Carta ao meu eu jovem

Será que você ficaria muito decepcionado se eu dissesse que quase nada saiu como o planejado? Eu poderia dizer que o mundo de hoje não é nem de longe o mesmo da sua época, que foi até difícil de acompanhar como as coisas mudaram tão rapidamente. Embora seja verdade, fico com a estranha sensação de que estou tentando me justificar para mim mesmo, por mais que seja um eu do passado. De que adiantaria também acusá-lo de ser um sonhador e culpá-lo por ter sido tão idealista? Não é propriamente esta a natureza dos jovens e o que os adultos esperam que eles sejam?

Eu sei que era só brincadeira de criança quando você dizia que queria trabalhar naquele supermercado onde os funcionários usavam patins para percorrer os longos corredores ou que gostaria de ser caixa de banco, na infantil inocência de que o dinheiro seria seu. Nenhum adulto levou a sério as suas ideias de ser astronauta, veterinário ou artista. E olha que você tinha futuro, hein! Eram sonhos-clichês daquela fase da vida. Foi só bem depois, já mais velho, às vésperas do vestibular, que você decidiu o que queria para si. Tentei, na medida do possível, cumprir a rota traçada, mas ser bem-sucedido e incrivelmente rico antes dos 30 anos foi um pouco de exagero, não acha?

A esta ambiciosa ousadia, somou outra, mais pessoal: formar uma família. A demanda é justa, eu sei, mas o cronograma ficou apertado demais. Fazia parte do plano comprar a casa própria (com piscina e jardim, além inteira e modernamente mobiliada ao seu gosto, sem limites orçamentários) e casar por volta dos 25 anos. Os filhos – sim, no plural, porque você achava ter gêmeos uma ótima ideia – viriam aos 30. Se não me falha a memória, havia ainda uma idade reservada para comprar um cachorro, com o qual passearia na orla e beberia água de coco às quatro da tarde de um dia comum de semana, alheio às tradicionais rotinas de trabalho e ao trânsito caótico da cidade.

Encontrei a sua velha lista de desejos (ou seriam sonhos?) para o futuro no fundo de uma gaveta que, depois de muito tempo adiando a tarefa, decidi arrumar. Com todo respeito, confesso que dei boas risadas do quanto você foi ingênuo fazendo previsões que muito dificilmente se realizariam. De fato, não cumpri a grande maioria delas. E, permita-me a franqueza, não lamento nem um pouco. Fiz desvios ao longo do caminho, ora tomando atalhos, ora caminhos mais longos. Assim cheguei até aqui, em paz com as minhas escolhas e atualizando a lista de desejos para os próximos anos, que talvez meu futuro eu nem vá cumprir.

Imagem: ‘O abacaxi’ (2010), de Silvio Alvarez (1966)

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