'Meu nome é Dolemite'

Esteticamente impecável, filme retrata história de ator que foi ícone do cinema afro-americano dos anos 1970 e ajuda Eddie Murphy a resgatar sua carreira.

Desde 2006, quando interpretou o cantor de soul James “Thunder” Early no drama musical ‘Dreamgirls’, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, Eddie Murphy se prestou a papéis bem aquém do talento que ele já tinha demonstrado. A única exceção ficou por conta da dublagem do burro de Shrek.

A carreira parecia fadada a repetir a fórmula que deu certo em ‘Professor aloprado’: interpretar vários personagens em um mesmo filme. Mas, sem um bom roteiro, testemunhamos a derrocada de Murphy em bombas como ‘Norbit, uma comédia de peso’ e ‘O grande Dave’. Felizmente, veio também do humor a sua tábua de salvação. E ela atende pelo nome de Dolemite.

Na Los Angeles dos anos 1970, o comediante Rudy Ray Moore decidiu apostar todo seu dinheiro e prestígio para fazer um longa-metragem. Ele já era famoso pelas apresentações em boates e pelos discos com músicas cômicas e piadas repletas de vulgaridades e palavrões quando resolveu brilhar também no cinema. É essa empreitada que está recontada no filme ‘Meu nome é Dolemite’.

Com respeito e paixão pelo papel que interpreta, Eddie Murphy entrega ao espectador a melhor performance de sua carreira. Não é um personagem fácil. Ao mesmo tempo em que é um showman extravagante e exibicionista, Dolemite tem também profunda consciência do lugar que ocupa; ele é uma estrela e um exemplo para a comunidade negra dos Estados Unidos. Outro destaque do elenco é Wesley Snipes, que também andava em baixa e agora ganha novamente a chance de brilhar.

Os detalhes técnicos são bastante apurados. A direção de arte é impecável ao recriar a atmosfera dos anos 1970, os figurinos exploram o estilo inconfundível que marcou época e a trilha sonora embala tudo isso com o swing de hits de grandes nomes da música afro-americana, como Marvin Gaye. Somando esses elementos, o diretor Craig Brewer faz de ‘Meu nome é Dolemite’ não apenas um bom filme, mas um comovente tributo ao fenômeno cinematográfico da blaxploitation.

Foto: François Duhamel/Divulgação

'Frozen 2'

Roteiro fraco e recheado de clichês evita que animação crie identidade própria, mas personagens têm apelo suficiente para levar público de volta aos cinemas.

Com orçamento de milhões de dólares, empenho de centenas de profissionais e dispêndio de anos de trabalho, as animações estão entre as produções mais caras da indústria do cinema. Para minimizar riscos e maximizar lucros, os estúdios costumam apostar em remakes, reboots (quando uma saga é reiniciada) e continuações. É o caso de ‘Frozen 2’, sequência do enorme sucesso lançado pela Disney em 2013. Para efeito de comparação, ‘Frozen: uma aventura congelante’ custou US$ 150 milhões e arrecadou mais de US$ 1,2 bilhão no mundo todo. O segundo volume teve o mesmo orçamento e já ultrapassou o anterior em bilheteria, que vai aumentar mais, já que o filme acabou de estrear no Brasil e ainda está em cartaz em muitos países.

Na nova empreitada, Anna, Elsa, Kristoff, o boneco de neve Olaf e a rena Sven precisam desvendar um antigo mistério que envolve o reino de Arendelle e os poderes mágicos de Elsa. ‘Frozen 2’ é visualmente mais interessante e o roteiro tenta ser profundamente mais filosófico (Olaf, por exemplo, passa todo o tempo questionando a própria existência), mas apela para clichês como a importância da convivência pacífica entre os povos e a harmonia entre os elementos da natureza. Não fosse a falta do “coração”, Elsa poderia ser uma espécie de ‘Capitão Planeta’.

A aventura – presente até no título do episódio inaugural – é frouxa e sem clímax. Os conflitos são resolvidos tão rapidamente que mesmo as perdas, essenciais para a jornada do herói (no caso, heroínas), não são devidamente sentidas pelos protagonistas nem pelos espectadores. E há ainda personagens inexplicáveis, como o espírito do vento Gale, o cavalo – feito de água, mas que não é marinho – Nokk e a salamandra Bruni, cuja única função é ser fofa.

Os momentos mais inspirados do texto são de Olaf (brilhantemente dublado por Fábio Porchat, na versão em português), que serve como alívio cômico da trama. Suas questões existenciais, seu saber enciclopédico e suas tiradas conseguem arrancar muitas risadas. E cabe a ele protagonizar a melhor cena da animação: o momento em que resume os acontecimentos do primeiro filme. Na cena pós-crédito, esse truque se repete com a mesma eficiência para condensar a história que acabou de ser exibida.

