O cansaço dos pontos

Cansa ser uma exclamação,
berrando de horror,
gritando de entusiasmo
ou impondo uma ordem.

Cansa ser uma interrogação,
eternamente em dúvida,
questionando a tudo
numa infinidade de porquês.

Cansa ser uma reticência,
por vezes interrompida,
outras em suspenso,
sem chegar a lugar algum.

Cansa ser uma vírgula,
enfileirando múltiplas ações,
apartando diferentes sujeitos
e abrindo explicações.

Cansa ser ponto e vírgula,
chamado quando as vírgulas não dão conta
e exausto de ter sempre que explicar
o próprio uso.

Cansa ser dois pontos,
porta-voz dos que falam,
antessala das enumerações,
abrindo-se a explicações.

Só o ponto final descansa.

Imagem: Shutterstock

O gato malandro

No final do ano passado, por volta do período de festas, surgiu um gato preto e branco na casa de praia onde passamos o réveillon e onde meus pais vêm passando estes estranhos tempos de isolamento social. Costumávamos vê-lo andar pelo muro ou deitado em algum canto na lateral menos acessada da varanda, sempre o mais distante possível de humanos e cachorros que porventura viessem a circular por ali. Nunca deu a ninguém qualquer tipo de intimidade; fugia ao menor sinal de aproximação.

Era de rua, mas vinha à nossa casa com alguma frequência. Um dia, o larápio foi pego em flagrante comendo a ração do cachorro. O fato de que o gato talvez passasse fome amoleceu o coração dos meus pais, que passaram a colocar comida sempre que o viam chegar no final da tarde. Se havia churrasco, separavam um pedaço de carne. Se fosse peixe, guardavam-lhe um pouco. Para o caso de o cardápio não apetecer ou ser inadequado, como uma lasanha, compraram ração de gato e até sachê. Tudo em um comedor também adquirido exclusivamente para ele.

Continuava arisco a contatos mais próximos, mas já era como se fosse de casa e, por isso, merecia um nome. Lembrei-me, então, de um podcast do canal Não inviabilize em que Déia Freitas conta a história de um homem que, avesso a gatos, acabou por adotar e cuidar com todo o zelo de um que havia fugido e parado no quintal dele. Lá, foi batizado de Clebinho, porque o novo dono – a quem o bicho seguia como uma sombra – se chamava Cléber. Adotamos a mesma lógica e, como meu pai é Luiz, o gato virou Luizinho, embora não siga ninguém.

Luizinho não atende pelo nome e provavelmente nem sabe como se chama, tampouco as relações de parentesco que acabou ganhando. Para ele, pouco importa, seu principal interesse é saciar a fome. Além do jantar, que já havia se tornado um hábito, passou a aparecer também ao amanhecer, sendo recompensado com um pires de leite. O ritual é o mesmo: ele chega, observa a movimentação à distância e só se aproxima da comida quando julga que o garçom já está suficientemente longe.

Apaixonada por gatos desde a infância, minha mãe não se conforma; quer lamber a nova cria, mas Luizinho mostra os caninos e sopra o ar em tom de ameaça sempre que ela se aproxima demais. De longe, e sem sucesso, ela repreende o caçula rebelde. E todo dia repete o mesmo ritual, na esperança de que um dia – vencido pela insistência – o filho mais novo lhe permita alguma intimidade.

Por ora, sem êxito. Não sabemos nem mesmo se Luizinho é macho. Devido à distância que nos impõe e a posição sempre defensiva, não conseguimos ver-lhe o sexo. O vizinho, que até recentemente tinha um persa e que também ajudava a alimentar o vira-lata, também não sabe. Tudo o que nos contou foi que Luizinho morava com a mãe em uma casa abandonada nas redondezas, mas ficou órfão quando ela foi morta por cachorros da vizinhança.

Se, como diz o ditado, a esperança é a última que morre, minha mãe segue tentando se aproximar do caçula felino, que está até mais gordinho. Enquanto isso, Luizinho vive na malandragem: aparece para o café da manhã e para o jantar, dorme confortavelmente na grama ou sobre o muro, não interage com ninguém, nem agradece a comida. Depois, bem alimentado, ganha o mundo. Não é para isso que se criam os filhos?

Imagem: ‘The bachelor party’ (1939), de Louis Wain (1860-1939)

Patins e cavalo

Fui uma criança tranquila, dessas que abrem o queixo na calçada por não querer dar a mão para a mãe aos três ou quatro anos de idade, que arrancam a cabeça do dedão jogando bola no chão de pedra portuguesa ou que são frequentadoras assíduas de clínicas ortopédicas, onde engessaram cada dedo mínimo das mãos pelo menos umas três vezes. Fora as torções, os hematomas e outros ralados de menor importância.

Dia desses, Antonio Carlos Sarmento contou no blog Crônicas e Agudas um acidente sofrido com um carrinho de rolimã e me fez lembrar de uma história parecida que aconteceu comigo. Se a memória não me trai, o que é bem possível, foi durante as férias de verão em algum ano da década de noventa. Naquela tarde, a criançada se reuniu na casa de uma amiga que morava em um condomínio fechado, com ruas pouco movimentadas, o que era ideal para andar de patins.

