África desconhecida

Comecei a ler recentemente o primeiro volume da trilogia ‘As areias do imperador’, escrita pelo moçambicano Mia Couto e publicada no Brasil pela Companhia das Letras. Já falei aqui sobre Mia Couto, quando comentei a coletânea de peças ‘O terrorista elegante e outras histórias’, um projeto feito a quatro mãos com o angolano José Eduardo Agualusa. Naquela ocasião, em meados de abril do ano passado, reconheci meu quase completo desconhecimento da literatura africana em língua portuguesa, mesmo sendo ambos os autores dois dos meus preferidos.

A leitura de ‘Mulheres de cinza’, obra que inaugura a trilogia, é um primeiro passo para driblar minha ignorância. No romance histórico, Mia Couto retrata a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane e a tentativa dos portugueses de derrubar o imperador que ameaçava o domínio colonial no final do século XIX. O livro alterna as vozes da jovem africana Imani, que serve de intérprete ao sargento português Germano de Melo, e do próprio militar colonizador. Tudo isso, claro, com as frases perfeitamente lapidadas que são características do autor.

Além do deleite literário, tem sido um aprendizado descobrir parte da história moçambicana. São muitas as semelhanças entre Moçambique e Brasil, tendo ambos os países sido colonizados por Portugal. E, por isso, salta aos olhos que – mesmo tendo uma língua em comum – estejamos separados não apenas por oceanos reais, mas também por mares metafóricos. O mesmo vale para a Angola de Agualusa, que igualmente fala o mesmo idioma, e para os demais países do continente africano, que compartilham conosco um passado colonial de intensa exploração.

No Brasil, deveria ser um imperativo estudar a história da África, de onde saíram muitos de nossos ancestrais. O apagamento deliberado de nossas raízes promovido por séculos de escravização e de submissão colonial nos levou a uma contradição contra a qual temos a obrigação de nos rebelar: temos uma população de maioria negra que é tratada como minoria. Saber o que aconteceu no continente africano é fundamental para conhecer – e, mais, reconhecer – nossa própria história.

Imagem: ‘Fountain of blood’ (1967), de Malangatana Ngwenya (1936-2011)

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