No galinheiro

Se você pensa em escrever haicais, não tenha pena.

Pondo em dúvida
Intrigada, a
galinha procurava
pelo em ovo.

Assombração
Depois que morre,
uma galinha vira
alma penada.

Machucado
Estabanado,
o pintinho vive com
galo na testa.

Imagem: estúdio de Melchior d’Hondecoeter (1636-1695)

A vacina de Brian

Recentemente, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou a aprovação de uma vacina para a Covid-19 apenas dois meses depois do início dos testes em humanos. Surpreende menos o fato de que a filha dele já teria sido imunizada, e mais a velocidade de todo o processo. A chamada Sputnik V não figurava na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS) das que já tinham alcançado a fase três – e mais ampla – dos testes clínicos e nenhum estudo sobre sua eficácia foi publicado.

No momento em que boa parte do planeta deposita uma enorme expectativa em uma vacina, o anúncio de Putin, que à primeira vista parece reconfortante, me fez lembrar de ‘A vida de Brian’, comédia satírica lançada pelo grupo britânico Monty Python em 1979. No filme, uma série de mal-entendidos leva a multidão a acreditar que o protagonista é o salvador da humanidade. Por mais que não tenha tido a intenção de ser um messias, Brian é um blefe, seguido fiel, cega e perigosamente por uma horda disposta a entender os mínimos gestos como milagres.

Na ciência, porém, não há espaço para a fé. Ou não deveria. É fundamental que a Rússia prove – com o mais absoluto rigor científico – que a vacina recém-aprovada é Jesus, e não Brian, para manter o paralelo com o filme. Não bastam apenas os discursos do presidente e de autoridades sanitárias para comprovar o milagre do desenvolvimento da primeira vacina eficaz e segura para a Covid-19, sobretudo em um país que não tem a transparência como virtude e que usa, esconde ou distorce informações de acordo com interesses geopolíticos.

Ainda que nenhuma comprovação científica tenha sido fornecida, muita gente busca ver nesta vacina o lado bom da vida. É o caso do governo do Paraná, que firmou uma parceria com a Rússia para trabalhar no desenvolvimento da Sputnik V e pretende negociar a transferência de tecnologia para produzir e distribuir o composto no estado. É fundamental que seja uma esperança desconfiada, a ser ratificada pela análise dos dados à luz da ciência.

Não se trata de uma questão ideológica. Sem qualquer respaldo técnico da comunidade científica internacional, a vacina russa deve acabar crucificada. O momento exige extrema cautela, e nunca é demais lembrar que não se deve descuidar das medidas já comprovadamente eficazes para conter o avanço da doença. O fato de haver uma vacina no horizonte, seja a russa ou qualquer outra, não permite relaxar os cuidados. Qualquer ato precipitado poderá custar milhares – ou até milhões – de vidas. Uma vez mais, é preciso estar vigilante para que Pilatos não lave suas mãos.

Foto: David Appleby/divulgação

Construções poéticas

A escrita de haicais pode ser como a engenharia: é preciso um cálculo exato para que a obra seja perfeita. Às vezes, subvertendo as regras, eles param de pé.

Tijolo por tijolo
O mestre de obras
era quem melhor fazia
poemas concretos.

Paz aparente
O arquiteto
foi assaltado pelo
concreto armado.

Engenharia social
Com diálogo,
o engenheiro tenta
construir pontes.

Imagem: ‘Estúdio de inverno em construção’ (1929), de Edvard Munch (1863-1944)

A morte, a boiada e a vingança da natureza

A morte está sempre à espreita da vida. Desde que nascemos, temos uma certeza: morreremos um dia, não importando o que aconteça entre o início e o fim. Nem todos nós lidamos bem com a ciência do destino inescapável. Uma pesquisa do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil de 2018 mostra que falar sobre a morte é um tabu para mais de 73% dos brasileiros. Quase metade deles não está pronta para lidar com a morte de outra pessoa e 30% têm muito medo de morrer, percentual semelhante ao daqueles que não sabem como ou com quem falar sobre o tema.

Nunca é fácil, e nunca será. Nenhuma perda é igual a outra. Cada morte é única porque traz consigo um contexto: a relação que se tinha com quem se foi, as circunstâncias do falecimento e o momento de vida de quem fica. São variáveis complexas demais para que haja uma fórmula pronta. Contudo, a inexistência de uma cartilha que possa ser seguida à risca com a garantia de que o luto será satisfatoriamente concluído não invalida qualquer tentativa de procurar ajuda, profissional ou não. Ninguém deve se considerar fraco por buscar apoio, tampouco se medir pelas réguas dos outros; dores não são comparáveis e não há uma escala de perdas.

“Mas por que, então, deveríamos ser úteis? E para quem? Quem é que dividiu o mundo em útil e inútil, e quem lhe deu o direito de fazê-lo? Desse modo, o cardo não teria o direito de viver, nem um rato que devora os grãos nos armazéns, nem sequer as abelhas ou os zangões, as ervas daninhas ou as rosas. Quem foi o dono da mente que se atreveu a tanta arrogância para julgar quem é melhor ou pior? Uma árvore enorme, torta e cheia de buracos sobreviveu por vários séculos sem ser derrubada, porque não se podia fazer nada com ela. Esse exemplo deveria animar pessoas como nós. Todos conhecem o benefício do útil, mas ninguém conhece o proveito do inútil.”


