Ter para ser?

Já faz um tempo, anos talvez, li uma reportagem que falava de um perfil de viajante que estava em alta: o dos que buscavam experiências nos lugares que visitavam, mais do que acumular objetos. Até então, eu tinha o hábito de trazer muitos souvenires na bagagem, lembranças que funcionavam quase como portais: bastava olhar para elas e a mente voava de volta àquele destino.

A matéria – não lembro se de uma revista semanal ou de um suplemento dominical de jornal – trazia o exemplo de uma brasileira que, de viagem a Paris, dispensou réplicas em miniatura do Arco do Triunfo, bolsas de grife, perfumes e champanhes franceses. O dinheiro para tudo isso foi gasto de outra maneira, com um jantar no restaurante da Torre Eiffel. O texto ressaltava que, como não era rica, a moça em questão optou por abrir mão de uma série de outras atividades e compras em troca daquela experiência. A turista contou ao repórter que, em nenhum momento, se arrependeu da pequena fortuna gasta em uma única noite.

Em um primeiro momento, julguei como estapafúrdia a decisão de investir tanto dinheiro em uma refeição. E uso “investir” porque, contou a viajante, planejou, reservou e economizou com bastante antecedência o tal jantar. Depois, entendi que aquele não era um simples desejo, era um sonho que conseguiu concretizar. Foi feliz com a experiência que viveu e nunca mais vai esquecer. E, não estando louco para condenar a felicidade alheia, acabei ficando satisfeito por ela.

Questionei as viagens que eu mesmo fazia. Já nas férias do ano seguinte, me permiti seguir o exemplo daquela mulher. Não, não jantei na Torre Eiffel. Paris nem fazia parte do itinerário. Estava do outro lado do Canal da Mancha, em dúvida sobre comprar ou não um ingresso para assistir ao musical ‘O rei leão’ no teatro londrino. O preço do bilhete era um tanto alto, mas quando eu voltaria à cidade para ver um espetáculo baseado em um dos meus filmes favoritos? Valeu cada centavo de libra. Em anos posteriores, também me permiti outras experiências, tão intensas e memoráveis.

Volta e meia penso naquela reportagem. Até hoje, ela me faz refletir sobre prioridades e, extrapolando o universo das viagens a que originalmente se referia, sobre conceitos tão abstratos e filosóficos quanto ser e ter. A partir dali, entendi que o ter não é necessariamente o mais importante. É lógico que é confortável ter a segurança de um imóvel próprio para morar e uma poupança confortável para imprevistos; o resto pode ser dispensado. A leveza de não acumular coisas, das pequenas às grandes, é muito recompensadora. Venho preferindo experiências que vou guardar na memória por muito mais tempo do que bibelôs na estante. Ter para ser? Não, melhor viver para ser.

Foto: ‘The lion king’/divulgação

3 comentários sobre “Ter para ser?

  1. É isso aí, aquela frase clichezona de que o que a gente leva dessa vida não são coisas se encaixa perfeitamente aqui. No fim o importante é fazer aquilo que te satisfaz o coração 😉

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