Subimos e descemos a ladeira inúmeras vezes sem qualquer contratempo. Até o momento em que, não sei de onde, surgiu um cavalo para atravessar a pista bem na hora em que eu já tinha começado a descida. Sem ter como parar ou saber o que fazer, a única solução que encontrei para não bater de frente com ele foi me jogar no chão. Férias de verão, Rio de Janeiro, asfalto fervendo… Dá para imaginar que todo o couro da perna direita ficou por ali mesmo: o ralado indo do ponto em que terminava o short até o início do meião sob o patins. Mas a brincadeira continuou até o fim da tarde.

À noite, a vizinha que tinha reunido a criançada não sabia o que dizer à minha mãe quando lhe devolveu o filho com a perna em carne viva e cheia de brita. Para a sorte e alívio dela, minha mãe também tinha sido uma dessas crianças tranquilas e entendeu que a vizinha não teve culpa. Para o meu azar, meu pai estava recém-operado da coluna e quem lhe fazia os curativos com álcool iodado e éter era a esposa.

Todo um arsenal de maldades estava preparado contra mim. E eu dei brecha para que fosse usado, já que – descumprindo as orientações – tomei banho e não lavei direito a perna. Foi adotado o tratamento de choque. Não me lembro da cena (o trauma deve ter sido tanto que apaguei da memória), mas contam que eram quatro pessoas para segurar uma criança de uns oito anos de idade que esperneava bastante e urrava como se estivesse sendo escalpelada.

Não sei se algum vizinho se compadeceu da minha dor, creio que não, porque nenhum conselheiro tutelar veio ao meu socorro. Fato é que a tortura deu certo: no dia seguinte, o machucado já tinha formado casquinha. Hoje em dia, não há uma linha sequer na perna como cicatriz. Só mais uma história da criança tranquila que eu um dia fui.

Imagem: autor desconhecido

Os pais da língua

“De novo Dabondi quer ajudar Andrea a superar a sua ignorância. E são muitos os desconhecimentos do capitão português. Desconhece, por exemplo, que o vento já foi um pássaro. Disso sabemos nós, negros Vatxopi. São verdades que aprendemos desde crianças. O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta. Porque já foi um pássaro. Em menina eu dizia que o vento ‘assopiava’. E o padre português Rudolfo Fernandes sorria com indulgência. Os idiomas são mulheres: namoram, engravidam e geram filhos.”

Mia Couto, in 'O bebedor de horizontes'

A passagem acima faz parte de ‘O bebedor de horizontes’, terceiro volume da trilogia ‘As areias do imperador’, em que Mia Couto ficcionaliza os últimos dias do segundo maior império da África comandado por um africano e que já comentei aqui recentemente. Recomendo fortemente a leitura aos que – como eu – gostariam de conhecer um pouco mais da história do continente e, mais especialmente, de Moçambique, país que guarda semelhanças com o Brasil que vão muito além do idioma em comum. E foi um belo acerto a decisão da Companhia das Letras de manter o texto no português moçambicano, tal qual originalmente escrito.

Como também já contei aqui, tenho o hábito de destacar com marca-texto amarelo e usando régua, para ficar bem certinho, os trechos que mais me chamam a atenção. Foram inúmeros os destaques feitos nos três livros que compõem a série. Parte deles por causa das belíssimas imagens criadas pelas lendas africanas. Parte pelas frases brilhantemente cunhadas por Mia Couto. E, não raro, como no exemplo que abre este texto, as duas se combinam, tornando tudo ainda mais delicioso de ler.

Contudo, não foi a bela história do vento-pássaro que me levou a evocar a passagem. Ou não apenas, já que um trecho deste quilate merece ser compartilhado em qualquer circunstância. Porém, o que me interessa agora é a frase sobre o idioma-mulher, capaz de namorar, engravidar e gerar filhos. De forma muito mais sofisticada, o escritor revigora o velho clichê de que a língua é um organismo vivo, fluido, mutável e dinâmico, sempre aberto a novas combinações e possibilidades. Um idioma jamais se encerra em si mesmo; ele tem ascendentes e – a depender da quantidade de falantes – descendentes.

As línguas mudam conforme as sociedades. Avançam e retrocedem segundo os usos dados a elas. Somos nós, portanto, os responsáveis pelo que são e pelo que virão a ser. Os idiomas têm tantos pais quanto falantes, com variados sotaques, diversas formas de pensar, inúmeras problematizações, muitos vícios e incontáveis erros. Por vezes, seus progenitores entram em litígio, cada um lutando pelo melhor modo de cuidar dos rebentos. Dá trabalho ensinar-lhes as boas maneiras gramaticais, zelar pela exatidão ortográfica, vigiar a coerência discursiva e punir quaisquer desvios morfossintáticos. Mas sempre valem o esforço e o sacrifício, como prova Mia Couto, um dos pais mais exemplares da língua portuguesa.

Imagem: ‘Pilha de romances franceses’ (1887), de Vincent Van Gogh (1853-1890)