O gato malandro

No final do ano passado, por volta do período de festas, surgiu um gato preto e branco na casa de praia onde passamos o réveillon e onde meus pais vêm passando estes estranhos tempos de isolamento social. Costumávamos vê-lo andar pelo muro ou deitado em algum canto na lateral menos acessada da varanda, sempre o mais distante possível de humanos e cachorros que porventura viessem a circular por ali. Nunca deu a ninguém qualquer tipo de intimidade; fugia ao menor sinal de aproximação.

Era de rua, mas vinha à nossa casa com alguma frequência. Um dia, o larápio foi pego em flagrante comendo a ração do cachorro. O fato de que o gato talvez passasse fome amoleceu o coração dos meus pais, que passaram a colocar comida sempre que o viam chegar no final da tarde. Se havia churrasco, separavam um pedaço de carne. Se fosse peixe, guardavam-lhe um pouco. Para o caso de o cardápio não apetecer ou ser inadequado, como uma lasanha, compraram ração de gato e até sachê. Tudo em um comedor também adquirido exclusivamente para ele.

Continuava arisco a contatos mais próximos, mas já era como se fosse de casa e, por isso, merecia um nome. Lembrei-me, então, de um podcast do canal Não inviabilize em que Déia Freitas conta a história de um homem que, avesso a gatos, acabou por adotar e cuidar com todo o zelo de um que havia fugido e parado no quintal dele. Lá, foi batizado de Clebinho, porque o novo dono – a quem o bicho seguia como uma sombra – se chamava Cléber. Adotamos a mesma lógica e, como meu pai é Luiz, o gato virou Luizinho, embora não siga ninguém.

Luizinho não atende pelo nome e provavelmente nem sabe como se chama, tampouco as relações de parentesco que acabou ganhando. Para ele, pouco importa, seu principal interesse é saciar a fome. Além do jantar, que já havia se tornado um hábito, passou a aparecer também ao amanhecer, sendo recompensado com um pires de leite. O ritual é o mesmo: ele chega, observa a movimentação à distância e só se aproxima da comida quando julga que o garçom já está suficientemente longe.

Apaixonada por gatos desde a infância, minha mãe não se conforma; quer lamber a nova cria, mas Luizinho mostra os caninos e sopra o ar em tom de ameaça sempre que ela se aproxima demais. De longe, e sem sucesso, ela repreende o caçula rebelde. E todo dia repete o mesmo ritual, na esperança de que um dia – vencido pela insistência – o filho mais novo lhe permita alguma intimidade.

Por ora, sem êxito. Não sabemos nem mesmo se Luizinho é macho. Devido à distância que nos impõe e a posição sempre defensiva, não conseguimos ver-lhe o sexo. O vizinho, que até recentemente tinha um persa e que também ajudava a alimentar o vira-lata, também não sabe. Tudo o que nos contou foi que Luizinho morava com a mãe em uma casa abandonada nas redondezas, mas ficou órfão quando ela foi morta por cachorros da vizinhança.

Se, como diz o ditado, a esperança é a última que morre, minha mãe segue tentando se aproximar do caçula felino, que está até mais gordinho. Enquanto isso, Luizinho vive na malandragem: aparece para o café da manhã e para o jantar, dorme confortavelmente na grama ou sobre o muro, não interage com ninguém, nem agradece a comida. Depois, bem alimentado, ganha o mundo. Não é para isso que se criam os filhos?

Imagem: ‘The bachelor party’ (1939), de Louis Wain (1860-1939)

2 comentários sobre “O gato malandro

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