como se fosse necessário, ele se apresentou. Prazer, Tony Ramos, disse sorrindo e estendendo a mão direita. Pousei a xícara na mesa, estendi também a mão direita e o cumprimentei. Quando comecei a dizer meu nome, ainda antes que acabasse, ele completou. Pedro Rabello, li seu livro. Congelou-me no rosto um sorriso.

Sem esforço e afetuoso como um amigo de longa data, contou suas impressões do que havia lido. Debatemos, nos minutos que se seguiram, as ideias contidas no livro que motivaria em instantes minha entrevista com Jô. Se meu espanto era visível, a elegância de Tony lhe tolheu de sublinhar. Falava com entusiasmo e carinho tão grandes que me fez esquecer o nervosismo da estreia na televisão.

Já passava das dez da noite quando uma produtora entrou no camarim. Tinha vindo me buscar e explicar que, embora gravassem primeiro comigo, a ordem de exibição seria outra. Abririam aquela edição, claro, com o convidado mais ilustre. Senti o coração acelerar, as pernas vacilarem e a respiração encurtar. Tentei disfarçar tudo enquanto entrava no estúdio sob aplausos da plateia, após ter sido apresentado.

Calculei com cuidado o espaço que ocuparia no sofá. Sentei-me, a perna direita cruzada sobre a esquerda e as mãos entrelaçadas sobre os joelhos. Jô Soares começava a primeira pergunta quando um som insistente invadiu o estúdio. Olhei no entorno, tentando localizar sua origem. Parecia, como se confirmou depois, vir do meu lado direito. Fechei os olhos, tentando ignorar o barulho. Quando tornei a abri-los, não havia mais nada. Nem Jô, nem estúdio, nem plateia, nem Tony, nem São Paulo. Apenas um despertador impaciente, incapaz de esperar pelo beijo do gordo.

Foto: Memória Globo/divulgação

O som do mar

Quem costuma ir à praia, e mesmo quem vai esporadicamente, já reparou que as caixinhas de som permitem ouvir de tudo, menos o barulho das ondas.

Outro dia fui à praia. Parece mentira, mas eu juro que aconteceu. E acontece de vez em quando, ainda que sob leve pressão. Não sou um dos maiores fãs, algo que fica visível na pele cor de escritório. É que o contato com a areia me incomoda. O sol escaldante também. E o excesso de luminosidade. Tem ainda o medo de permanecer de óculos escuros e terminar com aquela marca que atesta a completa falta de intimidade com o ambiente. Para quem tem miopia e astigmatismo (e quase dorme de óculos para ver os sonhos em alta definição), ficar sem enxergar perfeitamente também é uma angústia.

No entanto, nem tudo está perdido na praia (se for uma criança, é só bater palma até o responsável localizá-la). Gosto do toque do sol na pele, da brisa úmida soprando, das ondas que lambem as pernas (obrigado, Lulu, pela imagem afetivamente poética), do cheiro e do sabor do queijo coalho, que ficou ainda mais gostoso depois de proibido, da água de coco gelada (e de comer a carne do coco depois) e de pular as ondas.

Sendo sincero, o que eu mais gosto é de me deitar sobre a areia, deixar o sol aquecer a pele (e renovar o estoque de vitamina D, para alegria do clínico geral e desespero do dermatologista), sentir o vento, o cheiro da maresia e ouvir o som do mar. Principalmente, escutar as ondas quebrando na beira. Bem, era disso que eu gostava. E que praticamente acabou. Não por culpa das ondas, que continuam cumprindo seu papel, mas pela quantidade avassaladora de celulares conectados a caixinhas de som.

Cada vez menores, mais baratas e mais potentes, elas estão presentes em dez entre dez barracas. Arrisco dizer que há quem seja capaz de se esquecer de levar a canga, mas não a caixinha de som. Ouve-se de tudo. E tudo ao mesmo tempo. Tem o funk da turminha à direita, o sertanejo universitário da dupla à esquerda e as divas do pop atingindo agudos impressionantes do grupinho sentado mais atrás. Procurando bem, dá para achar qualquer estilo ecoando das areias, menos o som do mar. Este, talvez, só dando um mergulho, porque as caixinhas à prova d’água ainda não são tão boas. Mas não se preocupe, isso as empresas de tecnologia logo vão resolver. E aí a gente vai poder colocar para tocar no aplicativo enquanto boia o som do mar. Se a gente quiser ouvi-lo, claro!

