Correndo de corridas

Recentemente, parei de correr. A bem da verdade, nunca corri de fato, só tentei. As pessoas que correm de verdade (ou que treinam, como costumam dizer) contam seus percursos em múltiplos de cinco. Eu, por mais que tenha me dedicado, em momento algum tive fôlego para mais do que quatro quilômetros. É que correr exige não apenas condicionamento físico, mas técnica e muita disciplina. Sei que o ritmo deve ser aumentado gradativamente, o que contraria meu ímpeto de partir do zero e correr uma maratona na velocidade da luz.

Embora tenha me esforçado, confesso que nunca gostei de corrida. Admiro a dedicação de quem, faça chuva ou sol, põe um par de tênis nos pés e sai por aí tentando baixar o próprio tempo. Eu mesmo só tentava não baixar no hospital, achando que teria um infarto depois de meia hora correndo. Fazia por obrigação, como uma forma de incluir na rotina alguma atividade física para ter melhor qualidade de vida. Gostava quando amanhecia chovendo e não podia na rua? Sim. Torcia para que a academia estivesse cheia e sem esteira disponível? Também.

Tive a ideia de tentar conciliar corrida e bicicleta, alternando os dias, mas percebi que nem assim funcionava. Resolvi aceitar que correr não era mesmo para mim e troquei de vez as passadas por pedaladas. Como que milagrosamente, sumiram a indisposição e a torcida para que chovesse. Aliás, é sempre melhor quando faz um dia bonito, porque tenho também a sorte de ter como cenário o Aterro do Flamengo, com vista para o Pão de Açúcar e para o Cristo Redentor, ouvindo uma infinidade de espécies de pássaros que nem sei o nome.

Tenho feito percursos diários de cerca de onze quilômetros. Além de me questionar se deveria contar o trajeto em múltiplos de cinco, como fazem os corredores, tenho pensado bastante sobre ter trocado uma modalidade por outra e o que isso representa num sentido mais amplo. Por muito tempo, pratiquei um esporte de que não gosto, mesmo podendo trocá-lo por outro que cumpriria bem o mesmo objetivo. Quantas vezes insistimos em fazer algo que nos contraria quando temos a chance de mudar por algo que nos satisfaça? Por que se martirizar à toa? Ainda bem, nunca é tarde para perceber que isso não faz o menor sentido. Agora, corro de corridas.

Imagem: ‘Man running through time’ (2017), de Roger Davison

Fome de poesia

Três haicais para quem tem fome de poesia. E uma sobremesa…

Olho grande
Pouco importa
se raso ou fundo, quer
o prato cheio.

Queixas
Irei almoçar.
Depois, eu reclamo de
barriga cheia.

Às voltas com a balança
Para perder os
pneuzinhos, vai passar a
correr de carro.

Dieta da lua
Mesmo com paciência minguante,
testou uma receita nova
com uma expectativa crescente
de que ficasse de barriga cheia.

Imagem: ‘Os comedores de batata’ (1885), de Vincent Van Gogh (1853-1890)

A infância dos bichos

Ninguém nasce sabendo, mas com haicais também se aprende.

Lições de vida
Para crescer, o
girino aprende a
engolir sapo.

Na casca do ovo
Nasceu e viu
o mundo; o pintinho
ficou chocado.

Galinheiro
Pintinho sonha
com o dia em que vai
cantar de galo.

Imagem: ‘Hot chick’ (2017), de NR. Morris

Sobre a morte

Não adianta evitar o tema, um dia ela chega. Nem que seja em haicais.

Foice
Se alguém lhe der
martelo, até morte
é comunista.

Dos pavores
Se tenho medo
de morrer? Vou confessar,
morro de medo.

Último beijo
Tentou salvar o
amor com respiração
boca a boca.

Imagem: ‘Morte e vida’ (1916), de Gustav Klimt (1862-1918)