Escutando por aí

Não faz muito tempo, Antonio Carlos Sarmento, do Crônicas e Agudas, fez uma diferenciação bastante interessante entre escutar e ouvir, com a qual concordo plenamente. Tidos quase sempre como sinônimos, os dois verbos apresentam nuances importantes. Diz Antonio que ouvir é um ato involuntário, ou seja, ouve-se. Já escutar, pontua ele muito bem, pressupõe uma vontade, uma disponibilidade atenta, um esforço de compreensão. Decorre daí a necessidade que encontrou de cunhar um novo substantivo: “escutante”. Muito mais relevante, portanto, que o mero ouvinte.

Os estímulos sonoros são cada vez mais abundantes e acessíveis; basta um celular para ter à disposição uma infinidade deles. Tenho feito bom proveito do que a tecnologia pode proporcionar e escutado muitos podcasts. Apesar de não ser exatamente uma novidade, o formato ampliou sua popularidade nos últimos anos, seja como companhia para deslocamentos pela cidade ou distração durante a realização de tarefas domésticas.

Não por acaso, grandes plataformas e criadores de conteúdo vêm apostando no formato. Recentemente, duas séries muito bem produzidas chegaram ao fim, ambas da Rádio Novelo, uma produtora de podcasts que tem se notabilizado pela excelência. É o caso de Praia dos ossos, que resgata a história de Ângela Diniz, assassinada a tiros pelo então namorado Doca Street. Outro é Retrato narrado, feito em parceria com a revista piauí e o Spotify, no qual é dissecada a biografia de alguma personalidade de relevo. Nos seis episódios da primeira temporada, a repórter Carol Pires esmiúça a trajetória de Jair Bolsonaro. Em comum, um trabalho de apuração de fôlego; mergulham com profundidade em seus temas, garimpando um extenso material de arquivo e dando voz a personagens daquelas histórias. Tudo isso foi compilado em episódios de cerca de uma hora, com roteiros muito bem construídos, editados e enganchados, despertando sempre a curiosidade para o seguinte. Sem dúvida, dois trabalhos primorosos.

Mas não são apenas séries que me despertam os ouvidos. A Rádio Guarda-Chuva, uma confraria de podcasts jornalísticos, tem três produtos muito diferentes entre si, mas igualmente interessantes: o Finitude, capitaneado por Juliana Dantas e que traz sempre um aspecto diferente sobre tudo que é finito; o Vida de jornalista, no qual Rodrigo Alves recebe convidados para conversar sobre a própria profissão; e a Rádio Escafandro, no qual Tomás Chiaverini propõe um mergulho profundo e muitas vezes filosófico sobre temas de grande relevância.

Há ainda outros projetos dos quais gosto muito, como o Angu de grilo, no qual as jornalistas Flávia Oliveira e Isabela Reis – mãe e filha – abordam temas que estão em alta na semana da perspectiva de duas feministas negras. No campo do jornalismo, há ainda o semanal Foro de Teresina, da revista piauí, e os diários dos principais veículos de imprensa do país: O assunto (G1), Café da manhã (Folha de São Paulo), Ao ponto (O Globo) e Estadão notícias. Também destaco o Mamilos e o Braincast, da rede B9, pioneiros no gênero e que mantêm relevância até hoje. Como não poderia deixar de ser, abro espaço ainda aos literários, como o 451 MHz, da revista Quatro cinco um, e a Rádio Companhia, da editora Companhia das Letras. E também para o Sexoterapia, do Uol, que aborda a sexualidade e relacionamentos de um jeito leve e bem-humorado.

Bons exemplos, como imagino que tenha ficado claro com as muitas sugestões e citações que fiz ao longo deste texto, não faltam. E volta e meia outros podcasts sobre outros assuntos e até de outras nacionalidades (o que pode ser ótimo para aprender ou aprimorar idiomas) aparecem nas playlists que vou montando ao longo da semana. O mais difícil é encontrar tempo para escutar – e não apenas ouvir – todos eles. Mas a gente vai escutando por aí…

Imagem: ‘DJ monkey listening to music’, de Deeya Art Gallery

5 comentários sobre “Escutando por aí

  1. Pedro,
    Ótimas dicas de podcast, que talvez seja uma reinvenção do rádio. Vou degustar, principalmente nestes dias, ao lavar louças…
    Agradeço pela citação da minha crônica e pela gentileza de colocar o link de acesso.
    Grande abraço!

  2. Podemos acrescentar à essa reflexão a diferença entre “ver” que é igualmente involuntário e “olhar” que requer sensibilidade e interesse genuíno naquilo que os olhos alcançam!!!!
    Tá lançado os escutantes e os olhantes!!!!rsrsrs…..

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