‘Eu, Daniel Blake’

Até que ponto a burocracia é necessária para organizar a sociedade? Quanto um cidadão é capaz de resistir para manter a sua individualidade frente a milhões de habitantes? Em ‘Eu, Daniel Blake’, um carpinteiro (Dave Johns) luta para conseguir sobreviver com dignidade depois de ter sofrido um grave ataque cardíaco. Embora a médica particular diga que ainda não está apto a voltar ao trabalho, a agência de seguridade social afirma que ele não preenche os requisitos necessários para receber o auxílio-doença.

Começa, então, uma verdadeira saga na busca por direitos. Depois de receber uma carta com a negativa, Daniel liga para a agência. Após esperar por quase duas horas na linha (e podendo ser cobrado por isso), é informado de que a tal correspondência não é suficiente: é preciso esperar por um telefonema para dar entrada no recurso. Precisando de dinheiro e sem poder trabalhar, o carpinteiro decide tentar o seguro-desemprego. Mais um périplo se inicia, agora em outro departamento estatal.

Na segunda tentativa, Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira também em busca de ajuda do governo para conseguir criar seus dois filhos, também ela vítima da burocracia. Os três acabaram de se mudar de um albergue para desabrigados em Londres para um alojamento em Newcastle, cidade no nordeste da Inglaterra. Como a nova casa precisa de muitos reparos e a família não tem a quem recorrer, Daniel se oferece para ajudar.

O roteiro de Paul Laverty é de enorme crueza, na melhor acepção do termo. Sem excessos, o drama se desenvolve por completo em uma hora e quarenta de projeção, concentrando-se em mostrar como Daniel e Katie servem de apoio um para o outro enquanto lutam contra um poderoso aparelho estatal que parece sempre orientado a massacrar seus cidadãos, impelindo-os a desistir da busca por um suporte do governo.

A simplicidade do texto se torna mais rica através olhar doce e atento do diretor britânico Ken Loach. Lançado no Brasil em 2017 e disponível no catálogo da Netflix, ‘I, Daniel Blake’ (título original desta coprodução entre Reino Unido, França e Bélgica) avança lentamente e sem sobressaltos, mas cada pequeno gesto ajuda a compreender o que move o protagonista. Na busca por manter a dignidade e na recusa por se tornar um número, Daniel Blake poderia ser qualquer um de nós. Tudo o que ele queria era ser um cidadão. Nem mais, nem menos.

Foto: Joss Barratt/divulgação

‘Com amor, Van Gogh’

Inspirados pelas obras e pela técnica de Vincent Van Gogh, mais de cem artistas trabalharam durante seis anos em uma animação. Lançada em 2017, ‘Com amor, Van Gogh’ narra a jornada de Armand Roulin (Douglas Booth) para cumprir um pedido do pai, o carteiro Joseph Roulin (Chris O’Dowd), que era amigo do pintor: entregar a Theo Van Gogh (Cezary Lukaszewicz) uma das últimas cartas escritas pelo irmão artista. Na empreitada, Armand acaba descobrindo detalhes sobre a vida e a morte de Vincent, cujo talento só foi reconhecido postumamente.

O esmero da produção – coproduzida por Polônia e Reino Unido e dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman – salta aos olhos já nos créditos de abertura. Trata-se do primeiro longa-metragem da história do cinema todo elaborado com pinturas feitas a mão. Para recriar o estilo inconfundível do artista holandês, a equipe de pintores se valeu das obras de Van Gogh para criar os cenários e de ilustrações feitas para reproduzir as cenas filmadas com atores. O resultado, tanto das passagens coloridas quanto dos flashbacks em preto e branco, é simplesmente arrebatador.

Contudo, de nada adiantaria tanta beleza em um conteúdo vazio, que tampouco faria jus ao trabalho de Van Gogh, um artista que começou a pintar tardiamente para os padrões da época (aos 28 anos) e cujo temperamento arredio o levou a ser considerado louco, levando-o a uma morte prematura, por suicídio, aos 37 anos, em 1890. Embora sua carreira não tenha durado nem dez anos, foi bastante produtiva: cerca de 800 obras.

Obviamente, uma biografia tão singular quanto essa já deu origem a inúmeros filmes, como ‘Sede de viver’, dirigida por Vincent Minnelli e protagonizada por Kirk Douglas nos anos 1950, e o recente (e posterior ao desenho) ‘No portal da eternidade’, comandada por Julian Schnabel e estrelada por Willem Dafoe em 2018. Ambos renderam aos atores indicações ao Oscar.