Olga Tokarczuk, in 'Sobre os ossos dos mortos'

Evidentemente, o fato de ser um assunto tabu reveste a morte de ainda mais mistérios, mas evitá-la só torna a questão ainda mais difícil. É o que tenho aprendido ao ouvir o Finitude, podcast apresentado pela jornalista Juliana Dantas que aborda tudo o que é finito – a vida, em particular – e que passa a ter episódios semanais a partir da atual temporada, depois de uma longa, completa e bem-sucedida maratona para trazer informações e suscitar reflexões importantes sobre a pandemia do novo coronavírus.

O Finitude se propõe a falar tanto de aspectos práticos quanto filosóficos. Foi com o podcast que descobri, por exemplo, a importância de manifestar e deixar registrados os desejos pós-morte. À primeira vista, parece fúnebre decidir ainda em vida o que queremos fazer com nossos corpos (se serão enterrados, cremados ou encaminhados para estudo e se nossos órgãos serão doados) e que rituais serão celebrados (se haverá velório ou alguma cerimônia religiosa), mas expressar estas últimas vontades pode orientar quem fica e aliviar o sofrimento em um momento de dor.

E quanta dor temos presenciado este ano! No início de agosto, o Brasil superou a triste marca de cem mil mortes provocadas pela Covid-19, muitas das quais poderiam ter sido evitadas se houvesse uma articulação séria entre as esferas municipais, estaduais e federal no enfrentamento da pandemia. Infelizmente, não foi o que se viu; e o resultado é um número escandaloso e inaceitável de vítimas. Diuturnamente, as maiores autoridades do país se preocuparam em minimizar a gravidade da doença, conclamando o povo a (pretensamente) salvar a economia, em vez da vida de seus compatriotas.

Na reunião ministerial do dia 22 de abril, tornada pública um mês depois, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerou justo aproveitar uma falsa distração da sociedade e da mídia – focadas na pandemia – para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. Ou seja, enquanto o Brasil buscava entender os efeitos do coronavírus, o ministro sugeria ao presidente medidas que supostamente removeriam entraves burocráticos aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável, mas que – na prática – promoveriam um desmonte da política ambiental brasileira, que Salles, pelo cargo, deveria defender e fortalecer.

“- Uma vez tive duas cadelas que prestavam muita atenção para que tudo fosse dividido justamente – comida, carinho e privilégios. Os animais têm um senso de justiça muito bem desenvolvido. Lembro do olhar delas quando eu fazia algo errado, quando as reprovava injustamente ou não cumpria a palavra. Olhavam com uma dor tão grande, como se não conseguissem entender como eu podia ter violado a lei sagrada. Aprendia com elas uma justiça absolutamente básica e natural. – Silenciei por um momento, e depois acrescentei: – Nós temos a visão do mundo, mas os animais têm a percepção do mundo. Sabia disso?”


Olga Tokarczuk, in 'Sobre os ossos dos mortos'

O tamanho desapreço do ministro do Meio Ambiente pela natureza me voltou à mente ao terminar de ler ‘Sobre os ossos dos mortos‘, livro escrito pela polonesa Olga Tokarczuk em 2009 e lançado no ano passado no Brasil pela editora Todavia. No romance, a vencedora do Nobel de literatura em 2018 conta a história de Janina Dusheiko, uma professora de inglês aposentada que vive em uma região remota da Polônia. É neste ambiente inóspito, e muitas vezes hostil, que ela se empenha em sabotar armadilhas e impedir a caça de espécies silvestres. Um dia, um vizinho aparece morto. E logo outros corpos são encontrados, todos próximos a vestígios deixados por animais. A teoria de que se trata de uma vingança da natureza ganha força e Janina se torna, então, a figura aparentemente mais preparada para elucidar os crimes.

Além do direito dos animais, tratados com absoluta reverência pela protagonista, o romance também propõe discussões instigantes sobre temas como a loucura, a justiça (ou a falta dela) e a hipocrisia da religião. Ainda que sombrio na maior parte do tempo, um reflexo do lugar ermo que lhe serve de cenário, o livro traz um tom de fábula e inúmeras passagens profundamente filosóficas, que convidam o leitor a uma reflexão antes de prosseguir na leitura. É louvável que Olga Tokarczuk tenha conseguido escrever um livro tão macabro quanto doce, em que o desprezo pela humanidade e o respeito pela natureza estão perfeitamente dosados, e com um final surpreendente.

Imagem: Talita Hoffmann/Todavia/divulgação

Doces delícias

Uma série de haicais vindos diretos da padaria.

Dúvida perigosa
Bomba de creme
a gente pode comer
até explodir?

Resma açucarada
Alguém já contou
pra saber se aqui tem
mesmo mil-folhas?

Doce deleite
Estaria eu
dormindo ou comendo
aquele sonho?

Imagem: ‘Bakery case’ (2018), de Clay Vorhes