Sapos na panela

Reza a lenda que um sapo, ao ser colocado em uma panela de água fervendo, imediatamente pula fora para salvar sua vida. No entanto, posto em uma panela com água fria sobre o fogo, ele vai se acostumando ao gradual aumento de temperatura a ponto de morrer cozido. Segundo algumas versões da fábula, o sapo adiou consecutivas vezes o momento de saltar dali, acreditando que resistiria ou se adaptaria à adversidade, incapaz de perceber que punha a si mesmo em perigo. Teria sido vítima da própria resiliência?

Em geral, fala-se de resiliência sempre como uma característica positiva. E não raro se exalta uma frase atribuída ao escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881) como prova. Um dos maiores gênios da literatura russa, ele teria dito que a melhor definição de um homem é a de um ser que se habitua a tudo. Para mim, tão difícil quanto confirmar a veracidade da afirmação é acreditar que o autor de ‘Crime e castigo’ tenha vislumbrado uma visão meramente positiva ao supostamente dizê-la. E é justamente a possibilidade da dúvida – para o bem ou para o mal – que torna a definição tão precisa, pouco importando quem a tenha forjado.

É bem verdade que somos seres que se habituam a tudo. A nosso favor, está a nossa capacidade de resistir e até superar grandes adversidades, como tragédias climáticas e hecatombes políticas. Por outro lado, muitas vezes insistimos na manutenção de uma realidade desagradável por pura inércia, pela preguiça em lutar contra o que está dado, mas que não é imutável. Como o sapo na panela, vamos cozinhando lentamente, sempre nos acreditando capazes de aguentar um pouco mais. Até ser tarde demais.

O primeiro passo diante de uma situação desconfortável é agir para mudá-la, vencer a inércia e a apatia. Isso, claro, exige esforço. Outra medida igualmente importante é não romantizar demais a resiliência, como se a capacidade de resistir nos aproximasse de heróis ou deuses, o que não somos. Aceitar e superar uma adversidade que foge ao nosso controle é louvável, mas deixar de agir contra algo que nos faz mal me soa como estupidez. Importam menos as razões que nos levam à panela, se é culpa nossa ou não, e mais o que fazemos para pular fora dela.

Foto: Peter Sorel/divulgação

Um comentário sobre “Sapos na panela

  1. Adorei! Não conhecia essa história do sapo. Concordo com você que a resiliência tem limite. Por isso autoconhecimento é tão importante para entendermos se temos a chance “lutar” ou que o melhor é pular pra fora da panela.

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