Apresentação inconsciente

Travei.
Cinco minutos não são nada.
Passam num piscar de olhos.
Não, exagero. Ninguém leva cinco minutos piscando.
Mas cinco minutos passam depressa.
Bem, talvez não.
Em cinco minutos, dá para fazer um miojo.
Dá para ser abatido neste Rio tão violento.
Deve dar para pegar Covid também; está todo mundo pegando.
Cinco minutos são uma eternidade esperando o ônibus num ponto vazio.
E passam ainda mais devagar se vêm dois numa moto.
Cinco minutos duram um esquete do Porta dos Fundos.
Viu como dá para rir também em cinco minutos?
E até chorar de rir, se o vídeo for mesmo muito engraçado.
O que mais eu consigo fazer em cinco minutos?
Dá com certeza para comer uma fruta.
Uma maçã, umas uvas, uma banana.
E até para engolir a janta, se houver necessidade.
Em cinco minutos, dá para tomar uma ducha,
secar o corpo bem rapidinho, mas deixar úmidos os dedos dos pés.
Mas para me apresentar não deu, não.
Nem disse meu nome.
Porque eu fugi de mim.
Pelo menos por cinco minutos.

OBS: Este poema é fruto de um exercício de criação, cujo desafio foi escrever uma apresentação de si mesmo em apenas cinco minutos, deixando livre o fluxo de consciência. Passado o tempo, foram corrigidos apenas erros de digitação e pontuação.

Imagem: Autorretrato I (1937-1938), de Joan Miró (1893-1983)

Múltiplos jogos

Às vezes, é preciso jogar o jogo…

Jogo de cartas
Tirou da manga um último trunfo:
– Essa é minha cartada final.

Jogo de cena
O ator brigou com o dramaturgo:
– Não ponha palavras na minha boca.

Jogo do bicho
Quebrei a banca porque sonhei com você:
– Deu cobra na cabeça.

Jogo de panelas
E eu que tinha jurado não me apaixonar de novo:
– Quer casar comigo?

Jogo de azar
Um dia o amor acabou:
– Game over!

Imagem: ‘Jogadores de cartas’ (1894-1895), de Paul Cézanne (1839-1906)