Ruminações ambientais

Como prometido na fatídica reunião do dia 22 de abril, o ministro Ricardo Salles fez passar a boiada na reunião de terça-feira do Conselho Nacional do Meio Ambiente, do qual ele é presidente. Foram revogadas resoluções que restringiam o desmatamento e a ocupação em áreas de preservação ambiental de vegetação nativa, como manguezais e restingas. Além disso, também foi permitida a queima de lixo tóxico em fornos de produção de cimento e suprimida a exigência de critérios de eficiência de consumo de água e energia para aprovação de projetos de irrigação.

Não causa nenhuma surpresa a nova investida de Salles contra o meio ambiente que ele – como prerrogativa do cargo que ocupa – deveria proteger. Na contramão do que pensava ou queria o ministro, ambientalistas não estavam distraídos com a pandemia e reagiram fortemente às medidas que podem causar danos irrecuperáveis ao meio ambiente. E foi justamente esse possível impacto irreversível que levou a justiça federal do Rio de Janeiro a suspender em caráter liminar as decisões do conselho. Contudo, a suspensão foi revertida dias depois, e a passagem da boiada voltou a valer.

O desapreço pela natureza é gigantesco e não se limita ao governo federal, que tenta se eximir da culpa por deixa arder biomas importantes como a Amazônia e o Pantanal. Também os governantes locais, sejam governadores ou prefeitos, pouco ou nada fazem para preservar ou recuperar nossos bens naturais. Quase nenhum deles dá ouvidos aos já conhecidos benefícios do verde à saúde e à qualidade de vida. E nem mesmo os argumentos econômicos favoráveis à preservação parecem capazes de convencê-los a agir.

Esgoto sem tratamento sendo despejado em rios e lagoas? Ar irrespirável por excesso de fumaça de fábricas e automóveis? Árvores plantadas em minúsculos quadradinhos de terra e cercadas de cimento por todos os lados? Todas questões consideradas menores, quando não alvo de um negacionismo crescente. Fingem não ver os problemas, esses papos furados de ecochatos que não têm mais o que fazer a não ser atrapalhar o progresso. Os europeus mesmo, costumam argumentar, já destruíram o que tinham para fazer avançar a civilização.

Deliberadamente, desconsideram que os tempos são outros e a urgência com que devemos reverter o quadro em que nos encontramos. Quanto mais demoramos a agir, maior o preço a ser pago; e não são poucos os estudos que apontam que pagaremos este alto custo com vidas. De nada adianta classificar como alarmismo a realidade que se impõe. Não se trata mais de gostar ou não de plantas (e já confessei aqui minha completa inabilidade em cuidar delas), a preservação do meio ambiente é um imperativo do qual depende a nossa sobrevivência. Se é que queremos mesmo sobreviver…

Imagem: ‘Pequena floresta’ (1890), de Paul Cézanne (1839-1906)

2 comentários sobre “Ruminações ambientais

  1. Pedro,

    Você está corretíssimo no seu texto, pois o futuro do planeta está muito comprometido e o que será da humanidade!!!

    Luiz Rabello

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