Impossível falar do universo de Frozen sem lembrar de ‘Let it go’, uma boa canção que cansou pela quantidade de vezes que foi tocada. Menos grudenta e mais soturna, ‘Into the unknown’ até tenta vencer pelo cansaço (sua melodia é executada em diversos momentos), mas passa bem longe de grudar nos ouvidos pelos próximos meses. A versão para o português, ‘Minha intuição’, é ainda mais malsucedida do que ‘Livre estou’ havia sido. Para completar, a trilha sonora traz músicas pouco inspiradas em cenas que parecem clipes bregas de grupos pop adolescentes dos anos 1990.

A pretensão de ser mais denso esbarra tanto na fraqueza da estrutura narrativa quanto na profunda dependência da obra anterior, sobretudo de seus personagens. Por vezes, os diretores Chris Buck e Jennifer Lee até tentam se descolar e buscar uma identidade própria para a continuação, mas o estrondoso sucesso do primeiro volume parece chamá-los de volta à zona de conforto e novas sensações são rapidamente bloqueadas. O maior defeito de ‘Frozen 2’, com o perdão do trocadilho, é ser excessivamente frio.

Imagem: Disney/Divulgação

'História de um casamento'

Filme do diretor e roteirista Noah Baumbach se estabelece como uma das melhores produções recentes sobre o término de uma relação amorosa.

Não se deixe enganar pelo título, ‘História de um casamento’ não é um filme sobre um amor bem-sucedido. Na primeira cena, até dá a entender: a atriz Nicole (Scarlett Johansson) e o dramaturgo Charlie (Adam Driver) listam as qualidades um do outro. Mas logo o espectador vai descobrir que as declarações, na verdade, eram parte de um exercício proposto por um terapeuta que tentava mediar a separação entre eles.

Em nome da história que viveram, os dois decidem pôr fim ao casamento de forma amigável, mas faltou combinar com os advogados. O que seria um simples acordo judicial vai se tornando um imbróglio jurídico e financeiro (o didatismo ao explicar os custos de um processo deste tipo nos Estados Unidos, ainda que necessário, quebra um pouco o ritmo da narrativa) de consequências desastrosas.

Cada nova etapa judicial aumenta o desgaste da relação entre Nicole e Charlie. E, na melhor cena do filme, o que seria uma simples conversa descamba para uma discussão acalorada em que ambos despejam rancores e decepções na cara um do outro. No instante seguinte, os protagonistas se dão conta de que foram longe demais e se arrependem do que disseram; se já não há como desdizer o que foi dito, tampouco sobra espaço para tentar reconstruir uma relação em frangalhos.

O diretor e roteirista Noah Baumbach (‘A lula e a baleia’ e ‘Frances Ha’) se esforça para não defender nenhum protagonista, mas pende para o homem. Duas explicações são possíveis. A primeira e mais óbvia delas diz respeito ao gênero, e tende a transformar Charlie em vítima. A segunda é a experiência pessoal do realizador, que se separou da atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho, hoje com nove anos de idade. O traço autobiográfico se insinua ainda mais diante das profissões dos protagonistas.

Mais triste do que a inevitabilidade do fim do relacionamento é perceber como o filho Henry (Azhy Robertson) se torna um objeto de disputa. Ainda que pareçam amá-lo muito e com sinceridade, tanto Charlie quanto Nicole fazem do menino uma propriedade e uma forma de marcar território, onde ficar com a guarda significa uma vitória sobre o outro no processo de litígio.

O filme tem pouca ação e muitos diálogos. O roteiro – honesto com os sentimentos de seus personagens – é um prato cheio para o trabalho dos atores. Scarlett Johansson interpreta seu melhor papel desde ‘Vicky Cristina Barcelona’, mas é Adam Driver (‘Infiltrado na Klan’) quem domina a cena, imprimindo diversos estados emocionais em pouquíssimos gestos. Há ainda a luxuosa participação de Laura Dern, que dá vida à advogada de Nicole, Nora Fanshaw.

Se não chega a ser um estudo definitivo sobre as relações matrimoniais, como foi ‘Cenas de um casamento’, lançado pelo cineasta sueco Ingmar Bergman em 1974, ‘História de um casamento’ se estabelece como um dos melhores filmes recentes sobre o amor, ou sobre o fim dele.

Foto: Wilson Webb/Divulgação

‘Dois Papas’

Retratando duas visões de mundo e de fé diametralmente opostas, filme faz defesa necessária da importância do diálogo em tempos de tamanha intolerância.

Em pleno carnaval de 2013, uma notícia surpreendeu o mundo: prestes a completar oito anos de pontificado, o Papa Bento XVI anunciou que deixaria a liderança da Igreja Católica. Foi a primeira vez em que isso aconteceu em quase seis séculos. O motivo alegado foi a saúde frágil, que o impedia de cumprir os muitos compromissos religiosos, mas escândalos que ficaram conhecidos como ‘Vatileaks’ podem ter contribuído (ou mesmo provocado) a renúncia.