A morte da suculenta

Cuidar de uma planta pode ser bem mais difícil do que parece, mas deve ser algo que qualquer ser humano seja capaz de fazer; apesar disso, não foi o meu caso.

Esta é a confissão de um crime: eu matei a suculenta. Se você bem observou a foto, já percebeu que eu não falo vulgarmente de uma mulher, e sim de um vegetal. Em minha defesa, digo que sou réu primário: nunca antes na história deste país havia tido qualquer incidente ao cuidar de uma planta. Desta vez, falhei miseravelmente.

Explico. Tudo começou no planejamento da sala. Na parede azul, bem ao lado da mesa de jantar, alguns espelhos. Atrás do sofá, dois ou três quadros ainda não definidos. Do outro lado, sobre uma prateleira alta e o aparador, uma combinação de objetos decorativos. Para dar vida ao ambiente, já que não há filhos correndo pela casa ou animais domésticos (e sem pretensão de ter qualquer um dos dois em um futuro próximo), vasinhos salpicados aqui e acolá. Com tempo e paciência escassos para plantas que exigem muitos cuidados, a aposta seria nas suculentas.

Diz a internet que elas são os vegetais mais fáceis de cuidar da face da Terra, capazes de sobreviver a longos períodos de escassez de água ou excesso de sol escaldante. Além de formas e até cores variadas, as suculentas se adaptam bem a diversos tipos de ambiente e cabem em qualquer tamanho de vaso, onde espécies diferentes podem conviver harmonicamente. Não faltam blogs e sites com dicas de como cuidar delas ou de como plantá-las.

Sem qualquer vocação para menino do dedo verde, comprei o vasinho decorativo que julguei mais bonito. Da loja, fui direto ao quiosque mais próximo decidir qual seria a primeira – de muitas, acreditava – suculenta da casa. Não tinha ideia de que espécie melhor se adaptaria às condições de luminosidade e umidade do apartamento. Como a função era decorar, ganhou a preferência a que melhor ornava com a cor e a forma do pote. Seja por desconhecimento, má-fé ou vontade de fechar a venda, a atendente garantiu que tinha feito uma boa escolha.

Fiz todo o esforço possível para garantir sua longevidade. Volta e meia, trocava o vasinho de lugar para que a suculenta recebesse a luz do sol. Empenhei boa parte da memória para me lembrar de regá-la de tempos em tempos. Se esqueci, eu juro, não foi por maldade. Mas de nada adiantou. Dia após dia, ela foi perdendo as folhas. Até não sobrar mais nenhuma. Agora, para sacramentar a falência da missão, o caule está envergando. É o melancólico fim de uma planta mundialmente famosa pela resistência, uma pá de cal na ideia de ter uma decoração viva para a sala e o atestado da minha total incompetência para jardineiro.

PS: Este crime teve um cúmplice, mas cada um que faça sua confissão.

Metas de Ano Novo

Estabeleci um novo projeto para 2020: voltar a ter um blog e escrever com regularidade. Na dúvida sobre cumprir ou não, decidi começar antes.

Como começar um texto sobre o fim do ano sem apelar para um dos clichês mais repetidos de todos os tempos? Tento resistir à ideia, mas a realidade se impõe e me convence de que, sim, o tempo passa voando. Ou correndo. E, ainda que nadasse, nadaria mais depressa do que qualquer recordista olímpico. Tanto faz o modo, a conclusão é: o velho chavão é tão recorrente justamente por ser tão verdadeiro.

