Tempos mortos

Terminei de assistir a ‘The forty-year-old version’, disponível no catálogo da Netflix, com a sensação de que tudo ali passa bem arrastado. O filme – escrito, dirigido e protagonizado por Radha Blank – conta a história de uma dramaturga que despontou antes dos 30 anos e que agora está às voltas com a crise dos 40 que ela completará em breve. A personagem leva uma vida comum, que poderia ser a de qualquer um de nós, o que a aproxima do espectador. Talvez seja essa existência tão ordinária, banal mesmo, que cause a impressão de que o longa-metragem dure bem mais do que as suas duas horas.

Muitas das situações vividas por Radha (a protagonista leva o mesmo nome da atriz que a interpreta) beiram o tédio ou mergulham intencionalmente nele para dar corpo à interessante narrativa. São nestes momentos em que pouco ou nada parece acontecer que o tempo se dilata. Vale não só para a experiência de assistir ao filme em questão, mas também para diversos outros momentos da vida. Estamos sempre e desesperadamente em busca de eliminar os espaços vazios, os tempos mortos.

Na esmagadora maioria das vezes, nosso primeiro instinto é pegar o celular, mesmo sem procurar por nada específico. Destravamos a tela em busca de um socorro imaginário, tentando nos livrar da falta do que fazer e, em última instância, de nós mesmos e de pensamentos indesejados. Na ânsia de ressuscitar um tempo morto, matamos o tédio (ou assim acreditamos) rolando infinitamente as páginas das redes sociais, distribuindo curtidas e comentários a esmo e compartilhando memes divertidos e informações nem sempre tão relevantes.

Não fazer nada se tornou um pecado capital; antes incensado, o ócio agora é insolente, um mal a ser expurgado a qualquer custo. Sobram gurus e influenciadores digitais pregando que se acorde antes do galo, já com disposição para fazer atividade física, tomar um bom café da manhã e disparar alguns e-mails antes mesmo do nascer do sol. Ao longo do dia, as reuniões de trabalho devem vir em profusão. As refeições devem ser encaixadas onde, quando e se der. À noite, é preciso repassar o dia, preparar o seguinte e, ainda, estudar um assunto novo, ler um livro, assistir ao filme/série do momento ou ouvir um podcast. Dormir antes da meia-noite? Pura heresia!

Somos cobrados (e nos cobramos) o tempo todo para superar nossa capacidade produtiva e crucificados (também por nós mesmos) pelo período em que ficamos sem produzir. É preciso abandonar a sufocante falácia de que há como “encontrar” tempo para fazer tudo. Não há. Ou, pelo menos, eu desconheço que alguém tenha achado uma maneira de incluir algumas horas a mais nas vinte e quatro que os dias sempre tiveram. O ideal é apostar na moderação, um justo equilíbrio entre as atividades profissionais, sociais e de lazer. Fazer escolhas, portanto. Racionalizando a agenda, dá para reservar um tempo para tudo, inclusive, para não fazer nada.

Imagem: ‘A desintegração da persistência da memória’ (1954), de Salvador Dalí (1904-1989)

5 comentários sobre “Tempos mortos

  1. É muito verdade. Sou incapaz de acordar às 5h ou dormir muito depois das 22h, e o ócio me assusta todos os dias, apesar de eu saber que ele é necessário, especialmente para qualquer tipo de criação (ideias não vêm e, se vêm, não se amadurecem quando você está ocupado o tempo inteiro), ainda não aprendi a fazer as pazes com ele. E estou querendo muito ver esse filme, onde ele está disponível mesmo? Só li coisas boas dele!

  2. O mais assustador, penso, que em paralelo ao vazio existencial é o “mergulho” no vazio das redes – não gosto de generalizar, mas como raciocínio apenas – que introduz uma espécie de espiral sem fim, sem meio, sem absolutamente nada. De alguma maneira ainda que olhada pela superfície, existe uma igualdade “desigual” e as lutas entram em frequente disputa. O que é para ser ferramenta de apoio passa a ser contundente arma. A criatividade é apenas acessório em uma realidade virtual.

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