A tensão que pairou sobre o Vaticano à época é um dos temas abordados em ‘Dois Papas’, produção da Netflix dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’). O filme imagina uma conversa entre o ainda Papa Bento XVI e o então cardeal e arcebispo de Buenos Aires e futuro Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, no início de 2013. O argentino teria ido à Santa Sé para apresentar sua renúncia do posto de cardeal. Ele queria retomar as atividades paroquiais.

O roteiro de Anthony McCarten (‘A hora mais escura’ e ‘A teoria de tudo’) é engenhoso ao trabalhar com as especulações sobre os bastidores que levaram à ascensão do Papa Francisco. O texto tem uma fluidez raramente vista no cinema e se concentra no embate entre dois homens com visões bastante diferentes sobre a vida e a fé, mas que comungam da crença de que a Igreja precisa expiar a crise profunda que enfrenta se quiser se manter relevante. Ainda que divirjam quanto aos métodos, os dois religiosos se mostram sempre disponíveis ao diálogo e capazes de admirar um ao outro.

Se, por um lado, demonstram grandeza, por outro, os protagonistas também revelam suas fragilidades. E nos lembram de que são humanos. ‘Dois Papas’ assinala – ainda que rapidamente – o conservadorismo de Bento XVI, que condenava com veemência o divórcio, a homossexualidade e o aborto, ao mesmo tempo em que era condescendente com os escândalos de abuso sexual e pedofilia na Igreja Católica, e o passado controverso de Bergoglio em relação à ditadura que deixou milhares de mortos e desaparecidos na Argentina entre os anos de 1976 e 1983.

No entanto, de nada adiantaria um texto inspirado – que consegue passear com leveza e elegância entre o drama e o humor – sem o talento de Anthony Hopkins (‘Hannibal’) e Jonathan Pryce (‘A esposa’). Ainda que sejam britânicos interpretando um alemão e um argentino, uma escolha bastante criticada, os veteranos dão mais uma prova de seus talentos. Enquanto Hopkins traduz o ar mais circunspecto e a fragilidade física de Bento XVI até pelo modo como respira, Pryce confere mais vivacidade a um descontraído Bergoglio.

Amparado pela belíssima fotografia do parceiro habitual César Charlone (‘Cidade de Deus’ e ‘Ensaio sobre a cegueira’) e por uma primorosa direção de arte, sobretudo nas reconstituições de época, Fernando Meirelles faz contrastar a imponência dos cenários do Vaticano com os mínimos e frágeis gestos e olhares dos protagonistas. Independentemente de qual seja a fé do espectador, ‘Dois Papas’ é uma bênção bem-vinda e necessária em tempos de tamanha intolerância.

Foto: Peter Mountain/Divulgação

'Minha mãe é uma peça 3'

Filme confirma a habilidade de Paulo Gustavo em fazer rir e promete levar multidão ao cinema, mas trama episódica demais bloqueia a emoção.

Poucos atores na atualidade são garantia de sucesso no cinema. Um dos principais nomes a figurar nesta seleta lista é Paulo Gustavo, que chega às telas novamente à frente da personagem que o consagrou: dona Hermínia. Agora, ela terá de lidar com a síndrome do ninho vazio, já que Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier) deixaram a casa da mãe para formar suas próprias famílias. Além de sogra, a moradora mais famosa de Niterói descobre ainda que vai ser avó novamente.

O roteiro de ‘Minha mãe é uma peça 3’ – assinado por Paulo Gustavo, Fil Braz e Susana Garcia, que também dirige a produção – segue o modelo dos dois episódios anteriores: sem um arco dramático bem definido (com princípio, meio e fim), as cenas funcionam como esquetes de programa de humor. Um exemplo é a sequência em Los Angeles, que nada agrega à trama. Por outro lado, ficou de fora qualquer relação com as duas primeiras empreitadas; não se explica o que aconteceu com o programa que dona Hermínia passou a apresentar no segundo filme.

As histórias giram em torno de temas domésticos com os quais todos nós estamos familiarizados em alguma medida e, por isso, o espectador é rapidamente capturado e se identifica com muitas situações retratadas, como as brigas entre as irmãs e a ceia de Natal. Mas o enredo diluído em muitas possibilidades não desenvolvidas (fala-se sobre casamento gay, gravidez acidental e envelhecimento sem grande profundidade em nenhum dos assuntos) privilegia o riso e evita a emoção.

Ainda que tenha bons atores no elenco, como Herson Capri e Alexandra Richter, todos os holofotes se voltam para Paulo Gustavo. Presente em todas as cenas e com domínio absoluto da carismática, verborrágica e desbocada personagem principal, ele dispara com eficiência uma metralhadora de piadas e faz ‘Minha mãe é uma peça 3’ entregar ao público justamente o que promete: boas risadas.

Foto: Marco Antônio Teixeira/Divulgação