De repente, dezembro chega, com música da Simone e luzinhas piscantes, exigindo fôlego de ultramaratonista para dar conta da correria que é comprar todos os presentes (com a dificuldade extra de não repetir o que se deu no ano anterior) e fazer caber uma grande quantidade de confraternizações, oriundas dos mais diversos grupos de amigos, em um calendário tão apertado. Quanto mais sociável o sujeito, mais difícil a missão se torna. Mas o último mês do ano promete recompensar tudo; senão com a segunda parcela do décimo terceiro depositada na conta ou alguns dias de merecido descanso (ou seria mais correria?), ao menos com o inebriante cheiro das rabanadas. Fritas, por favor. Nada de tentar compensar nas duas últimas semanas a dieta que não foi feita nos outros 350 dias do ano. Ela que fique para depois.

Com suculentas rabanadas e generosas fatias de panetone (ou chocotone, para os hereges) para ajudar a clarear as ideias, dezembro nos convida a relembrar o que passou, ainda que esquecer e superar pareçam verbos mais apropriados. Toda reflexão é importante, nem que seja para não repetir o que foi traumático ou deixou a desejar. E também pode ser reconfortante ver o ano pelo retrovisor, se afastando de vez.

Reflexões mais profundas e filosóficas à parte, fazem muito sucesso, por exemplo, as retrospectivas das redes sociais, que nos mostram o que mais curtimos, compartilhamos e comentamos no ano que vai chegando ao fim. São vídeos curtos, inversamente proporcionais ao tempo perdido na internet e que só interessam ao próprio usuário, mas que vamos compartilhar assim mesmo, porque todo capricho na escolha dos filtros merece ser recompensado com uma curtida. É o mínimo que se espera dos amigos.

Bem mais sérias são as retrospectivas jornalísticas, que nos lembram que aquele fato que achávamos ter ocorrido há uma década, na verdade, aconteceu em janeiro. Descobrimos também – ou redescobrimos – que muitos artistas que julgávamos apenas sumidos, perdidos na época em que fizeram sucesso, morreram. Percebemos também que as notícias mais importantes do ano são quase todas tristes, mas há sempre uma redenção. Para frear o desejo de cortar os pulsos e pôr fim ao vale de lágrimas, os programas que passam o ano em retrospecto nos brindam com os campeões do esporte. Ainda que o time tenha sido rebaixado ou perdido um título importante, haverá sempre um conterrâneo a nos redimir e a devolver o orgulho da pátria, nem que seja o primeiro brasileiro a vencer o campeonato mundial de bocha.

Se o ano que se despede não foi tão bom quanto gostaríamos (ou mereceríamos?), fica ao menos a certeza de que ele termina em breve. E podemos aproveitar não só para respirar mais aliviados, como também para já especular, fantasiar e projetar o seguinte. Para muita gente, estabelecer metas para o ano novo dá alento e renova as esperanças.

Podem ser desejos mais impossíveis, como ganhar na Mega Sena da Virada sem ter feito nenhuma aposta. Podem ser vontades mais improváveis, como ter o corpo perfeito sem fazer qualquer esforço. Podem ser delírios mais abstratos, como visitar as muralhas da China com um guia fantasiado de panda e depois pegar um foguete para comprovar se elas podem mesmo ser vistas do espaço. Podem ser clichês mais clássicos, como escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, não necessariamente nesta ordem. Ou podem ser objetivos mais específicos, como conquistar a Ásia, a Oceania e um terceiro continente à sua escolha.

Ser mais realista facilita o cumprimento de uma maior quantidade de metas. É o que pregam os manuais de autoajuda. E temos que dar o braço a torcer: deve mesmo ser bem mais fácil cuidar da alimentação (mas as rabanadas seguem liberadas em dezembro), beber mais água e usar filtro solar todos os dias do que encontrar um guia de turismo disposto a percorrer longas distâncias vestido de urso ou chegar ao fim de uma partida de War. Mas esses mesmos manuais nos aconselham a perseguir obstinadamente nossos sonhos. Por isso, na dúvida, vá ao médico e – enquanto espera a consulta – faça um orçamento sem compromisso de quanto custaria uma viagem espacial. Nunca se sabe.

Este longo preâmbulo foi só para dizer que estabeleci ao menos uma meta para o ano novo (e resolvi começar antes que ele chegasse): voltar a ter um blog. Quem sabe no fim do ano que vem não rola uma retrospectiva.

Foto: Réveillon do Morro/Divulgação