A animação, porém, desloca levemente o protagonismo para Armand Roulin, incumbido de entregar a correspondência à família do pintor. A cada novo encontro com alguém que conviveu com o artista em Auvers-sur-Oise, vilarejo que fica uma hora ao norte de Paris, o jovem vai montando o quebra-cabeça da personalidade de Van Gogh e acaba questionando se ele realmente teria cometido suicídio com um tiro na barriga (uma forma bastante incomum de tirar a própria vida) ou teria sido assassinado.

A suspeição levantada pelo roteiro, escrito pela dupla de diretores em parceria com Jacek Dehnel, ajuda a movimentar a trama, mas o espectador que estiver à espera de uma conclusão vai acabar frustrado ao fim de uma hora e meia de projeção. ‘Loving Vincent’, no título original, é uma animação que está menos preocupada em reescrever a biografia de Vincent Van Gogh e mais interessada em celebrar, com uma estética impecável, a genialidade de um dos maiores e mais conhecidos pintores da história da arte.

Imagem: divulgação

‘O último cine drive-in’

Durante a pandemia do novo coronavírus, um tipo de cinema que muitos acreditavam já extinto voltou ao noticiário, ao imaginário dos espectadores e a muitas cidades. O conceito do drive-in é simples: basta estacionar o carro em uma vaga diante da tela e sintonizar o rádio em determinada frequência (ou, de forma mais moderna, o celular) para ver e ouvir o filme. Em tempos de isolamento, é a única forma possível de ir efetivamente ao cinema.

Diante do estranho momento em que vivemos, lembrei-me de ‘O último cine drive-in’, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta brasileiro Iberê Carvalho, lançado em 2015, e que desde então figurava na minha lista de produções a assistir. Roteirizado pelo próprio Iberê e por Zé Pedro Gollo, o filme acompanha a volta de Marlombrando (Breno Nina) a Brasília, cidade onde cresceu e onde agora a mãe, Fátima (Rita Assemany), está internada com uma grave doença. Sem ter a quem recorrer, ele se vê obrigado a procurar o pai, Almeida (Othon Bastos), dono do último drive-in do país, ameaçado tanto pela falta de público quanto pela especulação imobiliária.

O tributo prestado ao cinema e ao seu poder de encantamento é óbvio, evidenciado pelas muitas referências que a direção de arte põe em cena, como cartazes de clássicos como ‘Cinema paradiso’ e ‘O poderoso chefão’. Mas, para além da homenagem metalinguística, o filme aborda a decadência e a finitude, tanto dos corpos físicos quanto das interações interpessoais e dos espaços. Como na relação entre pai e filho, pouco é dito e quase tudo é subentendido. A economia do roteiro abre espaço para que a compreensão se dê mais pelos silêncios e pelas ações do que pelas palavras.

Não significa dizer, com isso, que seja um filme de difícil leitura. Muito pelo contrário. A narrativa é simples a ponto de se tornar previsível. Desde o início, é possível deduzir onde a trama vai desaguar uma hora e quarenta minutos depois. A falta de surpresa, no entanto, não chega a ser um demérito, porque ‘O último cine drive-in’ parece mais interessado em observar as interações humanas e o modo como os personagens vão se moldando uns aos outros. E, para tal, se vale de um elenco bastante coeso.

Foto: divulgação

O que eu (acho que) achei de ‘Dark’

Antes de mais nada, preciso dar dois avisos importantes. O primeiro deles é que este texto pode conter algum spoiler. E o segundo é que – até o momento – eu só vi as duas primeiras temporadas da série ‘Dark’. Logo, se você também ainda não assistiu à terceira, pode continuar lendo sem se preocupar se eu vou ou não revelar algum ponto importante da trama, embora seja bem improvável que eu o faça. E logo você entenderá por que digo isso.

Comecei a assistir à série alemã, produzida pela Netflix, por indicação de muitos amigos e pelo grande burburinho que ela tem provocado nas redes sociais desde que a terceira temporada foi lançada, no fim de junho. A sinopse oficial diz que quatro famílias iniciam uma busca desesperada por respostas quando uma criança desaparece e um complexo mistério envolvendo três gerações começa a se revelar. Tudo acontece em Winden, uma pequena cidade do sudoeste da Alemanha, próxima à fronteira com a França.

