O algoritmo desenganado

Se você esteve nas redes sociais ou passou pela Netflix em algum momento depois do Natal, certamente se deparou com ‘Bridgerton’. Aconteceu comigo, com muitos amigos meus e com gente que sigo no Twitter. Pela forte recomendação e pelo burburinho gerado, assisti à primeira – e, por enquanto, única – temporada da série. Não sabia que ela era baseada em best-sellers da escritora americana Julia Quinn, tampouco que era produzida por Shonda Rhimes, responsável pelo estrondoso sucesso de ‘Grey’s Anatomy’.

Ao fim, confirmei que a história de oito irmãos em busca de amor, felicidade e casamentos perfeitos na alta sociedade londrina do início do século XIX não fazia mesmo meu tipo, como havia percebido já no primeiro episódio. Não abandonei por dois motivos. Primeiro, porque tenho extrema dificuldade em deixar livros, filmes e séries pela metade (e, em alguns casos, a insistência é bem penosa). Segundo, porque há qualidades em ‘Bridgerton’ que podem ser ressaltadas, como a trilha sonora que mescla espertamente o clássico e o contemporâneo, uma estética impecável e uma dupla de protagonistas bastante entrosada.

Extremamente açucarada, a série serve como um passatempo, embora seja bastante previsível do início ao fim. Sei que faria sucesso de qualquer jeito, a julgar pelo fato de que a matriz literária vendeu milhões em todo o mundo, sobretudo no Brasil. Contudo, desconfio ter sido engambelado pelo algoritmo da Netflix, que fez tudo parecer uma recomendação imperdível.

Não é de hoje que somos influenciados pelas opiniões e validações de pessoas próximas ou que admiramos. É assim desde que o mundo é mundo. Sabemos quem são os amigos a quem pedir indicações de filmes, músicas e livros, porque compartilhamos com eles predileções por determinados estilos ou gêneros. Fora isso, há sempre a vantagem de ter com quem conversar sobre essas obras. Também adotamos critérios semelhantes em relação a críticos profissionais, que não conhecemos pessoalmente, mas em cujos trabalho e gosto confiamos. Mais recentemente, as redes sociais e os influenciadores digitais passaram a desempenhar papel parecido.

O algoritmo, porém, foge à lógica. Supostamente, leva em consideração tudo o que você viu anteriormente e as classificações que deu às obras. Digo supostamente porque, como vocês já devem ter percebido, sou bastante cético e desconfio que algumas produções sejam privilegiadas de alguma forma, principalmente aquelas nas quais a própria plataforma fez vultosos investimentos. Seria o caso, por exemplo, de ‘Bridgerton’, que, mesmo não se enquadrando no meu perfil, me foi recomendada. Ingenuidade pensar que se trata de um ledo engano. Enganados somos nós, induzidos a consumir exatamente o que o algoritmo (e as mentes por trás dele) quer. Gostar é outra história…

Imagem: Netflix/divulgação

4 comentários sobre “O algoritmo desenganado

  1. Ouvi falar nessa série. Mas como não sou fã da autora e nunca consegui assitir a mais de um episódio produzido lema Shonda, passei ao largo. Mas, ouvi e li muitos comentários a respeito. Estou mais interessada em ver por que as mulheres matam? Mas, ainda não conseguir largar meus livros. Três muito bons…

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