Consciência e vigilância

Quando criança, gostava de acompanhar os adultos na cabine de votação, de apertar as teclas, conferir a foto dos candidatos e confirmar o voto. Competia, comigo mesmo, para tentar fazer o processo cada vez mais rápido. Com meus pais, tudo era meio burocrático; minha função se resumia a apertar os botões da urna. Gostava mesmo era de ir com minha avó paterna, que sempre me deu a liberdade de escolher por ela os candidatos. Depois, acompanhava com ansiedade a apuração para saber se quem mereceu meu voto – quer dizer, o da minha avó – foi de fato eleito.

Obviamente, chegou o dia em que eu já não era mais tão criança para ajudar os adultos, nem tinha atingido ainda a idade mínima para ser um eleitor. Não havia alternativa, a não ser esperar. Devo ter “perdido” duas ou três eleições, não me recordo bem, até que finalmente completei os dezesseis anos necessários para poder tirar o título. Ainda que o voto no Brasil seja obrigatório, sempre considerei que ir às urnas é, acima de tudo, um direito duramente conquistado, ao qual fiz questão de ter acesso tão logo fosse possível.

Desde 2006, ano em que votei pela primeira vez e em que quase fui mesário (fui liberado porque era menor de idade), não deixei de exercer meu direito em um pleito sequer. E, ao longo desses anos, tem se cristalizado cada vez mais para mim a importância não apenas de ir votar, mas de fazê-lo com responsabilidade. Quatro anos passam em um piscar de olhos, mas os estragos provocados pela displicência podem ser profundos e duradouros. Não há candidatura certa ou errada; a melhor é aquela que representa mais proximamente a visão de mundo do eleitor e levanta as bandeiras que lhe são mais caras. Raramente é simples, e quase sempre exige uma infinidade de ponderações. Daí a necessidade de pensar sobre essas escolhas com antecedência e maturá-las ao longo da disputa eleitoral.

Tão importante quanto fazer opções assertivas por determinados candidatos, tendo olhado com empenho as propostas apresentadas e as causas defendidas por eles, é a fiscalização. A política é um processo que começa pelo voto, mas que não se encerra na urna ou na apuração. É também papel do eleitor acompanhar o desempenho de seus representantes e cobrar pelos resultados pretendidos. De tão verdadeiro, tornou-se um clichê dizer que a democracia não é perfeita e que dá trabalho. No entanto, não há melhor alternativa e nós, cidadãos, precisamos corresponder à altura, conscientes e vigilantes.

Imagem: ‘A liberdade guiando o povo’ (1830), de Eugène Delacroix (1798-1863)

2 comentários sobre “Consciência e vigilância

  1. Ah, meu caro… eu me lembro da primeira vez em que fui votar. Analise as propostas, as causas. No meu país o circo político é diferente. Votei para deputado com 18 anos e aos 25 (idade para votar em senador) já não estavam em meu país. Mas a bagunça por lá é tanta que desamina o eleitor. Como é facultativo e nos últimos anos, os nomes para compor as duas casas são horríveis, opto por não entregar a ninguém porque por lá é necessário que se tenha 3% dos votos em ambas. Nos últimos anos ninguém conseguiu. Para você ter uma vaga idéia, um dos partidos mais populares foi fundado por um comediante, chamado Beppe Grillo e a idéia de anti-movimento. Ou seja, se aqui é ruim, ao menos há opção de fato.

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