As pedras atiradas

Que atire a primeira pedra quem nunca errou. Eu mesmo, incontáveis vezes. E, em uma delas, justamente por pedras atiradas. Explico. Morei, durante toda a infância e parte da adolescência, em um prédio que era vizinho a uma vila. Além do muro, havia uma rivalidade a separar as crianças de cá e de lá. Como ninguém nunca soube dizer como tudo começou, parecia coisa inata: um lado não suportava o outro. E as provocações – de ambas as partes – eram constantes.

Em uma das casas coladas ao muro, morava um menino chamado Yuri, o líder da facção mirim da vila. Era ele quem, com ar bastante autoritário e voz bem aguda, ditava as regras das brincadeiras e como e quando os de lá provocariam os de cá. Com três blocos e muitos apartamentos, a facção do prédio era numerosa a ponto de ter vários líderes. Um deles era eu. Tinha posição privilegiada na contenda: da minha varanda, no terceiro andar, tinha visão panorâmica e estratégica do território inimigo. Via a entrada da vila, a rua principal e a casa do chefe rival.

Em um dia de calor, quando eu e um casal de irmãos, vizinhos de andar, brincávamos na varanda, Yuri e seus asseclas deram início às provocações. Esfregavam em nossas caras a liberdade de que gozavam na maior rua da vila, enquanto nós estávamos circunscritos a uma pequena varanda de apartamento. Sem acusar o golpe, pensamos em como responder à altura. Foi então que a vizinha, mais velha e mais astuta que eu e o irmão, sugeriu usar as pedras do jardim.

Sem hesitar, cada um de nós pegou um punhado delas e, mirando os inimigos do alto, iniciamos o ataque. Como estávamos muitos andares acima, a salvo de qualquer possibilidade de revide, não tiveram opção a não ser bater em retirada. Abrigaram-se na casa de Yuri e, pelo menos por breve período, nos deram trégua.

Ainda saboreávamos a vitória quando o interfone tocou. Do outro lado da linha, parada lá na portaria, a mãe de Yuri narrava para a minha a batalha campal que tínhamos travado instantes atrás. Não cobrava reparação, porque não houve qualquer dano físico ou material, mas tinha sede de justiça. O doce sabor do triunfo logo ficou amargo: a brincadeira deu lugar ao castigo. Tanto no prédio quanto na vila.

Lembrei-me desta história há poucos dias, quando topei com uma circular do síndico do condomínio onde moro agora. O comunicado diz que a administração foi procurada por uma academia da vizinhança, que reclama de danos materiais provocados por objetos jogados contra seu telhado e ameaça ir à justiça caso o problema não seja resolvido. Embora consiga ver a academia da minha janela e ache que os decibéis da música vinda de lá ultrapassam o limite do bom senso, juro que nada tenho a ver com isso. Espero que tudo se resolva com diálogo e razoabilidade de ambas as partes. E que os adultos de agora aprendam a lição que tive ainda quando criança: em uma guerra, não há vencedores, apenas vencidos.

Imagem: ‘Os pequenos brigões’ (1867), de Johann Grund (1808-1887)

2 comentários sobre “As pedras atiradas

  1. Os erros da infância são prazerosos, eu sempre me lembro de alguns e me divirto com eles… é de uma ingenuidade curiosa, embora, às vezes, também exista maldade da parte de alguns. Agora, reclamações por parte de donos de academia estão na moda, principalmente quando são vizinhos de prédios. Não sei o que eles pretendem com aquela sonoridade toda. A maioria de quem frequenta aqueles lugares de suor e drogas lícitas e ilícitas usam fones de ouvido. Enfim, seria muito esperar bom senso? Nesses tempos atuais acho que como é um produto sem código de barras, será difícil… muito difícil.

    bacio

    • Sempre me divirto lembrando de algumas histórias da infância. Já as academias vão no sentido oposto… Eu já não gosto de musculação, embora entenda a praticidade de chegar e fazer exercício na hora que se tem disponível, mas precisa mesmo do som no máximo? Como vizinho, muitas vezes, eu já fico atordoado, imagina lá dentro…

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