Vidas e vidraças

Eu me autodeclaro branco; e isso diz menos sobre a cor da minha pele, e muito mais sobre todas as oportunidades que tive na vida. Sempre estudei em escolas privadas, tive plano de saúde e não precisei trabalhar para me sustentar até sair da casa dos meus pais. Partir de um ponto tão privilegiado me deu uma vantagem enorme para que chegasse até aqui: formado, com um bom emprego, um apartamento próprio e uma vida financeiramente confortável.

Tenho plena consciência de que esta não é a realidade de grande parte da população, sobretudo da maioria negra que forjou e forma este país. Porém, o fato de não ter vivido na pele as mesmas dificuldades não significa que estou alheio aos problemas que os negros enfrentam no Brasil. O racismo, sem dúvida, é o pior e mais grave, posto que estrutural, e precisa ser combatido com vigor não apenas por quem dele é vítima, mas também por aqueles que sempre o praticaram e legitimaram.

Neste ano, na véspera do Dia da Consciência Negra, uma importante data de luta, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado até a morte por dois seguranças brancos em um Carrefour na zona norte de Porto Alegre. Testemunhas dizem que ele teria se desentendido com uma funcionária do supermercado, que chamou a segurança. Truculentamente, os dois homens o levaram para o estacionamento, onde ocorreu o linchamento. Qualquer que tenha sido o estopim, nada justifica tamanha brutalidade.

Não foi uma fatalidade. Beto era um homem negro. E – historicamente – é assim que homens negros são tratados no Brasil. Desde a mais tenra infância, eles são classificados como potencialmente perigosos, vistos com desconfiança e medo. São os jovens negros os principais alvos de batidas e revistas policiais, contra quem pairam as suspeitas mais absurdas e infundadas e para os quais não há presunção de inocência, mas de culpa. É um preconceito histórico, enraizado por centenas de anos de escravidão na cultura brasileira.

Beto é mais uma prova de que o racismo mata. E negar o problema – como fizeram as duas autoridades mais importantes do país – é um claro sinal de como o racismo está arraigado em nossa sociedade. Acreditar que brancos e negros vivem a mesma realidade e dispõem das mesmas oportunidades é revelador da deliberada intenção de manter o status quo, em que uma casta minoritária e privilegiada tem acesso irrestrito a tudo, alijando a imensa maioria da população.

Não faltam, na história, exemplos de figuras que ousaram levantar a voz contra a opressão. O bárbaro episódio ocorrido na capital gaúcha fez essas vozes ecoarem novamente. E um coro se somou a elas em diversas cidades do Brasil. Unidades do Carrefour foram palco de protestos antirracistas que exigiram justiça para Beto e cobraram o fim do genocídio do povo negro. Em ao menos um deles, houve depredação. Não compartilho da opinião de que depredar seja o melhor método para chamar a atenção para uma causa, mas entendo a revolta e a considero um efeito colateral menos danoso. Vidros logo serão repostos, Beto se foi para sempre. Mas quem tem telhado de vidro se preocupa com vidraça. É preciso, hoje e sempre, reforçar o óbvio: mais do que vidraças, são as vidas negras que importam.

Foto: reprodução/redes sociais

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