As órbitas da lembrança

Não sonhei ser astronauta, diferentemente de muitas outras crianças. É comum que elas manifestem este interesse desde muito novas, em um misto de clichê e deslumbramento. Mas, para além da mera curiosidade científica, nunca me atraíram de verdade estrelas, galáxias e planetas. Talvez por isso eu não ligue para astrologia e signos, tampouco para franquias de enorme sucesso como ‘Star wars’ ou ‘Star trek’, das quais sinto infinita preguiça. Tenho claro na memória que quis ser cobrador de ônibus ou caixa de banco, na infantil ilusão de que todo o dinheiro movimentado me pertenceria. Na minha geração, também é fácil encontrar quem quisesse trabalhar em uma grande rede de supermercados cujos funcionários usavam patins. De forma igualmente vaga, minha lista de possíveis opções trazia veterinário, professor ou – genericamente – artista. Astronauta, não.

E olha que não foi falta de estímulo! Quem nasceu no período pós-Guerra Fria certamente foi bombardeado pela glamourização de uma das profissões mais restritas e exigentes do mundo, para a qual pouquíssimos de nós estariam habilitados. A imagem que os Estados Unidos – e Hollywood, em particular – passam, porém, é de que basta sonhar. Tem sido assim desde 1958, quando a então recém-criada Nasa recrutou seus primeiros astronautas. Era preciso ser piloto militar experiente em testes de voo, ter menos de 40 anos e estatura inferior a um metro e oitenta para se candidatar ao projeto Mercury.

Essa história está recontada em ‘Os eleitos’, série feita em parceria entre a National Geographic e a Disney, com produção do ator Leonardo DiCaprio, cujos capítulos têm sido lançados aqui no Brasil semanalmente no Disney+ desde o início de fevereiro. Trata-se de uma versão ficcional do best-seller homônimo de Tom Wolfe, publicado em 1979, que reconta os primeiros quinze anos do programa espacial americano. A disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética está lá, mas é só um pano de fundo para tratar de assuntos mais mundanos e bem mais interessantes, como a rivalidade entre os pilotos, o alcoolismo, a infidelidade conjugal, a solidão e a angústia. Temas com os quais nos conectamos muito mais facilmente.

Um dos temas é a ambição. Já no primeiro episódio, o veterano de guerra John Glenn (vivido por Patrick J. Adams) explica o desejo de se tornar o primeiro homem a ir ao espaço: entrar para a história. Ele queria figurar nas páginas de livros didáticos, sendo conhecido pelas futuras gerações de estudantes. O feito foi atingido em parte. Se o primeiro homem a ir ao espaço foi o cosmonauta soviético Iuri Gagarin, Glenn foi pioneiro em seu país: nenhum astronauta americano entrou na órbita da Terra antes dele. Em fevereiro de 1962, deu três voltas completas ao redor do planeta. Virou herói nacional. E não parou por aí. Foi ainda senador pelo estado de Ohio por quase 25 anos e, aos 77 anos, se tornou a pessoa mais velha a ir ao espaço, participante de um estudo para avaliar o comportamento de idosos em órbita.

John Glenn morreu em 2016, aos 95 anos. Pelo conhecido patriotismo americano, é natural supor que seu nome esteja nos livros didáticos. Será que com o destaque que ele gostaria? Difícil dizer, porque cada indivíduo tem suas próprias ambições e, ainda que semelhantes, as gradações podem variar. Vivemos uma existência muito curta em um mundo com sete bilhões de pessoas e marcar o próprio nome na história – ainda que seja um desejo comum a muitos de nós – é tarefa hercúlea. A questão de como e por quanto tempo seremos lembrados depende do tamanho da nossa ambição e, em igual proporção, do feito que seremos capazes de realizar.

Quando pequenos, sonhamos grande. Queremos abraçar o mundo com as pernas e receber o reconhecimento na mesma medida. Aos poucos, vamos mudando nosso entendimento sobre a fama (na boa acepção do termo) e redimensionando nossas expectativas. Precisamos (e queremos) entrar para os livros de história? Ou nos contentamos em servir de exemplo a nosso círculo mais próximo de convívio? Calibrar as próprias ambições é fundamental para levar uma vida mais tranquila. Nem todo mundo precisa entrar em órbita para ser lembrado.

Imagem: divulgação/Disney

3 comentários sobre “As órbitas da lembrança

  1. Eu tenho uma noção bem definida de sucesso e fama. Sou uma pessoa de sucesso. Meus objetivos são alcançados. Ao me propor algo, batalho por esse algo. E vencer os desafios, para mim, é sucesso. Fama já é outra coisa. Fama está além de mim. Está no outro que me olha e reconhece meu sucesso. Estou de boa com as vitórias obtidas até agora. Sem preocupação com a fama.
    Seu texto é muito bom. Faz pensar. Abraço.

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