Patins e cavalo

Fui uma criança tranquila, dessas que abrem o queixo na calçada por não querer dar a mão para a mãe aos três ou quatro anos de idade, que arrancam a cabeça do dedão jogando bola no chão de pedra portuguesa ou que são frequentadoras assíduas de clínicas ortopédicas, onde engessaram cada dedo mínimo das mãos pelo menos umas três vezes. Fora as torções, os hematomas e outros ralados de menor importância.

Dia desses, Antonio Carlos Sarmento contou no blog Crônicas e Agudas um acidente sofrido com um carrinho de rolimã e me fez lembrar de uma história parecida que aconteceu comigo. Se a memória não me trai, o que é bem possível, foi durante as férias de verão em algum ano da década de noventa. Naquela tarde, a criançada se reuniu na casa de uma amiga que morava em um condomínio fechado, com ruas pouco movimentadas, o que era ideal para andar de patins.

Subimos e descemos a ladeira inúmeras vezes sem qualquer contratempo. Até o momento em que, não sei de onde, surgiu um cavalo para atravessar a pista bem na hora em que eu já tinha começado a descida. Sem ter como parar ou saber o que fazer, a única solução que encontrei para não bater de frente com ele foi me jogar no chão. Férias de verão, Rio de Janeiro, asfalto fervendo… Dá para imaginar que todo o couro da perna direita ficou por ali mesmo: o ralado indo do ponto em que terminava o short até o início do meião sob o patins. Mas a brincadeira continuou até o fim da tarde.

À noite, a vizinha que tinha reunido a criançada não sabia o que dizer à minha mãe quando lhe devolveu o filho com a perna em carne viva e cheia de brita. Para a sorte e alívio dela, minha mãe também tinha sido uma dessas crianças tranquilas e entendeu que a vizinha não teve culpa. Para o meu azar, meu pai estava recém-operado da coluna e quem lhe fazia os curativos com álcool iodado e éter era a esposa.

Todo um arsenal de maldades estava preparado contra mim. E eu dei brecha para que fosse usado, já que – descumprindo as orientações – tomei banho e não lavei direito a perna. Foi adotado o tratamento de choque. Não me lembro da cena (o trauma deve ter sido tanto que apaguei da memória), mas contam que eram quatro pessoas para segurar uma criança de uns oito anos de idade que esperneava bastante e urrava como se estivesse sendo escalpelada.

Não sei se algum vizinho se compadeceu da minha dor, creio que não, porque nenhum conselheiro tutelar veio ao meu socorro. Fato é que a tortura deu certo: no dia seguinte, o machucado já tinha formado casquinha. Hoje em dia, não há uma linha sequer na perna como cicatriz. Só mais uma história da criança tranquila que eu um dia fui.

Imagem: autor desconhecido

Os pais da língua

“De novo Dabondi quer ajudar Andrea a superar a sua ignorância. E são muitos os desconhecimentos do capitão português. Desconhece, por exemplo, que o vento já foi um pássaro. Disso sabemos nós, negros Vatxopi. São verdades que aprendemos desde crianças. O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta. Porque já foi um pássaro. Em menina eu dizia que o vento ‘assopiava’. E o padre português Rudolfo Fernandes sorria com indulgência. Os idiomas são mulheres: namoram, engravidam e geram filhos.”

Mia Couto, in 'O bebedor de horizontes'

A passagem acima faz parte de ‘O bebedor de horizontes’, terceiro volume da trilogia ‘As areias do imperador’, em que Mia Couto ficcionaliza os últimos dias do segundo maior império da África comandado por um africano e que já comentei aqui recentemente. Recomendo fortemente a leitura aos que – como eu – gostariam de conhecer um pouco mais da história do continente e, mais especialmente, de Moçambique, país que guarda semelhanças com o Brasil que vão muito além do idioma em comum. E foi um belo acerto a decisão da Companhia das Letras de manter o texto no português moçambicano, tal qual originalmente escrito.

Como também já contei aqui, tenho o hábito de destacar com marca-texto amarelo e usando régua, para ficar bem certinho, os trechos que mais me chamam a atenção. Foram inúmeros os destaques feitos nos três livros que compõem a série. Parte deles por causa das belíssimas imagens criadas pelas lendas africanas. Parte pelas frases brilhantemente cunhadas por Mia Couto. E, não raro, como no exemplo que abre este texto, as duas se combinam, tornando tudo ainda mais delicioso de ler.

Contudo, não foi a bela história do vento-pássaro que me levou a evocar a passagem. Ou não apenas, já que um trecho deste quilate merece ser compartilhado em qualquer circunstância. Porém, o que me interessa agora é a frase sobre o idioma-mulher, capaz de namorar, engravidar e gerar filhos. De forma muito mais sofisticada, o escritor revigora o velho clichê de que a língua é um organismo vivo, fluido, mutável e dinâmico, sempre aberto a novas combinações e possibilidades. Um idioma jamais se encerra em si mesmo; ele tem ascendentes e – a depender da quantidade de falantes – descendentes.

As línguas mudam conforme as sociedades. Avançam e retrocedem segundo os usos dados a elas. Somos nós, portanto, os responsáveis pelo que são e pelo que virão a ser. Os idiomas têm tantos pais quanto falantes, com variados sotaques, diversas formas de pensar, inúmeras problematizações, muitos vícios e incontáveis erros. Por vezes, seus progenitores entram em litígio, cada um lutando pelo melhor modo de cuidar dos rebentos. Dá trabalho ensinar-lhes as boas maneiras gramaticais, zelar pela exatidão ortográfica, vigiar a coerência discursiva e punir quaisquer desvios morfossintáticos. Mas sempre valem o esforço e o sacrifício, como prova Mia Couto, um dos pais mais exemplares da língua portuguesa.

Imagem: ‘Pilha de romances franceses’ (1887), de Vincent Van Gogh (1853-1890)