Fim de ciclos

Acabei de assistir à quarta – e, ao que tudo indica, última – temporada de ‘Dix pour cent’. A série francesa, exibida por lá pela France 2 e disponível aqui no Brasil pela Netflix, acompanha o movimentado, tenso e nada monótono dia a dia de uma agência de talentos. Não é uma obra-prima, mas os episódios desenvolvem bem suas histórias, dosando habilmente drama e comédia, e dando oportunidade para que todo o elenco brilhe. Os destaques, porém, são as participações especiais de astros do cinema francês, que interpretam versões de si mesmos em situações tão banais quanto picuinhas com diretores e mudanças improváveis de rumo na carreira. O melhor de tudo, o grande trunfo, é que eles não se levam a sério.

Saber não se levar a sério e rir de si mesmo é uma importante lição de vida. Torna tudo mais leve, ajuda a quebrar o gelo. Mas não é sobre isso este texto, e sim sobre ciclos. A última temporada amarrou as pontas deixadas soltas ao longo do percurso. Todos os personagens tiveram suas histórias bem desenvolvidas, coerentes com seus (deliberados) estereótipos. A série terminou no auge, tendo se resolvido de forma bastante satisfatória e deixando no espectador aquela gostosa saudade de algo que foi bom, mas que chegou ao fim.

Não é incomum que muitas séries passem do ponto. Elas esgarçam suas histórias, forçando a barra ao alongar subtramas desinteressantes e completamente dispensáveis, com novos personagens surgindo de paraquedas ou subvertendo fios narrativos anteriores a ponto de deixá-los incoerentes. Tentando tornar mais duradouro, acabam por destruir o sucesso que alcançaram. E a manobra – invariavelmente – fica evidente. Ao fim, para o público, a sensação é de alívio.

Não é assim também na vida? Quantas vezes a gente se recusa a dar uma história por encerrada? Quem nunca insistiu mais um pouco em um relacionamento beirando o desgaste? Quem não teve medo de largar um emprego que já dava sinais de estagnação? Tão importante quanto reconhecer o ponto de pico é agir para evitar a queda. Fica bem mais fácil quando se entende que tudo tem seu ciclo e que ciclos se encerram. E é muito melhor que o fim deixe aquela gostosa saudade do que foi bom.

Imagem: divulgação

5 comentários sobre “Fim de ciclos

  1. Tudo tem o seu ciclo e ciclos terminam, dando espaço a outros recomeçares.
    Levar ao desgaste acaba por nos envolver num ciclo vicioso do qual fica mais complicado sair. Começa a envolver demais e a desgastar o emocional e quando entra o emocional ou nos viciamos nele, perdemos o rasto ao racional.
    Não vi a série, nem conhecia, mas gostei da sua critica, possivelmente ficará a referencia para uma futura visualização.
    Obrigado Pedro, tenha um excelente domingo. Abraço.

  2. Ótimo texto, Pedro!
    Quantas histórias se arrastam, às vezes na vida profissional, outras na vida amorosa, pela dificuldade de se entender que tudo que termina, ACABA! Definitivamente.
    E só assim, abre-se o caminho para o novo.
    Grande abraço!

  3. Eu não conheço essa série… aliás, eu conheço poucas, a maioria são mais antigas. Ando meio longe desse cenário. Mas eu sou a que salta no abismo sempre. A que conjuga o verbo mudar o tempo todo e que deixa ir também. Adoro um ponto final. rs

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