As razões da escrita

Pelo menos dois grandes clichês rondam aqueles que escrevem, profissionalmente ou por hobby. O primeiro deles é a página em branco. Leitores frequentes certamente já esbarraram com um punhado de textos sobre bloqueios criativos e dificuldades de transpor ideias da cabeça para o papel. Se os autores não forem suficientemente originais, é possível até que quem lê revire os olhos ou dê um grande bocejo ao se deparar com algo do tipo.

Fique tranquilo, o texto que você está lendo agora não vai tratar disso. Porém, vai trazer outro chavão da literatura: por que escrever? Os motivos podem ser tão diversos quanto são os autores existentes no mundo, indo da vontade de compartilhar uma boa história a uma necessidade quase fisiológica de se livrar de um assunto que martela a mente. Pouco importam as razões originárias; em última instância, escreve-se para ser lido. Uns, para multidões. Outros, para o que virão a ser no futuro (não é para isso que servem os diários?).

Foi assim com Victor Hugo, Jane Austen e Machado de Assis. É assim com Luis Fernando Verissimo, Ian McEwan e Mia Couto. Acontece também comigo e, muito provavelmente, com você, caso escreva. Com o protagonista de ‘As desventuras de Arthur Less’ não é diferente. Tudo o que ele almeja é ter muitos leitores. E, com tamanho ambição, ser um escritor medíocre em um círculo formado por expoentes da literatura contemporânea não deve ser nada fácil. Menos ainda quando ele se torna conhecido por ser amigo de um grande autor, solicitado não para falar da própria carreira, mas da de outro.

“O beijo na bochecha é mal calculado e pousa na boca do professor de história; ele cheira a pão de centeio. Um lampejo de seis anos antes, vendo a silhueta dele no teatro e pensando: Eis uma boa companhia. Um homem com quem ele quase ficou, que quase amou, e agora mal o reconhece na rua. Ou Less é um escroto, ou o coração é um músculo inconstante. Não é impossível que ambas as coisas sejam verdadeiras.”


Andrew Sean Greer, in 'As desventuras de Arthur Less'

Como nada é tão ruim que não possa piorar (por favor, me perdoe por incluir mais esse clichê aqui), um Arthur Less às voltas com a chegada de seus cinquenta anos recebe o convite para o casamento do homem com quem se relacionou por quase uma década. Se, por um lado, comparecer à cerimônia lhe parece inapropriado, recusar de imediato, por outro, confirma a derrota. A solução para fugir do ex-namorado e, de quebra, da crise de meia-idade é aceitar uma série de convites para pequenos eventos literários ao redor do mundo.

À medida em que passa por Paris, Berlim, Marrocos e Índia, para citar algumas paradas, o escritor vai percebendo o óbvio: é impossível fugir de si mesmo e da própria história. Sim, eu sei, é mais um clichê que eu trago para este texto, mas garanto que o livro de Andrew Sean Greer, publicado no Brasil pela editora Record, empilha muitos lugares-comuns da literatura para, com um peteleco travesso e satírico, pôr tudo abaixo. Não é por acaso que ‘As desventuras de Arthur Less’ seja um best-seller nos Estados Unidos e tenha vencido o prêmio Pulitzer de ficção em 2018. Também não é sem razão que Greer, assim como eu e todos os que escrevem, tenha conseguido merecidamente o que queria: ser lido.

Imagem: Julianna Lee/Leo Espinosa/divulgação

Pelo mundo

Um passeio ao redor do planeta através de haicais…

Dúvida hispânica
O contrário da
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Lei seca nos EUA
Não bebo em bar
de lá; odeio copo
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Última volta
Tirou rival da
prova e apanhou do
corredor polonês.

Gestos idiomáticos
Se lhe prendem as
mãos, não consegue falar
italiano.

Imagem: ‘Mapa mundi’ (1731), de Daniël Stoopendaal (1672-1726)