Como bem prometeu a sinopse, o drama de ficção científica criado pela dupla Baran bo Odar e Jantje Friese é realmente complexo, porque há ações que atravessam as três temporalidades e são explicadas por conceitos que vão muito além da minha capacidade de compreensão e, creio, de muitos espectadores. Sem entender muito bem os paradoxos científicos, que parecem convincentemente explicados por diversos personagens ao longo da narrativa, eu apenas sigo assistindo aos episódios, duvidando da minha própria capacidade cognitiva e torcendo para que em algum momento tudo realmente faça sentido.

O fato de o elenco ser desconhecido também contribui para a confusão mental, embora seja absolutamente necessário reconhecer o brilhante trabalho de casting. São cerca de dez crianças que têm correspondentes adolescentes, adultos e, em alguns casos, idosos. E chega a ser assombroso como a produção conseguiu encontrar tantos atores parecidos com suas versões mais jovens ou mais velhas. Por outro lado, muitos são parecidos entre si, o que me fez passar um bom tempo tentando decifrar as correspondências. Pode ser que minha memória visual não seja tão boa, mas os únicos elementos que eu reconheço logo de cara são o Jonas, quando está com o casaco amarelo, e o chocolate Raider, que virou Twix no início dos anos 1990.

Mesmo tendo mais perguntas do que respostas, sem acreditar na possibilidade de viagens intertemporais e sem saber se sou realmente capaz de compreender as explicações dadas (ou seriam criadas?) para os fenômenos abordados, insisto em continuar assistindo. Porque sou masoquista e gosto de me flagelar meu cérebro e me sentir meio burro? Não! Porque ‘Dark’ é uma produção esteticamente interessante e com um elenco excelente, embora não me sinta plenamente capaz de avaliar atuações em alemão. Apesar dos desafios de entendimento que me impõe, acho que a série faz jus ao sucesso que tem feito. Mas é tudo achismo meu mesmo, sem qualquer comprovação científica.

Foto: Stefan Erhard/divulgação

‘Wasp network: rede de espiões’

Histórias de espionagem sempre são um prato cheio para o cinema, não importando o gênero. E não é de hoje. Podem ser filmes de ação, como as séries ‘007’ e ‘Missão impossível’. Podem ser dramas, como ‘O bom pastor’ e ‘O espião que sabia demais’. Ou até comédia, como ‘Johnny English’ e ‘Austin Powers’.

Muitas das narrativas são baseadas em histórias reais. É o caso de ‘Wasp network: rede de espiões’, disponível no catálogo da Netflix desde junho deste ano. O longa-metragem de pouco mais de duas horas de duração foi inspirado no livro ‘Os últimos soldados da Guerra Fria’, do jornalista e escritor brasileiro Fernando Morais, e se apresenta como um suspense político.

Escrito e dirigido pelo francês Olivier Assayas (de ‘Carlos, o chacal’ e ‘Personal shopper’), o filme conta a história do piloto de avião René González (Edgar Ramírez), que deixa a mulher (Penélope Cruz) e a filha pequena em Cuba para tentar recomeçar a vida nos Estados Unidos no início dos anos 1990. Lá, acaba entrando para uma rede de espionagem pró-Fidel Castro, cujos agentes se infiltram em grupos que visam atacar a ilha socialista.

Tramas que envolvem espionagem precisam ser muito bem roteirizadas para que se compreenda com clareza a posição dos envolvidos. Infelizmente, não é o que ocorre em aqui. Em muitos momentos, é difícil saber de que lado determinada figura está ou se a atitude por ela tomada naquele momento específico é, na verdade, um blefe. Para tornar tudo ainda mais confuso, há um excesso de personagens que surgem sem qualquer contextualização.

O defeito mais imperdoável, porém, é a falta de clímax. Nenhuma cena do filme é capaz de arrancar do espectador mais do que um bocejo e tampouco as supostas cenas de ação conseguem se livrar da monotonia. Chama a atenção que um produtor com a experiência de Rodrigo Teixeira tenha topado a empreitada e que um roteiro tão frágil tenha reunido um bom elenco, que – além dos já citados Edgar Ramírez e Penélope Cruz – inclui ainda Wagner Moura, Ana de Armas e Gael García Bernal.

Foto: Sophie Köhler/divulgação